sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Mulheres de hoje...

 

Ontem, numa aula de grupo de coaching, uma jovem mulher expressava a ansiedade gigante sobre o emprego atual que era demasiado físico e perigoso (trabalha no ramo industrial, com químicos) e dizia que adorava um dia ter uma relação - e até uma família (com filhos) - mas que isto a impedia de concretizar isso.

Fiquei pasmada. Eu e os outros que estavam a assistir. Pedi a palavra e dei-lhe a minha opinião sobre o assunto, partilhei o que achava. Depois disse-lhe que no Slack do programa que andamos a frequentar iria falar com ela em privado. 

Confesso que me espanta quando as pessoas logo de raiz se bloqueiam à força toda por coisas que ainda não aconteceram.

O curioso é que eu sempre fui aquela que sofre por antecipação, mas dadas as chapadas que uma pessoa vai tendo na vida já aprendi vagamente a lidar com a ansiedade. Bem. Tem dias. Muitas dias mesmo. Mas pronto, irei ajudá-la no que puder com alguma troca de ideias e conversa.

Às vezes acho que o meu propósito de vida é ser uma espécie de coach e motivadora de pessoas. Mas eu faria um modelo ligeiramente diferente. Primeiro dava uns valentes estaladões bem dados por causa de tanta estupidez que oiço, e depois ia consolar a ansiedade e ajudar então a iluminar ideias.

O risco

   

Mark Zuckerberg
foi categórico sobre medo de arriscar:
“o maior risco
é não correr nenhum risco”.



Vision board

 

Ando a ouvir as lições de uma míúda craque em literacia financeira que não deve ter nem 30 anos... e logo na 2a aula ela fala em sonhos. Apontei isto:

"Vision board é construir uma espécie de quadro onde colocas fotos ou frases, o que for, daquilo que queres ou daquilo que te motiva. É sobre a nossa vida.

Ter sonhos, ter objetivos, é algo que move a vida, que nos dá força e garra para a abraçar.

Sonhos sem um plano é a mesma coisa que deixar à toa nas mãos do destino, o que acontecer aconteceu. Temos de transformar os nossos sonhos em objetivos, e para os nossos objetivos temos de ter sempre um plano. Vamos então traçar um plano? Depois do vision board vamos transformar isso em coisas mais tangíveis: objetivos de curto prazo, médio prazo e longo prazo.

Importante: é preciso nós escrevermos os nossos objetivos, o tal algo que ainda não é real (isso ajuda sempre a visualizar melhor, a fazer algo mais do que manifestar ao universo). Quando nós escrevemos os nossos objetivos as coisas já ficam um passo acima, já saíram da nossa cabeça. E é assim que, com o tempo, eles vão ganhando forma."


No próximo texto irei começar a minha lista (ainda random) de sonhos/objetivos. 

A ver o que sai dali!

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Deprimida?

 

Sinto-me super deprimida.

A semana passada foi o largar tudo e fosse o que Deus quisesse, que aproveitasse o que havia para aproveitar.

Esta semana, no entanto, parece que o mundo caiu em cima de mim novamente e sinto-me super deprimida, triste, ansiosa. Parece que não tenho forças. Só me apetece chorar a toda a hora. Não sei se é o período que aí vem, se são as malditas hormonas da praxe que me provocam estas sensações.

Sinto-me séria e muito calada. 

Vou buscar os miúdos e mal pergunto coisas, mal falo. Estou noutro sítio, nem sei bem qual. Não tenho paciência para sorrir e ou brincar. Sinto-me séria, os lábios teimam em não sorrir.

Passei 2 dias a ser relativamente produtiva, finalmente. Mas com tudo tão instável - embora a sensação de estar a tratar de vários assuntos e pôr a máquina a andar seja boa - não me consigo sentir feliz por isso.

Agora ao fim da tarde os miúdos jogam nos computadores com amigos. Falam em alta voz com eles e oiço a voz aguda de todos. Todos gritam e falam alto. Peço para fecharem as portas. Não aguento este barulho depois de poucos dias alternando em silêncio profundo, ou com algum podcast aqui e ali ou com música. O barulho é insuportável.

Sinto-me do mais deprimida possível. Espero que o meu mal seja sono e hormonas, e que isto estabilize rapidamente. Not fun.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

A senhora

 

Estou num museu. 

Vejo obras de Picasso, as várias fases da vida/obra dele. Tudo aquilo é fascinante.

(Entretanto descobri há dias que ele era um pulha e que batia nas mulheres que teve, e era intragável de feitio. Fiquei ligeiramente off...)

Por baixo do museu descubro que há uma exposição permanente de... ruínas romanas. Devem ter sido descobertas quando andaram a preparar o edifício para alguma remodelação (o edifício é uma casa antiga muito bonita no meio da cidade).

Não vejo interesse especial naquele bocado, já vi ruínas bem mais interessantes noutros sítios (até no meu país). Mas deambulo por lá com o mais novo ao meu lado, a contar qualquer coisa de um jogo "super importante".

O meu olhar, de repente, depara-se com uma senhora. Está sozinha. Não consigo perceber quantos anos tem, mas há algo ali que me deixa em transe quase. Pelo canto do olho vou-a observando. Parece ser bonita. É muito elegante. Tem vestido um conjunto de calças e camisola (já não sei se era t-shirt ou camisa, algo assim). Mas, se não me falha a memória, umas das peças é branca e outra azul. É loira, cabelo liso e esticado pelos ombros/queixo. E... o máximo dos máximos: tem um chapéu. Um panamá parece-me, claro com uma fita escura à volta.

Tem muito estilo e passeia absorta pelo local, alheia a toda a gente que passa por ela. Tiro-lhe uma foto à socapa. Penso: quem será ela. Porque está sozinha? É casada? Divorciada? Nunca se casou? O que faz na vida? Está aqui de passagem? Vive aqui na cidade? Quem és tu senhora elegante. 

Ela é um mistério. E eu adoro um bom mistério.

E gostava que um dia alguém olhasse para mim e também pensasse "mas quem é aquela senhora, dona daquela pose quase surreal e divina, cheia de estilo".

Foi um momento no tempo, vi-a durante uns minutos apenas. Mas acho que não me irei esquecer mais dela, daquele ar absorto, elegante e quase altivo (mas de um bom modo). Ela foi um poema na minha mente e imaginação.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A mulher das manhãs da escola

 


Durante anos cruzei-me com uma mulher lindissima (mais velha do que eu, diria, mas é melhor não apostar - curvilinea, cabelo preto comprido, olhos verdes bem maquilhados, uma espécie de Monica Bellucci mas de olhos verdes - essa mulher é mais ou menos o meu ícone de beleza) que levava o filho à escola ao mesmo tempo que eu levava os meus. 

Ou nos cruzávamos à ida (eles iam sempre com passo mais rápido e mais à frente) ou à vinda (ainda de manhã) quando ela voltava já da escola. Ela sorria e dizia Bom Dia, eu idem. Nunca trocámos mais palavras do que isto.

Ela parecia ser muito simpática e sorria-me sempre. Por vezes passou-me pela cabeça (aquele feeling que às vezes temos) que ela gostaria de parar e conversar um bocado. Mas a diferença entre nós é que ela descia calmamente algumas ruas a falar descontraidamente com o filho (pelo que soube hoje e já desconfiava, mora ali perto) e eu descia a rua em passo super rápido para ver se os 2 miúdos entravam rapidamente na escola, para eu depois voltar ao carro. Cheguei a ir para o carro a correr literalmente, tal era o stress e pressa, porque tinha mesmo de entrar no trabalho a horas (era super controlada e também queria sair a horas por causa... dos miúdos). Por isso, nunca houve grandes possibilidades de conversa. Nos últimos tempos, eu já não corro para o carro, mas também já não me cruzo tantas vezes com ela porque os meus horários e pressas mudaram ligeiramente...

Hoje tive de ir à escola com os miúdos. 

E, quase ao ir embora, esbarrei com uma pessoa que estava na fila da papelaria. Esse alguém voltou a sorrir-me imenso como se fossemos velhas conhecidas. Sorri também enquanto dentro da minha cabeça pensava furiosamente em que era ela afinal... mãe de quem, etc etc. Depois percebi. E pela primeira vez em anos (sim...ANOS) falámos um pouco. Ela perguntou se estavamos bem, comentou que os miúdos estavam super crescidos, parecia agradada e espantada. Percebi que o filho dela tinha entrado para a mesma área que o meu mais velho, etc. 

E, de repente, disse uma coisa que teve algum impacto em mim e que achei muita piada. Ela parecia refletir na vida quando afirmou o seguinte, ao olhar para eles com curiosidade: "Eles estão mesmo grandes e é muito curioso, olho para eles e lembro-me de quando eram bem mais pequenos e com ar bem novinho. É giro... eu, durante anos, vi-os crescer. Vi-os quase todos os dias, meses, anos a passarem por mim, tenho-os visto crescer ao longe, mas tenho."

Caramba. Que bonito e que profundo. Ela nem nos conhece, nem os conhece. E, no entanto, a passagem do tempo por eles teve algum impacto nela, deixou memória. 

Curiosamente e infelizmente eu não tenho a mesma análise do que ela... Via-a a passar sim, mas mal me lembro do filho dela mais novo. Só me lembro de ir para a escola a correr e sair de lá a correr também. Estava ainda na famosa roda dos ratos, sentia-me completamente assoberbada. O que me saltava sempre à vista eram aqueles olhos incrivelmente bonitos, ainda por cima numa cara super calorosa.

Foi giro o nosso encontro de hoje. Ela perguntou-nos o nome e disse o dela e o do filho. De repente, ela tem um nome o que é estranho. Talvez da próxima vez que nos cruzarmos já comece a surgir um novo tipo de interação menos fugidia. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Questions

 


If you were confident enough... 

what would you be, 

what would you do.


