terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ser ou não ser...

 

Aqui há tempos vi um filme que adorei. O meu tipo de filme. Aqueles filmes leves e românticos que nos fazem sonhar e pensar que ainda há finais interessantes e óbvios.

Claro que estamos a falar de filmes com malta de 20 e tal anos. Sem filhos, sem grandes responsabilidades, que viajam e se divertem sem preocupações, para quem a grande questão é "será que ele/a gosta de mim".


Agora primeiro:

Sobre o que fala o filme? O filme acompanha acompanha Poppy e Alex, dois amigos que são praticamente opostos: Poppy é espontânea, aventureira e adora viajar. Alex é mais reservado, organizado e prefere uma vida tranquila. Apesar das diferenças, os dois tornam-se melhores amigos e, durante vários anos, decidem fazer uma viagem juntos todos os verões. Ela anima-o e incentiva as suas aventuras amorosas e ele idem. O problema é que, depois de uma viagem que corre mal, passam dois anos sem se falar. Quando ela percebe que não se sente feliz com a vida que tem, convence Alex a fazerem mais uma viagem juntos, numa tentativa de recuperar a amizade. Naturalmente, começam a surgir sentimentos que talvez sempre tenham estado ali restringidos… A clássica história da amizade que se transforma em amor.


Segundo, e sobre o que eu queria falar:

Pergunto-me muitas vezes sobre esta necessidade de ir para outro lugar, de temer ficar presa a algum sítio, de pensar sempre se haverá um outro sítio onde estaria melhor, este sentimento eterno de procura, de busca de algo que nunca sei bem definir o que é, daquele sentimento de que "assim é que vou conseguir estar em paz". (mas será que a alma humana está alguma vez satisfeita? se calhar algumas almas sim, eu desconfio que a minha não).  Enquanto via o filme quase tive a resposta a esta questão. A certa altura, a protagonista confessa ao amigo uma situação super embaraçosa que aconteceu quando era teenager. E refere: " No dia seguinte, na escola, todos se riam de mim". E continua: "Quando decidem quem és, acabou-se. É por isso que quero viajar (a profissão dela estava relacionada com isso). Podes ser quem quiseres, em vez de quem dizem que és."

Esta frase marcou-me. É isto.

Quando se passa muito tempo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, a mesma "comunidade", a mesma paisagem, os mesmos hábitos, as pessoas criam uma imagem tua na cabeça delas. Acham que te conhecem. E conhecem, até podem conhecer... mas conhecem a versão que lhes dás porque isso responde ao estímulo que elas também te dão, ao que te entregam. Se te entregam uma infinita possibilidade coisas (não falo em coisas materiais, falo em pensamentos, mentalidade, ações, vontades, etc) isso influencia-te de uma maneira e passas a ser um tipo de pessoa. Se te entregam outro tipo de coisas diferentes (ou até menos desafiantes), acredito que, por osmose, também te torna um bocado o reflexo disso. 

E assim, os outros definem o teu perfil. Decidem, mesmo sem querer e sem quereres, quem tu és, segundo o que elas próprias são e o que acham que conhecem de ti. E não consegues sair dali. Dessa imagem que fizeram de ti e que decidiu quem tu és para o mundo.

Quando sais dessa zona (mental e lugar físico) quando abres uma página em branco (o que acontece muitas vezes quando conheces pessoas novas, quando fazes coisas novas, ou quando visitas outros lugares) de repente estás livre. Livre para seres quem tu quiseres. És uma folha em branco para os outros (mesmo que a cor da tua página já tenha o tom que ficou impresso pelas tuas experiências passadas) e para ti próprio. Vês o mundo de outro modo, vês coisas novas, podes sacar outras versões que existem dentro de ti, de repente és infinito, poderoso e livre.

