Estou a trabalhar. É dia de semana e tenho prazos e coisas a entregar. A semana não correu bem como tinha planeado, mas tenho de dar o litro na mesma. O concerto já lá foi, mas a emoção de alguns sons ainda paira em mim. Ele está em casa e, ao passar por perto, comenta: "ah essa música... é verdade... Tens ouvido o álbum?". Penso "Ah é verdade?! mas... ele viu o mesmo que eu vi? sentiu algo? não tem pensado no que viu e ouviu? sou só eu?" Respondo que não tenho ouvido o albúm todo, apenas as músicas de que gostei mais...
Ele ri-se:
- Acho que já é a 3a vez que a estou a ouvir agora, essa música...
- Não é, é a segunda apenas desde que me sentei à bocado. E foi porque o YouTube a repetiu automaticamente. Eu não a selecionei de propósito. Mas se queres saber: hoje já ouvi isto umas X vezes..
- Xi... que exagero... - ri-se mais uma vez.
Não digo nada.
Aí está.
Essa é a diferença entre nós.
Eu exploro o que a arte e a emoção me faz sentir até ao tutano (quando gosto). Enquanto não estiver farta (agora falo de música especificamente) oiço algo ininterruptamente. No outro dia passei um dia inteiro sentada ao computador e enquanto trabalhava fiz uma música passar em loop pelo menos a manhã toda (à tarde, variei entre essa e mais duas). Não ouvi mais nada a não ser isso o dia todo.
Não sei se oiço o som apenas, os diferentes instrumentos, se sonho acordada enquanto oiço e trabalho, mas aquilo transporta-me a outros lugares. E preciso de ouvir várias vezes porque 3 ou 4 minutos de música para mim não são suficientes, é muito pouco tempo.
Nem me dei ao trabalho de explicar ou contar isso. Não percebe. Não lhe interessa perceber. Não tem curiosidade e a que tiver terá algo de prático na raiz. Nunca saberá que saber tal pormenor seria conhecer-me um bocadinho melhor.
Não sabe o que é estar obcecado por algo.
A não ser, claro, que seja um desafio técnico, a não ser que não esteja a perceber porque é que no programa X a caixa Y não entra na slot Z para formar não sei o quê. E aí sim. Serão horas e dias e o tempo que for de volta daquilo.
Curiosamente nunca percebeu que na minha mente há grandes obsessões. Podem até ser simples. Mas existem. E são minhas. Não as conto. Para quê?
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