(question asked by some random guy, in some random street, to some random people)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Tatuagens

 

O jovem mais velho quer fazer uma tatuagem com a mãe. Fala nisso há uns 2 ou 3 anos, não sei qual é a pancada. O engraçado é que eu gosto de tatuagens (nos sítios certos, com o tamanho certo) mas como não faço ideia do que quereria taturar para sempre na pele, fico quieta. E o "para sempre" é sempre assustador.

Este verão ele voltou à carga. Gostava de eventualmente fazer uma tatuagem e queria fazê-la comigo. Algo pequeno, os dois. Acho que sim é uma ideia, mas não já. Ele é novinho. Mas é começar a pensar.

O mais engraçado é que hoje uma amiga minha disse-me exatamente o mesmo. Que ela e o filho estavam a pensar fazer uma tatuagem. Mas iam começar primeiro por furos na orelha. Ela tem alguns já e quer mais, ele não tem nenhum.

Depois ela teve a ideia de que eu e ela podiamos também fazer uma tatuagem juntas. Ela vem cá em dezembro e achou que seria ótima ideia lol 

Tá tudo louco...

(mas às vezes é bom pensar em loucuras)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

A chegada

 

Ele telefona-me.
Vem do norte; está a caminho e chega depois de almoço (tal como tinha previsto no dia anterior) com mais azeite, batatas e cebolas.
(Já não sei o que fazer com tanto azeite... vender? mas gosto sempre de o receber e as batatas e cebolas idem. Que não...)
Telefona e diz que está cá à hora x, se estou em casa e se pode passar aqui e descarregar as coisas antes de ir para casa finalmente. Digo que afinal não vou conseguir estar já em casa, que íamos almoçar fora mas que o restaurante estava inexplicavelmente cheio e só conseguiam ter mais gente a uma hora mais tardia.
A malta tinha ido fazer exercício e estava suada e iam tomar tomar banho, o que demora, e neste caso até dava jeito, para conciliar as horas todas.
Menos com ele.
O tom dele muda...
Leio o pensamento dele: disseste ontem que ias estar em casa e agora estás a borrifar-te para mim, eu que te disse que ia chegar depois de almoço, e agora eu que me lixe, eu que te trazia coisas e me dava jeito dar-tas já agora.
Ele diz: Ai é... ah ok... pois, pois... está bem!
O tom sai ligeiramente irritado.
Eu desculpo-me: Não tenho culpa, isto atrasou tudo e o restaurante, que até costuma estar sempre livre, só tem vagas mais tarde. Mas como estamos de férias não havia problema. E também não há problema com a tua chegada... vai diretamente para casa tratar das tuas coisas e descansar que quando sairmos do restaurante passamos por aí sem problema.
Ele: Vá... (num tom de És sempre a mesma coisa)
Eu tento continuar a falar.
E de repente, não se ouve nada.
A chamada foi desligada.
Cai-me aquela humilhaçãozinha ego adentro, aquela que já senti outras vezes, aquela que por vezes roça o desrespeito, aquela ação que acha que não faz mal ter comigo porque sou quem sou em relação a ele. E no ranking... eu venho em baixo. E principalmente, fiz algo que ele não gostou, que não lhe dava jeito.
E eu a achar que o ajuste de planos não era nada de mais...
Almoço.
Fui para lá calada. Estou com uma nuvem a pairar na minha cabeça. As férias já foram e a realidade começa. Está tudo bem por fora, por dentro sou novamente uma mulher bipolar que tenta justificar-se com as variações hormonais desta fase. Penso mais uma vez que tenho de voltar a tentar correr mais certinho e passar a fazer ginásio a sério ou treinos de força em casa (mas aí falta-me a discipina). Furiosamente tenho de pôr o meu físico em forma e a minha mente saudável.
Continuando.
Tento estar atenta às comversas durante o almoço. Mas incrivelmente agora passa tudo por carros, os que se vêm nas revistas, os clássicos, os modernos, os híbridos, os electricos, os baratos, os caros, os que se teria se houvesse dinheiro total disponível, os que as estrelas por aí têm, os carros que o Rowan Atkinson tem, o facto de ele ter agora uma nova namorada muito mais nova (a crise dos 60, será? sempre ouvi falar mais na crise dos 40 - nos homens -  e dos 50 - nas mulheres (quando decidem que estão fartas de ser fadas do lar a fazer tudo para agradar à família). É-me dito pelo homem mais velho que ele é uma pessoa super interessante e culta. Eu digo que acredito piamente nisso, mas que não seria namorada dele ainda assim (se bem que o dinheiro que ele tem deve ser incrivelmente atraente ahahahaha). Supreso contesta; ele é um homem interessante.
Para ti! Para mim não.
Ele é super culto!!
Sim, o ser culto é um fator que entra no desejo sim e no interesse de uma mulher, mas não vejo ali grande atração física.
Ele é um homem charmoso.
Não para mim. Seria aguém que gostaria de ter no meu círculo de amigos e conhecidos provavelmente, agora se queria ser NAMORADA... isso implica mais coisas, certo? (enfim... não pude ser mais explícita. Há homens super super cultos que sabem tudo e mais alguma coisa, mas isso não quer dizer que os queiramos foder, certo? uma pessoa tem de sentir algo, certo?)
Carro.
Telefono e estou em alta voz.
Digo: Já acabámos de comer...
Começaa responder: Parabéns!...
E completo já a esmorecer e ainda fria depois do telefone desligado na cara: ... e estamos a ir para aí.
Responde: Ok, quando chegares diz que tens de levar o carro para a zona da garagem.
Chegamos e assim acontece. Garagem. Levar as coisas para o carro.
Ele fala com os miúdos. As piadas de sempre, as namoradas, se viram alguma espanhola para ele, que altos, etc:
Depois pergunta como foi a viagem e tal.
Nunca olha para mim.
Às vezes sim, mas é de raspão, parece sempre que sou ali o sidekick, o plus one, a acompanhante. Serei eu assim tão desinteressante? Se calhar sim. Lá está, é como o que escrevi no outro texto: ele já sabe quem eu sou, então não há muito mais a saber.
A conversa continua e eu continuo calada.
Ainda digo qualquer coisa, mas não tem grande eco.
E também não tenho grande vontade de falar.
Oiço.
Sobre várias coisas de converseta que são ditas, mas que não nos meus olhos, nos olhos de outro.
Ele diz que está cansado da viagem e admite que é por isso que preferia ir levar as coisas a minha casa.
Não percebo.
Ele diz que assim não tinha tido o trabalho de tirar as coisas da mala do carro para o chão da garagem.
Continuo sem perceber; desta vez a lógica do pensamento. As coisas não podiam ter ficado no carro dele e depois nós passávamos para o nosso sem ser preciso ele levantar um dedo?
Colocamos as coisas no carro. Não são assim tantas.
Ele despede-se.
Uma palmada nas costas do homem.
Abraços às crianças.
Um encosto de face a mim, nas duas faces. Aquele proform que se faz com as pessoas.
Discretamente uma mão passa na minha cabeça.
Eu sei que é de apoio. Mas desvio.
Não preciso do consolo de ninguém. 
São anos e anos desta relação pouco emocional. Custa, mas já estou batida.
No carro idem. Não afasto, mas não revelo qualquer emoção. 
Já revelei emoções a mais por hoje.
Amanhã é um novo dia.
Siga.

Ser ou não ser...

 

Aqui há tempos vi um filme que adorei. O meu tipo de filme. Aqueles filmes leves e românticos que nos fazem sonhar e pensar que ainda há finais interessantes e óbvios.

Claro que estamos a falar de filmes com malta de 20 e tal anos. Sem filhos, sem grandes responsabilidades, que viajam e se divertem sem preocupações, para quem a grande questão é "será que ele/a gosta de mim".


Agora primeiro:

Sobre o que fala o filme? O filme acompanha acompanha Poppy e Alex, dois amigos que são praticamente opostos: Poppy é espontânea, aventureira e adora viajar. Alex é mais reservado, organizado e prefere uma vida tranquila. Apesar das diferenças, os dois tornam-se melhores amigos e, durante vários anos, decidem fazer uma viagem juntos todos os verões. Ela anima-o e incentiva as suas aventuras amorosas e ele idem. O problema é que, depois de uma viagem que corre mal, passam dois anos sem se falar. Quando ela percebe que não se sente feliz com a vida que tem, convence Alex a fazerem mais uma viagem juntos, numa tentativa de recuperar a amizade. Naturalmente, começam a surgir sentimentos que talvez sempre tenham estado ali restringidos… A clássica história da amizade que se transforma em amor.


Segundo, e sobre o que eu queria falar:

Pergunto-me muitas vezes sobre esta necessidade de ir para outro lugar, de temer ficar presa a algum sítio, de pensar sempre se haverá um outro sítio onde estaria melhor, este sentimento eterno de procura, de busca de algo que nunca sei bem definir o que é, daquele sentimento de que "assim é que vou conseguir estar em paz". (mas será que a alma humana está alguma vez satisfeita? se calhar algumas almas sim, eu desconfio que a minha não).  Enquanto via o filme quase tive a resposta a esta questão. A certa altura, a protagonista confessa ao amigo uma situação super embaraçosa que aconteceu quando era teenager. E refere: " No dia seguinte, na escola, todos se riam de mim". E continua: "Quando decidem quem és, acabou-se. É por isso que quero viajar (a profissão dela estava relacionada com isso). Podes ser quem quiseres, em vez de quem dizem que és."

Esta frase marcou-me. É isto.

