E há dias negros assim.
Um sufoco no peito.
O dia de sol lá fora que não anima nem uma célula do corpo.
A solidão de mais um dia em casa, ao computador, no meio da incerteza que ele ainda me traz.
A seca do que vejo à frente na tela.
As notícias sobre o país que me chegam.
Aquela constante pergunta interior de se o que está noutro país talvez seja melhor do que aqui.
O já ter vivido mil vidas mas parecer que, por fora, regresso à mesma de sempre.
O ter tudo e sentir que ainda não tenho nada.
Aquela sombra que paira a toda a hora sobre mim, intercalada por dias em que, de repente, essa névoa escura se afasta e eu consigo estar leve e sorrir genuinamente.
Aquela ansiedade.
Aquele medo, nem sei eu bem de quê.
Aquela tristeza e vontade de chorar, pontilhada por momentos alegres.
Uma inconstância como eu nunca senti.
Aquela vontade forte de pegar na cabeça e batê-la violentamente na parede (re pe ti da men te) para ver se isto passa.
Aqueles dias em que tudo parece bem e confortável.
Aqueles dias em que nada parece bem e tudo é desconftortável.
E a angústia.
Meu Deus.
Nunca ninguém me tinha falado nela.
Já nem falo em nada especificamente (trabalho, amor, finanças, etc).
É algo que simplesmente um dia se acorda e está lá.
E passa um dia.
Passam 2 ou mais.
E a sensação continua lá.
E tenta-se rir, depois é-se agressiva, depois parva, depois leve, depois seca, depois sarcástica.
E não se acredita mais em nada.
Não há em fé em nada.
Tudo é negro.
Tudo é negro dentro da mente.
Depois saímos e tentamos distrair-nos.
Por vezes conseguimos.
Mas não podemos escapar da nossa mente.
E assim que nos encontramos sozinhas,
A escuridão desce.
Encontra-nos
por muito positivas que queiramos estar.
A vontade de lutar foi-se.
A vontade do que quer que seja foi-se.
Temos de curtir o silêncio.
Toda e qualquer pessoa a falar numa entrevista aborrece.
As redes sociais são mais do mesmo.
Sonhos, menopausa, ambição, finanças, ilustração, CV, como conseguir não sei o quê, relações, ser mulher, etc, etc, etc...
O cansaço mental é brutal.
É real.
Não sei se é isto que é a menopausa, a chegada dela.
Estou-me a borrifar se já não sou fértil. Já fiz o meu "suposto" nesse campo, biologicamente falando.
Se engordar uns kg engordo. Se ganhar umas banhas, ganho. Se ficar com mais rugas, fico. Se ficar com calores, fico. Dá para lidar com isso, diria. Até com aquela névoa mental que às vezes chega, aquele esquecimento do nada.
Mas este negrume mental que às vezes assola... É brutal.
Depois chega o filho mais velho a casa, todo alegre a falar dos ensaios de hoje e da boa vida que anda a ter. Contagia um bocado. Salva um bocado.
Depois penso como deve ser bom sentir novamente que temos todo o tempo do mundo e simplesmente ir andando.
Depois sento-me ao computador e continuo esta seca de sempre que ando a fazer.
Estou tão farta. Não quero fazer isto o resto da vida.
Depois, é hora de ir buscar o mais novo.
A vida não espera por nós.


