Olá meus caros,
Eu por aqui mais uma vez.
Sem rumo. Pelo menos assim o parece.
O horóscopo diz o contrário, que este é o ano das mudanças e do dinheiro e disto e daquilo. Aahahaha...
Os podcasts das menopausas e afins dizem que este período de transição é lixado e que as mulheres mudam e já não papam qualquer coisa que se lhes diga, e que começam a ficar diferentes.
Estou a ir andando aos tropeções lentamente, na prática. Mas já muito à frente na minha cabeça.
Sinto o meu sistema a desligar aos poucos. Sinto-me viva em alguns momentos e completamente morta e sem energia noutros.
Será a parte hormonal que está a dar cabo disto tudo?
Tenho alturas super calmas e, de repente, há um trigger e fico a pessoa mais ansiosa do mundo. Ou a mais zangada. Ou a mais... o que seja. Tudo em expoente máximo.
Às vezes, só encolho os ombros. Já não quero saber de como me sinto.
Nestes dias passados, tentei alienar-me de tudo. Não pensar. Existir. Sentir o sol na pele, rir-me com os filhos, falar numa boa com o marido (mas não me toques, please...). Depois olho à minha volta. Vejo casais novos sorridentes e apaixonados. Morro de inveja. Olho para o lado, evito ver. Vejo pessoas que viajam a torto e a direito, a vida é bela e amarela. Vejo as pessoas com empregos e ocupadas (algumas com mto bons empregos, o que também me deixa cheia de inveja). Tudo parece correr bem. A todos.
Até a mim.
Tudo parece fácil.
Mas tenho a cabeça tão, mas tão pesada.
Se as pessoas soubessem o que é estar bem e funcional, e de repente sentir que se abate uma tristeza profunda, o não saber que volta dar para ser eu de novo. Mas... será que esse "eu" existe ainda? Vai voltar?
E depois oiço, leio, vejo... vem de todos os lados, de todas as direções...:
"Não te preocupes"
"Hás de encontrar"
"Lá fora é que era"
"A guerra, os preços, a economia global"
"O preço das casas"
"Investir? em quê?"
"As pessoas aflitas"
"Não conseguem pagar"
"Mal dá para viver"
"Estudar"
"Não te preocupes"
"Sou mulher e ganho líquidos 3200 euros mês, só consegui ficar independente porque investia"
"Sexo"
"Workshops"
"Descobre como se ganha dinheiro online apenas usando isto"
"Felicidade pura"
"As relações"
"Descobre como ter os melhores orgasmos da vida"
"Alma gémea"
"Parceria"
"Não viajem agora, agora é melhor não"
"Slowliving"
"Siga estes 10 passos e descubra como viver uma vida plena"
"Viajem agora e a toda a hora, a vida é para se viver"
"Prioridades"
"O Instagram"
"Amor"
"Ação"
"Quanto custa"
"Seguidores"
"Sonhos"
"Paixão"
"Tudo a seu tempo"
"Fácil"
"Difícil"
"Regressar ao analógico"
"Simples"
"Complexo"
"Doutores"
"Planos"
"Redenção"
"Objetivos"
"Psicólogo"
"Canalizadores"
"Campo"
"Não gosto de planos"
"Inteligência artificial"
"Ir ao sabor do vento, a vida mostra"
"Se não estás a par, vais ser passada para trás"
"Cidade"
etc
etc
etc
Sinto-me
a
explodir.
E ninguém me vai salvar.
Só
eu.
Ontem fui para a cama cedo.
E desta vez tentei uma coisa que não tentava há muitos meses, mas nunca mais o revelei. Ler.
Não leio há várias semanas. Arrisco dizer vários meses.
Vejo algo na TV (há coisas boas a nível de séries sim, mas são tantas e o ritmo é tão intenso que às vezes me sinto a fazer maratonas e nem fixo o que ando a ver realmente, esqueço-me. É mais uma. Já é igual ao "o que vamos fazer de jantar" ou "para onde vamos de férias" ou "o que fazemos este fds"). Tudo em mim é "tanto faz" ou é tirado a ferros. Tudo. Dizia eu que vejo algo na TV e depois vou para a cama. E depois volto a pegar no telefone. Eu, que nunca o fiz. Nunca fui escrava desse aparelho. E agora uso-o para tudo.
É o meu despertador, o meu calendário (pessoal e de família), o meu computador (emails), as minhas redes sociais, etc... O meu mundo ali enfiado e o mundo dos outros também.
Sou bombardeada por ele. Eu. Que sempre resisti ao telemóvel na mão durante anos a fio.
Eu que agora recorro a ele para ver se sou amada, se sou lembrada, se se e se...
E ontem forcei-me a não ver se tinha mensagens, a não ver notícias, a não ver os sucessos dos outros (ou falhanços... que claro que depois se tornam sucessos, claro...), a não ver nada.
Tentei ler. E li. Duas páginas. Ao fim de 2 páginas tinha a cabeça em papas. Não me conseguia concentrar em nada. Lia e repetia os parágrafos. Estive por uma unha (cortada) para espreitar o Instagram. Não o fiz. O que estivesse lá podia certamente esperar pelo dia de amanhã. As boas ou más notícias lá estarão de qualquer modo. Nisso o telemóvel é implacável.
Acordei cedo. Um silêncio sepulcral na casa.
Olho finalmente para o relógio (o telemóvel... claro). Daqui a uns minutos são 5h da manhã e já me sinto acordada há algum tempo. Ainda está escuro lá fora. Depois vai clareando e eu ainda acordada. Consigo ir dormitando um pouco mais. Às 8h30 estou no computador. Quero estar o mais livre possível para... o que tiver de ser. Não quero saber, claro. Nem quero andar ao sabor do vento de ninguém. Nada me interessa. Ninguém me interessa. Estou-me a borrifar para tudo e todos. Só eu é que importo. Acho que já nem o sexo me interessa.
Fecho os olhos.
E, por uns segundos, sinto o melhor e mais doce beijo do mundo. Os melhores lábios.
Continuo de olhos fechados.
E, por uns segundos, consigo ver aquelas mãos que se aproximam na direção da minha cara e me agarram umas vezes a cara e outras a cabeça ou o cabelo. Que me despenteiam e são tanto doces como esfomeadas.
Quero dormir.
E quero ter cabeça para me conseguir focar no que estou a ler. Quero conseguir esvaziar a mente para absorver as palavras sábias de Valerie Perrin (para mim o equivalente feminino a Murakami) e ler a história de Os Esquecidos de Domingo. (Ler a sinopse aqui.)
Estou no computador.
E, lá em baixo, alguém faz uma canja de galinha para todos. Adoro canjas. Lembra-me as minhas avós. As canjas, as miudezas das galinhas e dos coelhos, os corações e rins pequenos que eu procurava sempre no meio dos pratos de carne quando era pequena. Aquelas coisinhas deliciosas que eu, por educação, perguntava se alguém queria enquanto rezava que dissessem que não.
Acho que hoje me vou deitar cedo novamente. E quem sabe se consigo ler mais 2 ou 3 páginas e desta vez sublinhar as frases que mais gosto (detesto profanar livros, mas este tem de facto pérolas escritas e as folhas são daquelas amareladas e macias, com ar de quem já foi lido - e foi, ofereci-o à minha mãe em tempos)
Amanhã volto aqui.
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