Quando se passa muito tempo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, a mesma "comunidade", a mesma paisagem, os mesmos hábitos, as pessoas criam uma imagem tua na cabeça delas. Acham que te conhecem. E conhecem, até podem conhecer... mas conhecem a versão que lhes dás porque isso responde ao estímulo que elas também te dão, ao que te entregam. Se te entregam uma infinita possibilidade coisas (não falo em coisas materiais, falo em pensamentos, mentalidade, ações, vontades, etc) isso influencia-te de uma maneira e passas a ser um tipo de pessoa. Se te entregam outro tipo de coisas diferentes (ou até menos desafiantes), acredito que, por osmose, também te torna um bocado o reflexo disso. 

E assim, os outros definem o teu perfil. Decidem, mesmo sem querer e sem quereres, quem tu és, segundo o que elas próprias são e o que acham que conhecem de ti. E não consegues sair dali. Dessa imagem que fizeram de ti e que decidiu quem tu és para o mundo.

Quando sais dessa zona (mental e lugar físico) quando abres uma página em branco (o que acontece muitas vezes quando conheces pessoas novas, quando fazes coisas novas, ou quando visitas outros lugares) de repente estás livre. Livre para seres quem tu quiseres. És uma folha em branco para os outros (mesmo que a cor da tua página já tenha o tom que ficou impresso pelas tuas experiências passadas) e para ti próprio. Vês o mundo de outro modo, vês coisas novas, podes sacar outras versões que existem dentro de ti, de repente és infinito, poderoso e livre.

Por isso é que nos meus vintes quis sair de onde estava. Quis sair de casa dos pais, ir para outro lugar onde ninguém me conhecesse, provar(-me) do que era capaz, provar que era capaz de ir sem ajuda de ninguém, estar me myself and i, conhecer pessoas novas, mentalidades novas, realidades diferentes. Sempre achei que evoluir era ir andado aqui e ali. Mudando. E mudando de sítio também. Não conseguia perceber quem vivia na casa dos pais a vida toda, quem tinha o mesmo namorado (e casava com ele!) a vida toda, quem não saía do mesmo emprego a vida toda, quem ia aos mesmos lugares a vida toda, quem se resignava e não ia ver o que se passava além do seu perimetro confortável. Mas pior, quem ficava nesse perímetro e não conseguia sequer então apreciar as pequenas coisas belas que iam acontecendo mesmo que no mesmo lugar. Coisas essas que eram também pequenas mudanças e evoluções, mesmo que parecessem não o ser à primeira vista.

Quando voltei do sítio onde vivi fora algum tempo, regressar à casa dos pais sem ter nada mais em vista, foi um golpe no meu ego e esperança. Sim, tinha conforto, comida e cama lavada. Mas estava perdida e sem norte, e caí em depressão. Durou uns valentes meses e não sabia bem como dar a volta. Falava com amigas e nada de mais havia para contar. Elas não tinham saído da cidade onde moravam, ou das casas onde moravam, mas pior... não tinham saído da mentalidade do "ah, não se passa nada, tudo na mesma, tudo a andar". Epa se nunca há nada de especial para contar (pensamentos, algo que se viu ou leu, a aldeia que visitámos, o novo desafio que o trabalho nos trouxe, as flores que plantámos) epa é preferível morrer...

Eu queria crescer e fazer coisas. Viver.

Depois fui morar para um apartamento, saí da casa dos pais. Isso foi um marco: o meu segundo pseudo grito do ipiranga. Depois, anos mais tarde, em conversa sobre a casa onde cresci (a última) poder ser vendida, fiquei de pé atrás... Inicialmente o que era dito era "mas se ninguém vier para aqui... para quê um dia mantê-la". Porque ela é linda? (mesmo que a precisar de umas remodelações) e tem umas condições de condomínio incríveis? 

Mas eu não queria pensar sequer em voltar a viver lá. Na minha cabeça, isso era o retrocesso total. Era voltar ao espaço físico onde tinha sido criança, depois adolescente e depois adulta. Onde vi e vivi coisas que não adoro lembrar-me, onde também vivi momentos giros e caricatos. 

Mas a casa era o que a rapariga do filme dizia. Era o sítio onde quem eu era já tinha sido definido, por tudo o que se tinha passado ali. Aquela casa conhecia-me - pelo menos a minha versão dos 11 aos 21 anos (seguidos, depois mais tarde ainda passei lá mais ou menos 3 anos, às turras com a minha mãe). Aquela casa ditava quem eu era. Conhecia os meus medos, esperanças, amores e desamores, ilusões e desilusões. Portanto, aquela casa não era o futuro, não era quem eu queria ser (fosse isso o que fosse), aquela casa não era o mundo de possibilidades que eu queria à minha frente. Não era liberdade, seja isso o que for também...

Depois a vida correu e, apesar de ainda não me sentir confortável com o pensamento de voltar a viver em sítios onde já vivi (sinto sempre que voltei trás na vida), também aprendi que quem somos e queremos ser (e vamos ser) só está nas nossas mãos e não no espaço que habitamos. Não nos sítios que visitamos. Essas casas já não terão lá as pessoas que tinham antes, os móveis mudam, o chão muda, as decorações mudam, a vida muda. Percebi que a nossa mentalidade é que define tudo, indepentemente do local. Só temos de estar abertos a mudar esses sítios como nós queremos, à imagem do que queremos ser e do modo como queremos estar. Tudo depende da nossa perspectiva.

Eu não quero que decidam quem eu sou. Nem a sociedade, nem a minha idade ou género, nem nada. Quero continuar a acreditar ainda que "quando for grande" poderei ser quem eu quiser. A questão é que já sou grande. E ainda quero ser tanta coisa.

E agora? Sou quem eu quero ser ou sou quem dizem que eu sou?

E quem sou eu?




sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Not today

 


Ainda me falta a tal reflexão simples que queria escrever.
Mas escrevo amanhã. O dia hoje foi longo e ocupado.


Mas veio deste filme da Netflix, de um diálogo dela: 



"mores" da vida...

 

Ontem, apenas porque sim, e porque já imensa gente viu e comentou e eu quis ver e dar os meus palpites também, comecei a ver o documentário da família Patrocínio (sim, aquelas famosas manas portuguesas). No meio da filmagem a mostrar a vida de uma delas, a mais velha, ela e o marido (um segundo casamento com um pelos vistos conhecido "empresário da noite") eram filmados a jantar com os filhos todos, e outras situações random. E... era "mor" para aqui, "mor" para ali, "mor" para acolá. Não sei. Era estranho. 

Não me identifico com essa nomeclatura fofinha a toda a hora; não digo que não se diga Amor!, mas pessoalmente nunca me dirigi a ninguém assim (sim, devo ser traumatizada, ou então um coração de gelo) e então em substituição do nome próprio... lol... de todo mesmo. 

Pode-se chamar alguém carinhosamente claro, algum termo engraçado e fofo, ou o "inho" ou "inha" no fim (que, de qualquer modo, me lembra sempre a maneira como chamamos os nossos filhos ou seres mais indefesos, não propriamente o nosso par romântico que está ao nosso nível). 

Mas "mor" a toda a hora? A pessoa não tem nome?

É mais queque assim? Ou mais fino? Ou mais cool? Ou ama-se mais porque se diz essa palavra a toda a hora??

Ah!, isso lembra-me quem tem no telemóvel o nome do namorado ou marido etc escrito como "Amor" ou outras cenas do estilo. Tens um marido que se chama João, mas o nome que aparece no telemóvel é "Amor". Quem vir já sabe que a pessoa é o amor... ou um amor... ou isso tudo. Mas não sabe o nome. 

A pessoa tem um treco na rua, queremos ajudar, e vamos telefonar ao... Amor. E não ao João, António, José, Martim, etc... "Está lá? Sr. Amor? Era só para dizer que venha para casa, ou vá ter ao hospital, porque a Marta caiu redonda no chão, ou partiu uma perna, etc."

"Amor". "mor". "loves", etc...

É porque deve ser "suposto" tratar assim, imagino. Assim mostra-se ao mundo o quão apaixonado se está, o quanto se ama...


terça-feira, 30 de junho de 2026

Negrume

 

E há dias negros assim.

Um sufoco no peito.
O dia de sol lá fora que não anima nem uma célula do corpo. 
A solidão de mais um dia em casa, ao computador, no meio da incerteza que ele ainda me traz.
A seca do que vejo à frente na tela.
As notícias sobre o país que me chegam.
Aquela constante pergunta interior de se o que está noutro país talvez seja melhor do que aqui.
O já ter vivido mil vidas mas parecer que, por fora, regresso à mesma de sempre.
O ter tudo e sentir que ainda não tenho nada.
Aquela sombra que paira a toda a hora sobre mim, intercalada por dias em que, de repente, essa névoa escura se afasta e eu consigo estar leve e sorrir genuinamente.
Aquela ansiedade.
Aquele medo, nem sei eu bem de quê.
Aquela tristeza e vontade de chorar, pontilhada por momentos alegres.
Uma inconstância como eu nunca senti.
Aquela vontade forte de pegar na cabeça e batê-la violentamente na parede (re pe ti da men te) para ver se isto passa.
Aqueles dias em que tudo parece bem e confortável.
Aqueles dias em que nada parece bem e tudo é desconftortável.
E a angústia.
Meu Deus.
Nunca ninguém me tinha falado nela.
Já nem falo em nada especificamente (trabalho, amor, finanças, etc).
É algo que simplesmente um dia se acorda e está lá.
E passa um dia.
Passam 2 ou mais.
E a sensação continua lá.
E tenta-se rir, depois é-se agressiva, depois parva, depois leve, depois seca, depois sarcástica.
E não se acredita mais em nada.
Não há em fé em nada.
Tudo é negro.
Tudo é negro dentro da mente.
Depois saímos e tentamos distrair-nos.
Por vezes conseguimos.
Mas não podemos escapar da nossa mente.
E assim que nos encontramos sozinhas,
A escuridão desce.
Encontra-nos
por muito positivas que queiramos estar.
A vontade de lutar foi-se.
A vontade do que quer que seja foi-se.
Temos de curtir o silêncio.
Toda e qualquer pessoa a falar numa entrevista aborrece.
As redes sociais são mais do mesmo.
Sonhos, menopausa, ambição, finanças, ilustração, CV, como conseguir não sei o quê, relações, ser mulher, etc, etc, etc...
O cansaço mental é brutal.
É real.

