sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A mulher das manhãs da escola

 


Durante anos cruzei-me com uma mulher lindissima (mais velha do que eu, diria, mas é melhor não apostar - curvilinea, cabelo preto comprido, olhos verdes bem maquilhados, uma espécie de Monica Bellucci mas de olhos verdes - essa mulher é mais ou menos o meu ícone de beleza) que levava o filho à escola ao mesmo tempo que eu levava os meus. 

Ou nos cruzávamos à ida (eles iam sempre com passo mais rápido e mais à frente) ou à vinda (ainda de manhã) quando ela voltava já da escola. Ela sorria e dizia Bom Dia, eu idem. Nunca trocámos mais palavras do que isto.

Ela parecia ser muito simpática e sorria-me sempre. Por vezes passou-me pela cabeça (aquele feeling que às vezes temos) que ela gostaria de parar e conversar um bocado. Mas a diferença entre nós é que ela descia calmamente algumas ruas a falar descontraidamente com o filho (pelo que soube hoje e já desconfiava, mora ali perto) e eu descia a rua em passo super rápido para ver se os 2 miúdos entravam rapidamente na escola, para eu depois voltar ao carro. Cheguei a ir para o carro a correr literalmente, tal era o stress e pressa, porque tinha mesmo de entrar no trabalho a horas (era super controlada e também queria sair a horas por causa... dos miúdos). Por isso, nunca houve grandes possibilidades de conversa. Nos últimos tempos, eu já não corro para o carro, mas também já não me cruzo tantas vezes com ela porque os meus horários e pressas mudaram ligeiramente...

Hoje tive de ir à escola com os miúdos. 

E, quase ao ir embora, esbarrei com uma pessoa que estava na fila da papelaria. Esse alguém voltou a sorrir-me imenso como se fossemos velhas conhecidas. Sorri também enquanto dentro da minha cabeça pensava furiosamente em que era ela afinal... mãe de quem, etc etc. Depois percebi. E pela primeira vez em anos (sim...ANOS) falámos um pouco. Ela perguntou se estavamos bem, comentou que os miúdos estavam super crescidos, parecia agradada e espantada. Percebi que o filho dela tinha entrado para a mesma área que o meu mais velho, etc. 

E, de repente, disse uma coisa que teve algum impacto em mim e que achei muita piada. Ela parecia refletir na vida quando afirmou o seguinte, ao olhar para eles com curiosidade: "Eles estão mesmo grandes e é muito curioso, olho para eles e lembro-me de quando eram bem mais pequenos e com ar bem novinho. É giro... eu, durante anos, vi-os crescer. Vi-os quase todos os dias, meses, anos a passarem por mim, tenho-os visto crescer ao longe, mas tenho."

Caramba. Que bonito e que profundo. Ela nem nos conhece, nem os conhece. E, no entanto, a passagem do tempo por eles teve algum impacto nela, deixou memória. 

Curiosamente e infelizmente eu não tenho a mesma análise do que ela... Via-a a passar sim, mas mal me lembro do filho dela mais novo. Só me lembro de ir para a escola a correr e sair de lá a correr também. Estava ainda na famosa roda dos ratos, sentia-me completamente assoberbada. O que me saltava sempre à vista eram aqueles olhos incrivelmente bonitos, ainda por cima numa cara super calorosa.

Foi giro o nosso encontro de hoje. Ela perguntou-nos o nome e disse o dela e o do filho. De repente, ela tem um nome o que é estranho. Talvez da próxima vez que nos cruzarmos já comece a surgir um novo tipo de interação menos fugidia. 

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