quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Momentos de sofá

 (ficção)


Eva senta-se no sofá. Mas senta-se porque é hábito, na realidade ela quer é ir para a cama. Avisa logo que o fará cedo, daí a 30 minutos.

Ele senta-se ao lado dela também, não deixando um centimetro de espaço sequer.

A impaciência e trauma saltam logo ao de cima dela. Vai-se mexendo de modo a afastar-se ligeiramente e discretamente. Só precisa de não tocar em nada. Ela quer estar sozinha.

Minutos depois ele arranja modo de voltar a estar colado e aí ela já tem de avisar. Diz-lhe: estás completamente a invadir o meu espaço pessoal assim de repente, não consegues chegar-te só um bocado mais para lá? É só mesmo só um bocadinho senão tenho a sensação que nem me consigo mexer.

Vê o esgar de desagrado momentâneo dele. Mas não consegue evitar... Porque será que as pessoas assumem que as outras querem ser tocadas só porque vivem na mesma casa? E que tal...sei lá... perguntar?... Ele suspira frustrado porque não percebe de onde surgem estes limites todos novamente. Dá o desconto como sempre.


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Eva está no WC a lavar os dentes e, ao ver o quarto desarrumado, começa a organizar coisas enquanto escova os dentes. O quarto está como ela gosta de noite, com a luz da mesa de cabeceira ligada mas amena (ela coloca um livro por cima para a luz ser ainda mais suave). Precisa de ir acalmando, acompanhando a noite. Está entregue aos seus pensamentos (a tudo e a nada) e de repente ele sai do closet (que estava às escuras). Sai silenciosamente e ela não tinha percebido que ele estava no quarto. Eva assusta-se e dá um pequeno grito (acontece frequentemente em casa, porque ela está muitas vezes na lua e já toda a gente conhece os pequenos gritos de susto dela). Ai pá, parecias um fantasma a sair do nada... Ele ri-se e diz: continuas igual a ti própria, és mesmo uma queriducha.

Eva fica a pensar.

Eu, querida?

Não.

Não me conheces bem.

Um dia de cada vez

Mais uma noite.

Mais uma direta.

Direta das quase 11h da noite às 7 da manhã. 

Sem encontrar posição, a tentar não pensar em nada, mas com o corpo ainda em super estado de alerta sem conseguir descansar.

Ponto positivo: não chorei.

São 3 dias sem dormir absolutamente nada. Olheiras até aos pés, cinzentas-azuladas... nem sei de que cor são. Papos inchados.

Mas não chorei.

Quando me levantei hoje não estava escuro, estava alguma luz (mas não sol). Ajuda a animar.

Perguntaram-me: dormiste bem?

Respondi apenas: Não.

Não quis acrescentar mais nada. Não há nada a explicar ou inventar. Não, não domi bem. De facto não dormi mesmo nada, zero. Mas essa informação não interessa.

Já não me foi perguntado mais nada de volta. Acho que o meu tom foi: não quero mais perguntas.

Outro ponto positivo: o gato veio novamente dormir comigo. Já o tinha feito há uma semana, por aí. É muito muito raro fazê-lo. Curiosamente da outra vez que o fez foi também num momento em que parecia o fim do mundo (e era o começo do fim do mundo, eu é que ainda não tinha percebido). Esta noite, a meio da noite foi-se aninhar novamente ao lado das minhas pernas, encosta o lombo ali e sinto o peso dele e sinto-o a descontrair para dormir. Já da outra vez pensei o mesmo que pensei hoje: é curioso como os animais parecem detetar o nosso estado de espírito, quando precisamos de.. alguma coisa.. algum sinal.. algum conforto. As pessoas dizem que as crianças são o melhor do mundo. Acho que são uma coisa incrível sim, especialmente as nossas que são parte de nós, mas o melhor do mundo continuo a achar que são os animais. Aquela pureza toda não se encontra em mais lado nenhum. Acho que foi por isso que quis incluir um animal no meu novo desenho. É o símbolo de algo puro e simples.

Sinto-me mais calada do que o normal. Sem chorar, mas em silêncio absoluto. Não quero ouvir música ou podcasts, nada nos ouvidos. Quero silêncio.

Ao trabalho.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Not bye bye


Meus caros,

Muita preguiça (por enquanto) de parar isto e criar novo e anónimo blogue.


Not goobye for now.





"Torna-te aquilo que és."
- Friedrich Nietzch


Muitos se perguntarão o que são eles, no entanto...


"Devemos julgar um homem mais pelas perguntas do que pelas respostas." - Voltaire


"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." - Oscar Wilde






sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Conversas filhas da p.

Fui levá-lo a algum lado. 
Está grande e é o meu orgulho. 
Consigo ter conversas cada vez mais adultas e, ao mesmo tempo, dizer coisas cada vez mais disparatadas e arrojadas, sem medo.