Não sei se é isto que é a menopausa, a chegada dela.
Estou-me a borrifar se já não sou fértil. Já fiz o meu "suposto" nesse campo, biologicamente falando.
Se engordar uns kg engordo. Se ganhar umas banhas, ganho. Se ficar com mais rugas, fico. Se ficar com calores, fico. Dá para lidar com isso, diria. Até com aquela névoa mental que às vezes chega, aquele esquecimento do nada.
Mas este negrume mental que às vezes assola... É brutal. 

Depois chega o filho mais velho a casa, todo alegre a falar dos ensaios de hoje e da boa vida que anda a ter. Contagia um bocado. Salva um bocado.
Depois penso como deve ser bom sentir novamente que temos todo o tempo do mundo e simplesmente ir andando.
Depois sento-me ao computador e continuo esta seca de sempre que ando a fazer.
Estou tão farta. Não quero fazer isto o resto da vida.

Depois, é hora de ir buscar o mais novo.

A vida não espera por nós.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Tecnicalidades "pequenas"

 

Hoje consegui uma pequena grande façanha (para mim).

Talvez para alguém super técnico e tecnológico isto não fosse nada de mais... mas, hoje estava no carro com o iPad e precisava de aceder ao Google. Ali não tinha wi-fi, obviamente. 

Lembrei-me então de usar o hotspot móvel do meu telemóvel android. Já tinha visto malta usar aquilo para fornecer wi-fi, mas nunca tinha experimentado eu fazê-lo, especialmente sem ter alguém ao meu lado a dizer-me como o fazer (regra geral, as pessoas fazem, nós vemos, e 7 dias depois já não nos lembramos, porque não fomos nós a fazê-lo... é o eterno erro da minha vida - deixar que outros possam fazer aquilo que tenho de ser eu a fazer, para aprender).

E... viva o tio Google, viva o desenrascanço. 

Consegui! Consegui que o meu iPad se conectasse e recebesse rede do telemóvel. Ficou o meu servidor de rede durante uns minutos.

Uma pequena coisa para qualquer um de vós, um passo gigante para mim. Senti-me imbatível, independente, confiante! 

É o que eu quero este ano: ser eu a fazer as coisas, ser eu a pôr a mão na massa, ser eu. Não deixar para os outros. Quero provar a mim própria que consigo afzer tudo o que me propuser.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O ajudante

 


Estou com a minha mãe no carro.

Vamos tratar de alguns assuntos dela e aproveito e levo no carro roupa minha para dar. Roupa, mochilas velhas com rodinhas, sapatos velhos. Tudo o que não vou vender. 

Depois dos assuntos tratados, vou lá deixar tudo. O portão grande da instituição está fechado, apenas uma parte dele está aberto. Alguns homens (negros, sobretudo) trabalham ali em qualquer coisa no chão. Algum cano roto, algo. É hora de almoço e um deles está sentado a descansar, mesmo em frente ao sítio onde tenho o carro estacionado (mal, com 4 piscas ligados). 

Saio do carro, olho para ele (ignorá-lo seria má educação na minha opinião, ele está ali mesmo à minha frente e observa os meus gestos), cumprimento-o com um Olá Boa Tarde e sorrio ligeiramente, e levanto o capô traseiro. Começo, muito despachada, a tirar alguns sacos.

Quando me preparo para os levar para a zona de recolha de bens usados, ele levanta-se de repente e diz-me apenas: deixe estar que eu levo. Digo que não é preciso e tal, mas ele já está a caminho. Levamos cada um uns 2 sacos/mochilas. Agradeço e desejo-lhe a continuação de um bom trabalho. Não recebo qualquer resposta de volta (pelo menos não a ouvi), mas não faz mal.

Entro no carro.

A minha mãe está surpreendida. Quem era aquele homem e porque me ajudou a levar os sacos?

Reflito 4 segundos... não sei quem era, e talvez tenha ajudado porque eu não o ignorei. Ele estava ali e eu podia ter passado sem dizer nada. Mas talvez, dado que eu mostrei reparar na existência dele, ele tenha decidido que eu merecia o pequeno gesto dele.

Nunca saberei.

Mas fiquei a pensar depois... será que nos ignoramos assim tanto uns aos outros que já achamos estranho quando alguém nos dirige a palavra apenas para dizer Bom Dia. Será que é assim tão estranho alguém nos querer ajudar com sacos?

Talvez se não andassemos tão de nariz empinado e vissemos quem está à nossa volta o mundo fosse mais suave.

Just saying...


quinta-feira, 4 de junho de 2026

A trabalhar

 

Estou a trabalhar e de repente, com música a tocar livremente no Youtube, aparece-me esta velha e fantástica canção. Que maravilha...!!



 Entre o prestar atenção ao trabalho em si e à letra da música perguntei ao Google sobre o que falava esta canção:

 Keane's hit "Somewhere Only We Know" is a nostalgic ballad about longing for safety, simplicity, and emotional connection. Written by the band's pianist Tim Rice-Oxley, it explores the comfort of returning to a private sanctuary—either a physical childhood spot or a secure relationship—amid the exhaustion of growing up and life changes.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Cândido

 


Este texto já vai um dia ou dois tarde. Mas vai. Tudo vai a tempo e "tudo vale a pena quando a alma não é pequena" já diz o povo. O Cândido Mota morreu. Esse radialista que era um Senhor. Esse homem que parecia banal de aspecto, mas que bastava abrir a boca para se perceber que era uma mente extraordinária, cheia de vivências e pensamentos cheios. Tinha um tom de voz potente, diferente. Eu gostava muito de o ouvir. 

Eu tinha uns 15 ou 16 anos quando comecei a ter o hábito de ouvir música ou rádio à noite. Levava o walkman para a cama, colocava os phones e lá começava eu a minha viagem noturna, a sonhar acordada até me cansar e finalmente adormecer.

Mas havia dias em que queria qualquer coisa diferente. E então comecei a ouvir um programa de rádio com um certo locutor. Acho que o nome do programa era Passageiro da Noite e dava já mais tarde, noite dentro (começava às 00h e eu com aulas no dia a seguir...). Devo ter parado nele por acaso, presa por algum tema específico. E depois fiquei mesmo presa àquilo. Os assuntos eram sempre interessantes, adorava sempre para onde ia a conversa (eram conversas com ouvintes que telefonavam para lá). 

Fui-me apaixonando por aquela voz e por aquela experiência de vida. Ele era muito interessante. Explorava qualquer assunto com sabedoria, uma espécie de voz da experiência que eu, com os meus poucos 16 anos, não tinha ainda, mas admirava profundamente. 

Comecei a ansiar pela hora do programa, por ouvir aquela voz. Foi uma altura curiosa. Lembro-me que, ao início, nem queria saber como era aquele homem fisicamente (mais tarde lá percebi quem era porque também aparecia na televisão) para manter tudo meio difuso e poder eu imaginar a persona, aquele crush vocal.

Algum tempo mais tarde o programa acabou, infelizmente. (penso que só durou 2 anos e eu cheguei lá apenas nos últimos meses). Mas foi bom, deu-me outra visão sobre um homem adulto (que não me fosse próximo, o meu pai por exemplo), abriu-me horizontes, ajudou-me a mim própria a pensar e entrar num outro mundo de pensamento mais maduro. Foi fascinante.

Long live the king.

Nunca me conheceste, era uma formiga anónima no teu universo, mas tiveste impacto no meu. 

So long Cândido,
que Deus ou os deuses, ou as moléculas do universo, ou simplesmente a terra e as plantas te tratem bem.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Coisas que leio por aí...

 

Texto de uma psicóloga que sigo no Instagram.

Estava a fazer scroll, deparei-me com isto e pensei: é que é isto mesmo, é por isso que as pessoas não mudam nada nas suas vidas, não arriscam, não experimentam fazer coisas em que saiam da sua zona de conforto, não evoluem e ficam paralizadas. Isto que ela diz é tão, mas tão verdade. 

Eu não quero ser assim. Não quero que a dor ou o medo me limitem, não quero ter medo de falhar e de me frustrar (aliás parte da minha profissão sempre me deu obrigatoriamente um pequeno colete resistente às balas). Não quero ser passiva.






Grande, grande texto!






terça-feira, 5 de maio de 2026

Coisas que me irritam

 


Cenas da vida adulta que me irritam:

Pais adultos que sempre que chega um email da escola com alguma informação,
vão logo a correr espetar aquilo no grupo de whatsapp. 

Apetece-me dizer,

Meu/Minha... eu também tenho email, por favor não me faças ter mais uma notificação parva no telemóvel sobre uma coisa que vou ver DE QUALQUER MODO no email, seja agora seja mais logo.

FUCKING HELL

Thanks but no thanks

Tatuagens

 


No outro dia falava com o mais velho sobre tatuagens. Não sei a que propósito, mas falava. Ele dizia que quando for mais velho gostava de ter tatuagens aqui e ali (já o diz há uns anos). (Lá está, quando crescer fará o que achar melhor.) Eu disse quais os sítios onde gostava mais de ver tatuagens nas pessoas, etc e tal.

Gosto de tatuagens sim. Não gosto de qualquer coisa, mas é uma forma de expressão como outra qualquer. O senão? É permanente, não sai (ficar gasto e esborratado não é opção, ainda é pior) e a tinta entra no nosso sistema linfático, é agressora.

No entanto, nunca pus de parte essa ideia, caso houvesse algo que quisesse mesmo mesmo fixar no corpo.