Por isso é que nos meus vintes quis sair de onde estava. Quis sair de casa dos pais, ir para outro lugar onde ninguém me conhecesse, provar(-me) do que era capaz, provar que era capaz de ir sem ajuda de ninguém, estar me myself and i, conhecer pessoas novas, mentalidades novas, realidades diferentes. Sempre achei que evoluir era ir andado aqui e ali. Mudando. E mudando de sítio também. Não conseguia perceber quem vivia na casa dos pais a vida toda, quem tinha o mesmo namorado (e casava com ele!) a vida toda, quem não saía do mesmo emprego a vida toda, quem ia aos mesmos lugares a vida toda, quem se resignava e não ia ver o que se passava além do seu perimetro confortável. Mas pior, quem ficava nesse perímetro e não conseguia sequer então apreciar as pequenas coisas belas que iam acontecendo mesmo que no mesmo lugar. Coisas essas que eram também pequenas mudanças e evoluções, mesmo que parecessem não o ser à primeira vista.

Quando voltei do sítio onde vivi fora algum tempo, regressar à casa dos pais sem ter nada mais em vista, foi um golpe no meu ego e esperança. Sim, tinha conforto, comida e cama lavada. Mas estava perdida e sem norte, e caí em depressão. Durou uns valentes meses e não sabia bem como dar a volta. Falava com amigas e nada de mais havia para contar. Elas não tinham saído da cidade onde moravam, ou das casas onde moravam, mas pior... não tinham saído da mentalidade do "ah, não se passa nada, tudo na mesma, tudo a andar". Epa se nunca há nada de especial para contar (pensamentos, algo que se viu ou leu, a aldeia que visitámos, o novo desafio que o trabalho nos trouxe, as flores que plantámos) epa é preferível morrer...

Eu queria crescer e fazer coisas. Viver.

Depois fui morar para um apartamento, saí da casa dos pais. Isso foi um marco: o meu segundo pseudo grito do ipiranga. Depois, anos mais tarde, em conversa sobre a casa onde cresci (a última) poder ser vendida, fiquei de pé atrás... Inicialmente o que era dito era "mas se ninguém vier para aqui... para quê um dia mantê-la". Porque ela é linda? (mesmo que a precisar de umas remodelações) e tem umas condições de condomínio incríveis? 

Mas eu não queria pensar sequer em voltar a viver lá. Na minha cabeça, isso era o retrocesso total. Era voltar ao espaço físico onde tinha sido criança, depois adolescente e depois adulta. Onde vi e vivi coisas que não adoro lembrar-me, onde também vivi momentos giros e caricatos. 

Mas a casa era o que a rapariga do filme dizia. Era o sítio onde quem eu era já tinha sido definido, por tudo o que se tinha passado ali. Aquela casa conhecia-me - pelo menos a minha versão dos 11 aos 21 anos (seguidos, depois mais tarde ainda passei lá mais ou menos 3 anos, às turras com a minha mãe). Aquela casa ditava quem eu era. Conhecia os meus medos, esperanças, amores e desamores, ilusões e desilusões. Portanto, aquela casa não era o futuro, não era quem eu queria ser (fosse isso o que fosse), aquela casa não era o mundo de possibilidades que eu queria à minha frente. Não era liberdade, seja isso o que for também...

Depois a vida correu e, apesar de ainda não me sentir confortável com o pensamento de voltar a viver em sítios onde já vivi (sinto sempre que voltei trás na vida), também aprendi que quem somos e queremos ser (e vamos ser) só está nas nossas mãos e não no espaço que habitamos. Não nos sítios que visitamos. Essas casas já não terão lá as pessoas que tinham antes, os móveis mudam, o chão muda, as decorações mudam, a vida muda. Percebi que a nossa mentalidade é que define tudo, indepentemente do local. Só temos de estar abertos a mudar esses sítios como nós queremos, à imagem do que queremos ser e do modo como queremos estar. Tudo depende da nossa perspectiva.

Eu não quero que decidam quem eu sou. Nem a sociedade, nem a minha idade ou género, nem nada. Quero continuar a acreditar ainda que "quando for grande" poderei ser quem eu quiser. A questão é que já sou grande. E ainda quero ser tanta coisa.

E agora? Sou quem eu quero ser ou sou quem dizem que eu sou?

E quem sou eu?




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