(ficção)
EVA
"Entro na sala. Estão todos refastelados no sofá, numa onda de relax de fim de dia. As capas dos sofás estão puxadas, esticadas, cheirosas, bem "arrumadas e entaladas". As cadeiras da mesa no lugar, a jarra no sítio, os papéis arrumados, a roupa para passar já fora dali, o tapete direito. Tudo no seu lugar.
O ar é fresco, fruto de uma nesga de janela aberta a tarde toda para "arejar" e limpar o ar...
... limpar aquele ar de sexo puro e duro, e tão bom, que existira horas antes.
As crianças continuam sentadas inocentemente a ver algo na TV e comentamos qualquer coisa engraçada. Eu acho curioso. Se eles soubessem... Se eles me conhecessem verdadeiramente...
O que será que os nossos pais já fizeram, ou porque passaram que nós nem imaginamos? Aquele ar normal na vida, mas depois... Ou será que há quem só tenha mesmo feito o "suposto"?
Uma vez um antigo namorado meu de há muitos, muitos anos, disse-me que já tinha tido sexo num cemitério. Na altura, inocente, ri-me, achei piada (sabia que quando o tinha feito estava bêbado). Hoje em dia esse local teria surtido outro efeito em mim. Dar alguma "alegria" aos mortos, mas, ao mesmo tempo, desrespeitar um local "sagrado". É quase como ter sexo numa igreja ou templo budista. (onde efetivamente isso já deve ter acontecido milhares de vezes, e com os padres e monges... estamos a falar de seres humanos...e não de criaturas celestiais).
(continuando) E, por momentos, salta-me um sentimento de culpa e de pânico se algum dia soubessem o que se passou ali naquele "lugar sagrado" que é a sala deles, a casa deles. Pergunto-me se algum dia me iriam perdoar, se algum dia iriam perceber. Talvez em adultos o entendessem. Em criança ainda não. Iriam agora ter vergonha de mim? Afastar-se-iam e não me falariam uns tempos?
Tal como chegou esse sentimento, também se vai rapidamente embora. Tal como já me aconteceu antes... não me arrependo, não tenho vergonha. Sou uma mulher acima de tudo. Cumpro com os meus papéis sociais todos, sempre cumpri. Cumpri-os em criança, a "criança sossegada" que não dava trabalho nenhum. (Depois penso: sim, e uma criança que também não arriscou, e que depois foi lendo e crescendo e percebeu que o mundo não é dos que se portam bem...). Mas fui-me tornando numa rapariga, e depois mulher, que lê, que está a par, que é curiosa, que está constantemente a informar-se, que quer abraçar o mundo (por mais difícil e confuso que ele seja).
E depois, vem ao de cima aquele pequeno prazer quase maquiavélico, de sabor a pecado, de saber que é o que tem de ser, de que se fez o que se queria e com quem se queria, porque sim, porque fazia sentido e é bom, porque ali sou uma mulher cheia de desejo e despida de preconceitos a dizer o que penso e quero, o que imagino. Posso confessar ali o que quiser, não serei julgada. E quantas vezes temos isso na vida? Se calhar, nunca.
O mal ali não é se é no sofá ou na sala, ou onde for. O mal é eu sentir que preciso disso. E isso na verdade não é "mal" nenhum. Haja vontade, confiança e "algo" bom e sólido de base.
Que se foda a "moral e os bons costumes".