E então disse ao miúdo: Se alguma dia achares que vais mesmo avançar para uma tattoo diz-me. Eu considerarei se é esse o momento em que perco a vergonha e desenho algo no corpo (seria certamente discreto e elegante) e vamos os dois partilhar essa aventura.

Ficou todo contente por saber que eu talvez alinhasse (seria uma "cena de família").

Eu também fiquei, só de imaginar o momento.

Não sei se algum dia o faremos, mas só a hipótese já me faz sorrir.


How to make real connections

 


How to make real connection with people?


GO OFFLINE


Meet people in the flesh, 

talk to them, 

do activities with them.


If you don't gather your own little community, you're on your own, and what a lonely place to be.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Conversas "one on one"

 

No outro dia tive de ir despachar um assunto com o mais velho. Deu para, nos entretantos, esperar muito tempo em pé, ouvir música, ver um site de uma marca de ténis que eu não conhecia e que ele me mostrou (os amigos andam a usar aquilo, está na moda - e entretanto até já vi o Nuno Markl a usar uns dessa marca portuguesa, chama-se Sanjo, ver aqui)

No meio daquilo tudo começou a mostrar-me motas. E motards conhecidos. E carros. Não se cala com isso agora. Todos os vídeos que vê são sobre isso. Isso e música. Quer ter uma mota. Pede-me uma. Já pediu milhares de vezes. Digo que não. Nao tem idade e os outros na estrada também não têm juízo. Felizmente o pai concorda: andar na estrada hoje em dia não é o mesmo que há uns anos, é muito mais perigoso. Mas o rapaz quer e insiste que quando for adulto, e puder, comprará uma mota. Respondo que nessa altura será dono e senhor de si próprio e que tomará as decisões que entender. Ele finge chorar e abraça-me e diz que queria tantoooo...

Agora volta e meia conta-me coisas de motards portugueses conhecidos. E já o vi a interagir com eles. Parece que há uma espécie de código simpático entre amantes de motas, em que se alguém na rua fizer um gesto com a mão e pulso como se estivesse a acelerar (a mota), o motard dá umas aceleradelas no manípulo e ouve-se o barulho forte. Geralmente são os miúdos que pedem isso, e os tipos das motas acedem. Vejo a malta toda sorridente nesse momento. É giro.

Entretanto, passa um carro clássico na estrada. Ele baba-se com aquilo. Viver na vila/cidade onde vivo é confrontarmo-nos constantemente com aquilo que não temos (grandes luxos e grandes carros), mas ainda assim sonhar em almejar por mais. No caso do meu miúdo, cobiça uma bela mota ou carro. Acabamos por falar daqueles programas americanos em que 1 ou 2 amantes de carros (e mecânicos) vivem a vida a recuperar carros antigos (regra geral carros velhos cujos filhos os herdaram dos pais já falecidos, ou então carros especiais em 2a mão a cair de podre que os colecionadores compram). 

Surpreendentemente o meu miúdo diz que se via a fazer aquilo no futuro. Diz que queria aprender mais e gostava até de construir ele uma mota, se soubesse. Que, se em adulto tivesse uma oficina para recuperar carros antigos, ia gostar muito. E fala de alguém que segue nas redes que faz isso (penso ser daí que a ideia dele ter surgido).

Digo-lhe que pode sempre, qualquer dia, tentar fazer isso numa oficina para ir aprendendo. Ir falar com o dono de uma e ir para lá ajudar e aprender, 1 dia por semana, o que fosse. É ir a algumas e ver se seria possível. Ou trabalhar numa, num verão qualquer. Nada como perguntar e tentar.

Enquanto isso não acontece, este verão irá trabalhar 15 dias algures nos trabalhos para jovens, fomentados pela Câmara Municipal. Que valorize cada minuto.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mais velho


O meu filho é um sábio...

Volta e meio digo numa frase um quase ou um talvez... e às vezes sai-se com esta famosa tirada:


Uma vida de "quases", é uma vida de "nuncas".


E é verdade. Daí eu querer retirar essas palavras da minha boca sempre que falo em algo que quero fazer. Há pequenas palavras e ações que nos condicionam de facto. É uma uma questão de treino da mente. O modo como falamos condiciona o modo como agimos e até como pensamos. 


Quero pensar positivo. E, sobretudo, quero fazer algo. Não quero só tentar. Quero fazer. Mesmo que falhe. Sem fazer, nada resultará.

Em frente!

terça-feira, 14 de abril de 2026

O que leio por aí...

 



"Ser velho é ser jovem há mais tempo do que os outros."

- Philippe Geluck



"Para mim foi ali que tudo começou: eles contaram-nos histórias.
E os velhos (...) contam o passado como ninguém. Não vale a pena procurar nos livros ou nos filmes: como ninguém."

"Naquele dia compreendi que, aos idosos, basta que os toquemos, lhes tomemos a mão,
para que eles contem. Como quando se escava um buraco na areia seca à beira-mar e a água sobe sistematicamente debaixo dos dedos."

- Os esquecidos de domingo, Valérie Perrin

Dinheiro


Hoje, ao ver um vídeo qualquer, ouvi a seguinte frase:


"O dinheiro ajuda a resolver (quase) tudo."


E tenho de concordar. Seguramente não traz felicidade porque são as pessoas à nossa volta e a relação que temos com elas, os afetos, o gostarmos do que fazemos na vida, os objetivos que temos, a saúde, etc... É todo um conjunto de coisas que verdadeiramente nos ajudam a ser felizes. Mas o dinheiro ajuda a não ter preocupações, ajuda a não temermos pelas condições de vida que temos ou as dos nossos filhos, ajuda muitas vezes a concretizar sonhos ou planos, . Ajuda a mais oportunidades. 

Por isso digo: venha ele.


Que eu o consiga conquistar e duplicar.


domingo, 12 de abril de 2026

Obsessões

 

Estou a trabalhar. É dia de semana e tenho prazos e coisas a entregar. A semana não correu bem como tinha planeado, mas tenho de dar o litro na mesma. O concerto já lá foi, mas a emoção de alguns sons ainda paira em mim. Ele está em casa e, ao passar por perto, comenta: "ah essa música... é verdade... Tens ouvido o álbum?". Penso "Ah é verdade?! mas... ele viu o mesmo que eu vi? sentiu algo? não tem pensado no que viu e ouviu? sou só eu?" Respondo que não tenho ouvido o albúm todo, apenas as músicas de que gostei mais... 

Ele ri-se:

- Acho que já é a 3a vez que a estou a ouvir agora, essa música...

- Não é, é a segunda apenas desde que me sentei à bocado. E foi porque o YouTube a repetiu automaticamente. Eu não a selecionei de propósito. Mas se queres saber: hoje já ouvi isto umas X vezes..

- Xi... que exagero... - ri-se mais uma vez.

Não digo nada.

Aí está.

Essa é a diferença entre nós.

Eu exploro o que a arte e a emoção me faz sentir até ao tutano (quando gosto). Enquanto não estiver farta (agora falo de música especificamente) oiço algo ininterruptamente. No outro dia passei um dia inteiro sentada ao computador e enquanto trabalhava fiz uma música passar em loop pelo menos a manhã toda (à tarde, variei entre essa e mais duas). Não ouvi mais nada a não ser isso o dia todo.

Não sei se oiço o som apenas, os diferentes instrumentos, se sonho acordada enquanto oiço e trabalho, mas aquilo transporta-me a outros lugares. E preciso de ouvir várias vezes porque 3 ou 4 minutos de música para mim não são suficientes, é muito pouco tempo.

Nem me dei ao trabalho de explicar ou contar isso. Não percebe. Não lhe interessa perceber. Não tem curiosidade e a que tiver terá algo de prático na raiz. Nunca saberá que saber tal pormenor seria conhecer-me um bocadinho melhor. 

Não sabe o que é estar obcecado por algo. 

A não ser, claro, que seja um desafio técnico, a não ser que não esteja a perceber porque é que no programa X a caixa Y não entra na slot Z para formar não sei o quê. E aí sim. Serão horas e dias e o tempo que for de volta daquilo. 

Curiosamente nunca percebeu que na minha mente há grandes obsessões. Podem até ser simples. Mas existem. E são minhas. Não as conto. Para quê?




quinta-feira, 9 de abril de 2026

Rosalia

 

E foi a noite passada que ouvi pela primeira vez a canção de abertura do concerto da Rosalia. Chama-se Relíquia. Ouvir aqui

Que maravilha...

Nunca achei o som daquele pavilhão uma coisa fantástica, mas todo o início, a voz linda dela (muito mais poderosa do que se ouve nas músicas online ou na TV), as nuances da voz, das letras, e da música em si (som, instrumentos, variações, vários estilos numa só canção, ver esta Porcelana (ouvir aqui)). O som alto, a trepidação dos baixos a ressoarem no corpo. De facto, nada bate ver um espetáculo ao vivo...

Conhecia bem umas 4 músicas dela, apenas. Umas semanas antes tinha pensado em ouvir os álbuns dela para entrar no espírito. Mas o meu espírito, de facto, está noutro lado. E ciente disso, decidi que não ia ouvir absolutamente nada. Ia partir do zero e ouvi-la com ouvidos frescos.

Foi o melhor que fiz.

Ela tocou várias músicas desse álbum novo, Lux (ouvir aqui) e concordo: é uma obra-prima. Junta uma língua que adoro, o espanhol (bom, vá... sou suspeita... eu aprecio o som de várias línguas) com muitas outras (ucraniano, hebraico, italiano e muitas outras... li algures que ela cantava em 20 línguas) com música clássica, tecno, reggaeton, etc. Um ambiente muito teatral. Ah, e umas letras muito "à frente", muito dark, bonitas, com um grande toque religioso mas rebelde. 