Estamos só os 2 no carro e a certa altura um outro carro faz uma manobra perigosa, mesmo ao pé de nós, que nos podia ter posto em perigo. Irritada disparo logo (mais à-vontade porque estou sozinha com ele) e digo: "Filho da puta!!" 
Ele concorda, o outro foi mesmo idiota e perigoso.

Eu tento aliviar a minha malcriadice do momento (deveria dar o exemplo, nao é?) e digo-lhe "Desculpa o meu francês... aliás, dizendo como se costuma dizer a boa da expressão: Pardon my 'french'."
Ele responde: "Também podias dizer, como diz o J.(que é mesmo francês): Fis de pute!"
Eu: "Ele diz Fis de Pute?? Pensei que era Fis de Putain."
Ele: "Bem, não sei... ele diz assim."
Eu: "Mas eu sempre achei que puta era putain em francês, sempre ouvi assim." 
Ele: "Se calhar dá para dizer das duas maneiras."
Eu: "Provavelmente... Hás de lhe perguntar. Sim? Fiquei curiosa."
Ele: "Mais oui."

Seguem-se as cenas dos próximos capítulos. Se o meu se lembrar de lhe perguntar...

ADENDA
Explicação de um francês:
"Putain" dito sozinho, é como dizer "Merda!"
"Fis de Pute" é a expressão certa para Filho da P...
:)

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cansada

Hoje li isto no LinkedIn...  - sítio onde toda a santa alminha despeja as suas grandes conquistas e feitos (mesmo que depois se vá a ver e estejam infelizes até ao tutano). Dizia uma moça chamada Marlene, em jeito de comentário ao um lamento de mais uma rapariga desempregada:

Compreendo bem o que sentes! Também estou à espera que o ciclo passe, também me sinto esmagada pelas vidas perfeitas das redes sociais, também me sinto obrigada a vir aqui e a mostrar a profissional que sou (e eu que não sou nada boa a "vender-me") porque tenho de recomeçar a trabalhar antes que dê em louca. Também penso duas vezes se devo partilhar este comentário porque não é boa onda falarmos das nossas fragilidades. Também eu estou cansada que me digam: aproveita o tempo livre para fazeres coisas de que gostas. Também eu me sinto culpada porque me queixo sempre da falta de tempo para os meus hobbies e agora sobra-me tempo e não me apetece fazer nada com ele. Também eu queria carregar no off e só voltar quando tudo fizer sentido outra vez. Não estás sozinha. E até suspeito que muitos dos que aqui partilham as suas histórias de sucesso nos acompanhem. Mas como sabes: não é bom não mostrarmos quão felizes estamos nos nossos desafios, quão gratos estamos à vida! Temos de andar para a frente... é o que é!

Podiam ser minhas as palavras dela. Isto de vidas perfeitas: só vistas de fora mesmo.

Mas não desisto. Um dia vou conseguir erguer-me novamente. Aos poucos isto tem de ir... só pode. Para trás nunca, para a frente sempre. O problema é a puta do ponto de interrogação, do não saber de todo o rumo disto. Por um lado aquela sensação de: há mil oportunidades à tua frente. Por outro é saber qual vai bater à minha porta, ou qual aquela pela qual vale a pena lutar.

Aqui e ali algo surge, mas qualquer dia tem de surgir algo grande mesmo! Senão, não dá.

É uma merda.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O batom

Num almoço com uma pessoa próxima de família, após a refeição, dei por mim a retocar (virada para um espelho) o batom dos lábios que estava já semidesaparecido. Ou tenho batom, ou não tenho batom. Quando fica aquele "mais ou menos"... não gosto.

Estava "na minha", nem muito discreta, nem espalhafatosa a fazer isso. Simplesmente saquei do batom e corrigi os lábios.

Essa pessoa olhou então para mim supreendida e não se coibiu de dizer alto: Vais a algum sítio agora? Vais sair?

Respondi que não ia a lado nenhum de especial e perguntei porque perguntava. Disse-me que era por me estar a ver a retocar o batom...

E é nestas situações que me salta interiormente a tampa, embora me mantenha polida e educada, e penso cá para mim Ok, vá, é outra geração... 

Mas...

1º: Preciso de algum motivo especial para pôr batom nos lábios?

2º: Preciso de ouvir isto à frente de outras pessoas? (mesmo que sejam família...).

3º: O assunto é assim tão importante que mereça o comentário/pergunta?

4º: Preciso de pensar 2 vezes antes de considerar pôr-me "bonita" se me apetecer? Ou tenho de andar o mais "normal" e "natural" possível só porque não estou em algum sítio que "valha o esforço"?

Posso olhar para o espelho e ser vaidosa só porque sim? E não ser alvo de comentários que no fundo só servem para estar a questionar o meu simples gesto?

Sim? Ok. 

Obrigada.