O curioso foi entrar no pavilhão e ver uma vibe geral de Madonna, anos 90, Like a Virgin, com vestidos brancos de renda (uns curtos e outros compridos), colares com cruzes, véus, alguns rapazes vestidos de padre.

Adorei o concerto! No entanto - vou agora armar-me em crítica - mudaria o alinhamento. Ela começou com várias músicas do último álbum (muito criativo e diferente a nível musical e super teatral e "barroco") e depois mergulhou nos álbuns anteriores que têm mais tecno e dance music. Confesso que esperava ali mais algum flamenco teatral, e seguir a linha das primeiras canções. Começou num tom bastante apoteótico e bonito e, para mim, foi descendo. A euforia inicial que se criou em mim foi apagando aos poucos. Se não fosse acabar com esta canção aqui (é sobre a morte, é linda! o cenário aí estava simples mas adequado à música - foi criado uma espécie de corredor pelo qual ela entra a cantar e depois no fim sai, com uma luz intensa a amarela por trás dela, parece uma espécie de Lázaro a sair da caverna, tudo meio celestial)... se não fosse isso, teria saído de lá algo frustrada com o caminho que levou (a nível de espetáculo em si).

A Carminho foi lá cantar também. Tudo ao rubro, ouvi dizer que foi a primeira vez que cantaram a música (que lançaram juntas) ao vivo. Foi bonito e tal, mas não é o meu som de todo... 

Foi um excelente concerto. Teria no entanto colocado uns cenários mais exuberantes. Estava sóbrio, simples e bonito, mas... simples demais? Ou será que sou eu que visualmente já estou habituada a ver coisas complexas e espero sempre isso? Mas esperava ver um cenário físico mais rico e barroco ou religioso, algo assim. E ecrãs por trás dela que contassem histórias.

Isso não aconteceu. O espetáculo era "só" ela e alguns objetos em palco e muitos bailarinos. Não me posso é esquecer da incrível orquestra que estava a meio da plateia a tocar as músicas todas! Simplesmente espetacular! Deram espetáculo, sem dúvida.




terça-feira, 31 de março de 2026

Cenas da vida

Olá meus caros,

Eu por aqui mais uma vez. 

Sem rumo. Pelo menos assim o parece. 

O horóscopo diz o contrário, que este é o ano das mudanças e do dinheiro e disto e daquilo. Aahahaha... 

Os podcasts das menopausas e afins dizem que este período de transição é lixado e que as mulheres mudam e já não papam qualquer coisa que se lhes diga, e que começam a ficar diferentes. 

Estou a ir andando aos tropeções lentamente, na prática. Mas já muito à frente na minha cabeça.

Sinto o meu sistema a desligar aos poucos. Sinto-me viva em alguns momentos e completamente morta e sem energia noutros. 

Será a parte hormonal que está a dar cabo disto tudo?

Tenho alturas super calmas e, de repente, há um trigger e fico a pessoa mais ansiosa do mundo. Ou a mais zangada. Ou a mais... o que seja. Tudo em expoente máximo.

Às vezes, só encolho os ombros. Já não quero saber de como me sinto.

Nestes dias passados, tentei alienar-me de tudo. Não pensar. Existir. Sentir o sol na pele, rir-me com os filhos, falar numa boa com o marido (mas não me toques, please...). Depois olho à minha volta. Vejo casais novos sorridentes e apaixonados. Morro de inveja. Olho para o lado, evito ver. Vejo pessoas que viajam a torto e a direito, a vida é bela e amarela. Vejo as pessoas com empregos e ocupadas (algumas com mto bons empregos, o que também me deixa cheia de inveja). Tudo parece correr bem. A todos. 

Até a mim.

Tudo parece fácil. 

Mas tenho a cabeça tão, mas tão pesada. 

Se as pessoas soubessem o que é estar bem e funcional, e de repente sentir que se abate uma tristeza profunda, o não saber que volta dar para ser eu de novo. Mas... será que esse "eu" existe ainda? Vai voltar?

E depois oiço, leio, vejo... vem de todos os lados, de todas as direções...:

"Não te preocupes"

"Hás de encontrar"

"Lá fora é que era"

"A guerra, os preços, a economia global"

"O preço das casas"

"Investir? em quê?"

"As pessoas aflitas"

"Não conseguem pagar"

"Mal dá para viver"

"Estudar"

"Não te preocupes"

"Sou mulher e ganho líquidos 3200 euros mês, só consegui ficar independente porque investia"

"Sexo"

"Workshops"

"Descobre como se ganha dinheiro online apenas usando isto"

"Felicidade pura"

"As relações"

"Descobre como ter os melhores orgasmos da vida"

"Alma gémea"

"Parceria"

"Não viajem agora, agora é melhor não"

"Slowliving"

"Siga estes 10 passos e descubra como viver uma vida plena"

"Viajem agora e a toda a hora, a vida é para se viver"

"Prioridades"

"O Instagram"

"Amor"

"Ação"

"Quanto custa"

"Seguidores"

"Sonhos"

"Paixão"

"Tudo a seu tempo"

"Fácil"

"Difícil"

"Regressar ao analógico"

"Simples"

"Complexo"

"Doutores"

"Planos"

"Redenção"

"Objetivos"

"Psicólogo"

"Canalizadores"

"Campo"

"Não gosto de planos"

"Inteligência artificial"

"Ir ao sabor do vento, a vida mostra"

"Se não estás a par, vais ser passada para trás"

"Cidade"


etc 

etc

etc


Sinto-me 

a 

explodir.



E ninguém me vai salvar.

Só

eu.



Ontem fui para a cama cedo. 

E desta vez tentei uma coisa que não tentava há muitos meses, mas nunca mais o revelei. Ler.

Não leio há várias semanas. Arrisco dizer vários meses. 

Vejo algo na TV (há coisas boas a nível de séries sim, mas são tantas e o ritmo é tão intenso que às vezes me sinto a fazer maratonas e nem fixo o que ando a ver realmente, esqueço-me. É mais uma.  Já é igual ao "o que vamos fazer de jantar" ou "para onde vamos de férias" ou "o que fazemos este fds"). Tudo em mim é "tanto faz" ou é tirado a ferros. Tudo. Dizia eu que vejo algo na TV e depois vou para a cama. E depois volto a pegar no telefone. Eu, que nunca o fiz. Nunca fui escrava desse aparelho. E agora uso-o para tudo.

É o meu despertador, o meu calendário (pessoal e de família), o meu computador (emails), as minhas redes sociais, etc... O meu mundo ali enfiado e o mundo dos outros também. 

Sou bombardeada por ele. Eu. Que sempre resisti ao telemóvel na mão durante anos a fio.

Eu que agora recorro a ele para ver se sou amada, se sou lembrada, se se e se...

E ontem forcei-me a não ver se tinha mensagens, a não ver notícias, a não ver os sucessos dos outros (ou falhanços... que claro que depois se tornam sucessos, claro...), a não ver nada.

Tentei ler. E li. Duas páginas. Ao fim de 2 páginas tinha a cabeça em papas. Não me conseguia concentrar em nada. Lia e repetia os parágrafos. Estive por uma unha (cortada) para espreitar o Instagram. Não o fiz. O que estivesse lá podia certamente esperar pelo dia de amanhã. As boas ou más notícias lá estarão de qualquer modo. Nisso o telemóvel é implacável.



Acordei cedo. Um silêncio sepulcral na casa. 

Olho finalmente para o relógio (o telemóvel... claro). Daqui a uns minutos são 5h da manhã e já me sinto acordada há algum tempo. Ainda está escuro lá fora. Depois vai clareando e eu ainda acordada. Consigo ir dormitando um pouco mais. Às 8h30 estou no computador. Quero estar o mais livre possível para... o que tiver de ser. Não quero saber, claro. Nem quero andar ao sabor do vento de ninguém. Nada me interessa. Ninguém me interessa. Estou-me a borrifar para tudo e todos. Só eu é que importo. Acho que já nem o sexo me interessa.



Fecho os olhos. 

E, por uns segundos, sinto o melhor e mais doce beijo do mundo. Os melhores lábios.

Continuo de olhos fechados.

E, por uns segundos, consigo ver aquelas mãos que se aproximam na direção da minha cara e me agarram umas vezes a cara e outras a cabeça ou o cabelo. Que me despenteiam e são tanto doces como esfomeadas.



Quero dormir.

E quero ter cabeça para me conseguir focar no que estou a ler. Quero conseguir esvaziar a mente para absorver as palavras sábias de Valerie Perrin (para mim o equivalente feminino a Murakami) e ler a história de Os Esquecidos de Domingo. (Ler a sinopse aqui.)



Estou no computador.

E, lá em baixo, alguém faz uma canja de galinha para todos. Adoro canjas. Lembra-me as minhas avós. As canjas, as miudezas das galinhas e dos coelhos, os corações e rins pequenos que eu procurava sempre no meio dos pratos de carne quando era pequena. Aquelas coisinhas deliciosas que eu, por educação, perguntava se alguém queria enquanto rezava que dissessem que não.

Acho que hoje me vou deitar cedo novamente. E quem sabe se consigo ler mais 2 ou 3 páginas e desta vez sublinhar as frases que mais gosto (detesto profanar livros, mas este tem de facto pérolas escritas e as folhas são daquelas amareladas e macias, com ar de quem já foi lido - e foi, ofereci-o à minha mãe em tempos)


Amanhã volto aqui.


quarta-feira, 25 de março de 2026

Músicas

Olá meus caros,

Aqui há umas semanas o Spotify presenteou-me (fui obrigada a ouvir as sugestões dele) com esta bela versão do Time After Time da Cindy Lauper. Adorei. É uma versão mais despida e mais doce até, da Lennon Stella. Uma maravilha... Deixo-vos aqui https://www.youtube.com/watch?v=np8uJEogkVM

segunda-feira, 2 de março de 2026

Objetivos 2

 

Das 3 coisas na minha lista para este mês que tenho e quero absolutamente fazer,
2 já estão em andamento. Siga! Sempre em frente.


Se eu não me conseguir "corresponder" em tudo no que quero, ninguém o fará!


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Objetivos

Tenho de colocar isto na minha parede do "escritório", para me lembrar de pôr tudo o que quero fazer na minha agenda. A lista já está feita. Agora é executar. E com prazos.


"Um objetivo nada mais é do que um sonho com limite de tempo."

Joel L. Griffith


No final de março tenho de ter pelo menos 3 das coisas feitas. 


Ready, 

set, 

go.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O cabelo

Ela olhou-se ao espelho.

O cabelo ainda húmido que, ao secar naturalmente ao ar, ia ficando às ondas. Sempre que o secava ao ar ficava assim, naturalmente ondulado. Estava enorme. A começar a ficar mais seco novamente. Mas algumas mechas de cabelo estavam mais onduladas e a franja comprida também. Gostava. Dava um ar natural e ligeiramente selvagem.

Despiu-se para ir tomar banho. Espelho. 

O cabelo dava-lhe pelo meio das costas. Era bonito e ela pretendia mantê-lo assim por muito tempo. Era agora a sua marca e quem não gostasse ou criticasse que olhasse para o lado. O cabelo caia-lhe pelos ombos primeiro e depois deslizava pelas costas. E ela sentia-lhe bonita. As poucas rugas que tinha ainda não chegavam para lhe abalar a confiança.

Mas ia começar a trabalhar mais o corpo e a barriga. O objetivo era chegar ao verão mais tonificada. É bom ter objetivos. Mas objetivos racionais à parte... Sentia-se bonita, sim.

E conseguia ver-se muitas vezes pelas lentes dele. Aí sim, era a mulher mais bonita do mundo. Não era a mãe de alguém, filha de alguém, profissional, espectadora de algo, cliente de algo... nada disso.

Era apenas uma mulher.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

E de repente...

... eu que não sabia nada de nada sobre gráficos e tabelas e nomes e cenas...

Já só oiço e penso em:


1. Mapas Mentais

2. Gráficos/Tabelas de Gantt


para estruturar workflows...


Conheciam estes nomes? aplicam-nos no dia a dia?

Eu até aplicava dantes, mas num sistema muito rudimentar...


Agora, só sei que nada sei!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Um dia de cada vez

Mais uma noite.

Mais uma direta.

Direta das quase 11h da noite às 7 da manhã. 

Sem encontrar posição, a tentar não pensar em nada, mas com o corpo ainda em super estado de alerta sem conseguir descansar.

Ponto positivo: não chorei.

São 3 dias sem dormir absolutamente nada. Olheiras até aos pés, cinzentas-azuladas... nem sei de que cor são. Papos inchados.

Mas não chorei.

Quando me levantei hoje não estava escuro, estava alguma luz (mas não sol). Ajuda a animar.

Perguntaram-me: dormiste bem?

Respondi apenas: Não.

Não quis acrescentar mais nada. Não há nada a explicar ou inventar. Não, não domi bem. De facto não dormi mesmo nada, zero. Mas essa informação não interessa.

Já não me foi perguntado mais nada de volta. Acho que o meu tom foi: não quero mais perguntas.

Outro ponto positivo: o gato veio novamente dormir comigo. Já o tinha feito há uma semana, por aí. É muito muito raro fazê-lo. Curiosamente da outra vez que o fez foi também num momento em que parecia o fim do mundo (e era o começo do fim do mundo, eu é que ainda não tinha percebido). Esta noite, a meio da noite foi-se aninhar novamente ao lado das minhas pernas, encosta o lombo ali e sinto o peso dele e sinto-o a descontrair para dormir. Já da outra vez pensei o mesmo que pensei hoje: é curioso como os animais parecem detetar o nosso estado de espírito, quando precisamos de.. alguma coisa.. algum sinal.. algum conforto. As pessoas dizem que as crianças são o melhor do mundo. Acho que são uma coisa incrível sim, especialmente as nossas que são parte de nós, mas o melhor do mundo continuo a achar que são os animais. Aquela pureza toda não se encontra em mais lado nenhum. Acho que foi por isso que quis incluir um animal no meu novo desenho. É o símbolo de algo puro e simples.

Sinto-me mais calada do que o normal. Sem chorar, mas em silêncio absoluto. Não quero ouvir música ou podcasts, nada nos ouvidos. Quero silêncio.

Ao trabalho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Delírios

(ficção)

Meus caros,

Às vezes deliro. São coisas simples:


"Estou num evento qualquer. Um casamento, uma festa, um almoço. Não interessa o quê.
Estou a falar com alguém e quando ergo o olhar estás tu ao fundo da sala a falar com outras pessoas. Há entre nós um sorriso imperceptível, só nosso. Uma espécie de telepatia que não diz nada, mas diz tudo.
A música à nossa volta toca e as pessoas dançam. A certa altura o registo da música muda, é mais intimista. E tu fazes uma coisa que nunca fizeste, levantas-te e vais-me buscar. E dançamos lentamente, juntos, abraçados, naquele conforto só nosso. Nada é forçado. E eu derreto-me ali (nunca achei confortável dançar de modo intimo porque nunca me dei ou permiti ter essa intimidade simples com alguém). Não quero saber quem olha para nós. E acho que tu também não. O mundo desaparece e sou só tu e eu por mais uns minutos. Lentamente."

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Fins de semana, glúten, amigos e conhecidos


(...)

Foi num sábado de manhã que a ansiedade veio. Eve tinha dormido bem, muito bem até, sentia-se com o corpo meio amassado o que ajudava sempre a descansar. E, de repente, acordou sobressaltada. Era muito cedo e ainda não havia luz lá fora. Mas o coração dela estava descompassado e levou uns segundos a perceber o porquê. Deviam ser 6h da manhã e a sensação era a de ter acordado depois de um pesadelo. Depois lembrou-se... naquele tempo matinal de sono já não-profundo tinha imaginado/sonhado que daí a umas 2h abria o telemovel e deparava-se com a mensagem que ela não queria mas teria de ler um dia. Uma mensagem que começaria com algo do estilo "Sei que não é fácil ler isto, mas já aconteceu isto e aquilo..., desculpa." Depois tomou consciência: se calhar estava a acontecer agora mesmo, nesse preciso momento. Seria uma promonição? Teria acordado assim repentinamente porque tinha pressentido algo? O coração começou a bater a um ritmo insurdecedor, a ansiedade era grande. Será? Depois tentou respirar fundo e repetiu o mantra "Não stresses nem dês mais importância do que a que tem às coisas que não podes controlar". Eventualmente acalmou, respirou fundo e decidiu não pensar mais. Eventualmente conseguiu voltar a dormitar e descansar mais um bocado antes do dia atarefado que ia ter.

Levantou-se e tentou não pegar no telemóvel. Sabia que ia ficar com o dia estragado se lesse mensagens antes do grande almoço que ia ter, em que tinha de mostrar o seu melhor sorriso e energia. Mas, raciocinou, então o melhor era ler logo para o caso de ter mensagens desagradáveis, assim tinha tempo de mastigar tudo e tentar não pensar muito o resto do dia. "Não quero saber." repetiu. 

O grande almoço de festa foi bom. Os miúdos ficaram numa mesa com outros miúdos e eventualmente o mais velho lá começou a falar sobre a vida com um outro que já tinha entrado na faculdade e lhe ia contando algumas peripécias. Eve e o marido ficaram noutra mesa com outras pessoas que não conheciam. Eve não estava nos seus dias de socialite. Sentia-se ansiosa. Era acarinhada pelo marido e, no entanto, sentia-se triste e algo desconfortável. Ele basicamente salvou a tarde: tinha assunto e falava com todos, o que é sempre bom. Mas como ninguém naquela mesa se conhecia, o mentor da festa lá foi apresentando as pessoas e foi dizendo: olha este é o X e é da área de marketing, este é o Y e é da aviação, etc etc. As primeiras trocas foram sobre em que trabalhavam todos, para encontrarem pontos comuns. Ora claro... nessa altura isso era um assunto sensível para Eve. Ela teria preferido falar sobre que livro andavam a ler, ou hobbies, peripécias de infância, etc... mas parece que isso eram temas que só surgiam quando as pessoas já eram amigas (e vá... é normal falar de trabalho).

Eventualmente, as conversas foram parar aos filhos e o que iam eles seguir ou fazer (os que já tinham 16 ou 19 anos). Estava um casal ao lado de Eve (nem todos na mesa eram casais) muito simpático e elegante. Ele curiosamente tinha uma pancada por parques temáticos e ia todos os anos a Orlando (EUA) uns dias para se divertir por lá (aparentemente há coisas novas todos os anos nos parques). Depois eram os cruzeiros. Falavam lindamente de cruzeiros (nunca digam nunca, mas barcos, navios, etc, nunca tinham sido um must para Eve). E então ela ouviu durante muito tempo quais os melhores cruzeiros a escolher, quais aqueles a evitar, o conselho da praxe de ir em alturas de época baixa (eles tinham um filho com quase 30 anos e já não se prendiam por épocas escolares). Parecia tudo tão fácil e fluido. Lá se falou no assunto favorito da malta no geral: viagens. Falou-se de episódios caricatos, alergias alimentares, etc etc. Ao ir buscar algo para comer (era volante) Eve captou uma conversa sobre glúten e chegou-se a 2 mulheres que falavam nisso. Uma delas era celíaca assim como o filho. Meteu conversa e ficou a falar com ela um bocado. Era sempre um tema valioso.

Algures durante o almoço e numa das vezes em que Eve estava de pé, um homem veio ter com ela. Inicialmente pensou: "Esta cara não me é nada estranha, é familiar. Mas de onde?" E então Eve animou-se! Ele era o assistente de bordo que os ajudara a ver que voos estavam disponíveis na ida e vinda ao Japão. Era o homem que num dia de folga seu lá, se tinha encontrado para jantar com eles e os conhecer. Era super simpático e melhor, era daqueles que falava com Eve e interagia tanto com ela como com o marido (muitas vezes em conversas onde Eve não tinha a mesma área profissional que outros homens, eles mal trocavam palavras com ela, e ela ficava apenas a ouvir ou ia fazer a ronda para outro lado). Este homem lembrava-se de coisas de há 2 anos que tinham falado, e ela idem. Foi um reecontro breve mas muito giro. 

Passadas 2h, Eve e a família rumaram para bem mais longe, para comemorar mais aniversários. Desta vez com alguma família e amigos da família. Desta vez um ambiente mais descontraído com um toddler irrequieto e charmoso que fazia as delicias de todos. Mais uma vez fazer conversa com conhecidos que vemos 1 vez por ano, falar sobre IA, como a usar no trabalho, quais as melhores ferramentas, etc etc. Eve gostou, mas estava mentalmente cansada. Um dia inteiro de fim de semana sem direito a fazer ronha no sofá um bocado não era fim de semana... E depois aquela sensação estranha de ver casais que pareciam super cool, in love e sintonizados - igual a ver beijos apaixonados no cinema. Eve sentia-se sempre tão estranha e triste.

Depois no caminho de regresso a casa à meia-noite: dar boleia a um rapaz conhecido. Era um simpático e espírito livre e lá contara que vivia em Espanha com a namorada (Eve já sabia) depois de uns anos a viver aqui e ali e a fazer coisas diferentes (do estilo: dar aulas a crianças no Peru, etc). Era engenheiro civil de formação e tinha trabalhado uns anos fora onde tinha ganho algum dinheiro e poupado. E o que ganhara investira cá (há uns anos) em 2 ou 3 casas que alugava agora como AL. Vivia das rendas. Eve pensou: "Bolas, isso é que era! Ter um negócio de AL." Às vezes pensava: "Onde é que eu fui tão burra que não pensei bem cedo em ir para algum país trabalhar e ganhar um bom dinheiro para depois regressar e viver bem". Porque raio é que não tinha ido para alguma companhia de aviação como assistente de bordo, etc e tal. Ou fazer trabalhos que ninguém gosta de fazer nos EUA, mas que bem poupado dá para voltar e ter um valente pé de meia? Algo que dê para pensar em futuros negócios, projetos, rendimentos? 

Eve secretamentente culpava os pais pela falta de orientação e aventura. Tinham protegido tanto que deram poucos empurrões para ela se soltar. Umas das palavras-chave da mãe era Medo, do pai era Estabilidade. Aquela filosofia pacata e académica demais. Ninguém se tinha esforçado por lhe abrir os olhos. Agora que os tinha bem mais abertos perguntava-se se era tarde de mais. O país estava o caos, o mundo à beira de uma 3a Guerra Mundial, a sua vida privada era melhor nem pensar muito, e a sua vida profissional era a incógnita perfeita. 

Eve tinha dias com esperança e otimismo. Mas tinha dias em que tudo ia por ali abaixo, onde lutava por se manter à tona para bem da harmonia familiar. Depois olhava para as fotografias tiradas nos almoços e jantares e parecia que nada se passava, que era só animação.

Depois eram os dias de votação, os resultados e os candidatos à 2a volta. E Eve esmorecia com a burrice do seu país...

E depois a semana começava e a luta recomeçava.


(...)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Velhice



 A velhice acontece quando paramos de aprender.

Diálogos que oiço por aí

(...)

- ...na realidade nunca vemos os pequenos passos que damos, só o resultado final...

- A jornada de toda a gente começa embaraçosamente (para nós) pequena. (...) Ser humilde e ter compaixão pela nossa pessoa. Tomar ações que vão crescendo, mesmo que ao início não pareçam ser dignas de registo: ex. hoje fui andar. No dia a seguir: hoje aprendi isto. Etc. Fiz uma pequeníssima coisa que me fez andar em direção ao meu objetivo. É uma pequena vitória. Ao início não sabemos bem o que fazer, depois já sabemos o que fazer mas não sabemos como o fazer. Mas podemos sempre ir perguntar ao ChatGPT, pesquisar no Google, YouTube, telefonar a um amigo que sabemos que percebe daquele assunto e perguntar como se faz isto ou aquilo. A procrastinação muitas vezes vem quando sabemos o temos de fazer mas não sabemos como o fazer. É a questão de ação e de skills, e ambas geralmente são facilmente ultrapassáveis. 

- Li algures que há quem procrastine porque têm medo do que vão descobrir sobre elas se experimentarem fazer aquilo...

- O aspeto "bom" de procrastinarmos algo, de nunca experimentarmos fazer algo, é nunca sentir peso de falhar. Ou o peso da rejeição. (...) Se eu disser a mim próprio que tudo é uma merda e que nada nunca irá melhorar sentir-me-ei dispensado de alguma vez tentar algo. É mais confortável ser fatalista do que ser pragmático, e assim achamos que ser positivo é apenas ser ilusório... Assim é mais fácil e confortável. Mas isso é cinismo. O oposto disto é ser entusiasta. E é ótimo rodearmo-nos de pessoas entusiastas.



......


- Li algures que a falta de confinaça mata mais sonhos do que a falta de skills. (...) A confiança é aquela primeira peça que permite depois que as outras peças do dominó comecem a mexer. A questão é: eu acredito que consigo fazer isto?

- Vou dizer isto: eu acho que muita gente acredita que o acreditar em nós é a resposta. Mas nós podemos apenas fazer coisas, podemos fazê-las de qualquer modo. Podemos fazê-las cansados, sem acreditar em nós, fazê-las quando não queremos, podemos fazer algo que não vai resultar. É só fazê-las. E eu aprendi que podemos não ter autoestima e fazer as coisas de qualquer modo, podemos não acreditar em nós e ainda assim as coisas correrem bem. O Ryan Holiday diz "self belief is overrated generate evidence" (A autoconfiança é sobrevalorizada; constrói evidências). Yap... evidências. Quero a prova de que sou quem digo ser. Pessoalmente sou a cara do síndrome de impostor. Nunca pensei estar onde estou hoje. Sou teimoso. E ser teimoso significou que continuei a mostrar e a fazer coisas. Isso passou a ser considerado consistência. Queres escrever um livro por exemplo. Todas as semanas escreves umas linhas, todos os meses escreves 500 palavras. Num ano e pouco tens um livro. Parabéns! Já podes dizer que és escritor. Podes até consegui-lo editar. Um dia mais tarde a Penguin até quer publicar o teu livro...e parabéns!! Já conseguiste ser um autor publicado! E tudo começou com o pensamento e a ação de: deixa comçar a fazer esta pequena coisa. 

- (...) Às vezes fazemos as coisas porque se não as fizermos sentimos um vazio incrível. Não há como não fazer. (...)

. Sim. Outra coisa, um exemplo. Tens alguém que mora num sítio que não adora, uma casa minúscula, cheia de bolor - mas é perto do trabalho. Essa pessoa também trabalha num sítio onde tem uma chefia má, um ambiente razoável mas que não puxa, não pagam muito mas também não têm de trabalhar muito. Vou dizer isto: essa pessoa estaria melhor se estivessem em piores condições! Porque se sentiriam motivadas a melhorar as coisas, esta zona da complacência confortável vai assentar e ficar durante muito tempo e isso é perigoso. Porque é aquela zona em que as coisas não estão mesmo más para ficarem más, mas também não estão boas para serem mesmo boas. E esta zona cinzenta faz com que vás andando, mas não vás avançando mesmo. 


(conversa entre Chris Williamson e Steven Bartlett, recomendo ouvir, conversa informal e brilhante no podcast Diário de um CEO)

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A luz que se foi

Olá meus amores,

Já há algum tempo que não venho aqui (faz sentido continuar a vir aqui?), por isso trago um momento que partilhei com uma amiga de longa data há uns dias. Não estavámos fisicamente presentes há muitos meses e, no que se está a tornar o sítio do café habitual, lá partilhámos a nossa vida atual e fizemos o update dos últimos meses. É um bom exercício e quase o sinto como uma espécie de terapia versão light (saímos dos encontros com amigas com pelo menos um destes sentimentos: mais leves, mais instrospectivas, mais divertidas, mais solidárias). Desta vez saí introspectiva.

Falámos dela e da sua vida atribulada nos últimos tempos e depois foi a minha vez. Contei-lhe a versão filtrada. A versão total... acho que ninguém acreditaria, é intensa e demasiado twilight zone.

A certa altura ela começou a suspirar. Ia pondo uma mão mais para cima e outra mais para baixo (a simular uma balança) consoante eu ia desabafando algumas coisas. Dizia-me: agora estás a pensar aqui, agora estás a pensar ali. Ela também partilhava as suas questões e iamos rindo, ela por vezes no seu tom quase profissional de quem já tem umas ferramentas extra (que as tem). 

De repente - o tempo do nosso encontro já estava a acabar - ela dá um grande suspiro e diz: "Olha, queres saber o que eu sinto como amiga quando te oiço? É como se estivessemos numa sala vazia e às escuras, com uma vela acesa no meio. Essa vela dá luz, mas quando começas a falar, a pensar alto, a fugir... é como se essa vela se apagasse. Tu apága-la. E eu fico às escuras contigo. Fica tudo escuro."

Fiquei em silêncio e confesso que em choque. Não soube o que dizer.

Nesse dia estava bem e risonha. Sentia-me no meu modo prático e despachado, no modo "fazer coisas", com energia. 

Aquela frase calou-me.

Até hoje não lhe quis perguntar o que queria exatamente dizer com aquilo.