segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Fins de semana, glúten, amigos e conhecidos


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Foi num sábado de manhã que a ansiedade veio. Eve tinha dormido bem, muito bem até, sentia-se com o corpo meio amassado o que ajudava sempre a descansar. E, de repente, acordou sobressaltada. Era muito cedo e ainda não havia luz lá fora. Mas o coração dela estava descompassado e levou uns segundos a perceber o porquê. Deviam ser 6h da manhã e a sensação era a de ter acordado depois de um pesadelo. Depois lembrou-se... naquele tempo matinal de sono já não-profundo tinha imaginado/sonhado que daí a umas 2h abria o telemovel e deparava-se com a mensagem que ela não queria mas teria de ler um dia. Uma mensagem que começaria com algo do estilo "Sei que não é fácil ler isto, mas já aconteceu isto e aquilo..., desculpa." Depois tomou consciência: se calhar estava a acontecer agora mesmo, nesse preciso momento. Seria uma promonição? Teria acordado assim repentinamente porque tinha pressentido algo? O coração começou a bater a um ritmo insurdecedor, a ansiedade era grande. Será? Depois tentou respirar fundo e repetiu o mantra "Não stresses nem dês mais importância do que a que tem às coisas que não podes controlar". Eventualmente acalmou, respirou fundo e decidiu não pensar mais. Eventualmente conseguiu voltar a dormitar e descansar mais um bocado antes do dia atarefado que ia ter.

Levantou-se e tentou não pegar no telemóvel. Sabia que ia ficar com o dia estragado se lesse mensagens antes do grande almoço que ia ter, em que tinha de mostrar o seu melhor sorriso e energia. Mas, raciocinou, então o melhor era ler logo para o caso de ter mensagens desagradáveis, assim tinha tempo de mastigar tudo e tentar não pensar muito o resto do dia. "Não quero saber." repetiu. 

O grande almoço de festa foi bom. Os miúdos ficaram numa mesa com outros miúdos e eventualmente o mais velho lá começou a falar sobre a vida com um outro que já tinha entrado na faculdade e lhe ia contando algumas peripécias. Eve e o marido ficaram noutra mesa com outras pessoas que não conheciam. Eve não estava nos seus dias de socialite. Sentia-se ansiosa. Era acarinhada pelo marido e, no entanto, sentia-se triste e algo desconfortável. Ele basicamente salvou a tarde: tinha assunto e falava com todos, o que é sempre bom. Mas como ninguém naquela mesa se conhecia, o mentor da festa lá foi apresentando as pessoas e foi dizendo: olha este é o X e é da área de marketing, este é o Y e é da aviação, etc etc. As primeiras trocas foram sobre em que trabalhavam todos, para encontrarem pontos comuns. Ora claro... nessa altura isso era um assunto sensível para Eve. Ela teria preferido falar sobre que livro andavam a ler, ou hobbies, peripécias de infância, etc... mas parece que isso eram temas que só surgiam quando as pessoas já eram amigas (e vá... é normal falar de trabalho).

Eventualmente, as conversas foram parar aos filhos e o que iam eles seguir ou fazer (os que já tinham 16 ou 19 anos). Estava um casal ao lado de Eve (nem todos na mesa eram casais) muito simpático e elegante. Ele curiosamente tinha uma pancada por parques temáticos e ia todos os anos a Orlando (EUA) uns dias para se divertir por lá (aparentemente há coisas novas todos os anos nos parques). Depois eram os cruzeiros. Falavam lindamente de cruzeiros (nunca digam nunca, mas barcos, navios, etc, nunca tinham sido um must para Eve). E então ela ouviu durante muito tempo quais os melhores cruzeiros a escolher, quais aqueles a evitar, o conselho da praxe de ir em alturas de época baixa (eles tinham um filho com quase 30 anos e já não se prendiam por épocas escolares). Parecia tudo tão fácil e fluido. Lá se falou no assunto favorito da malta no geral: viagens. Falou-se de episódios caricatos, alergias alimentares, etc etc. Ao ir buscar algo para comer (era volante) Eve captou uma conversa sobre glúten e chegou-se a 2 mulheres que falavam nisso. Uma delas era celíaca assim como o filho. Meteu conversa e ficou a falar com ela um bocado. Era sempre um tema valioso.

Algures durante o almoço e numa das vezes em que Eve estava de pé, um homem veio ter com ela. Inicialmente pensou: "Esta cara não me é nada estranha, é familiar. Mas de onde?" E então Eve animou-se! Ele era o assistente de bordo que os ajudara a ver que voos estavam disponíveis na ida e vinda ao Japão. Era o homem que num dia de folga seu lá, se tinha encontrado para jantar com eles e os conhecer. Era super simpático e melhor, era daqueles que falava com Eve e interagia tanto com ela como com o marido (muitas vezes em conversas onde Eve não tinha a mesma área profissional que outros homens, eles mal trocavam palavras com ela, e ela ficava apenas a ouvir ou ia fazer a ronda para outro lado). Este homem lembrava-se de coisas de há 2 anos que tinham falado, e ela idem. Foi um reecontro breve mas muito giro. 

Passadas 2h, Eve e a família rumaram para bem mais longe, para comemorar mais aniversários. Desta vez com alguma família e amigos da família. Desta vez um ambiente mais descontraído com um toddler irrequieto e charmoso que fazia as delicias de todos. Mais uma vez fazer conversa com conhecidos que vemos 1 vez por ano, falar sobre IA, como a usar no trabalho, quais as melhores ferramentas, etc etc. Eve gostou, mas estava mentalmente cansada. Um dia inteiro de fim de semana sem direito a fazer ronha no sofá um bocado não era fim de semana... E depois aquela sensação estranha de ver casais que pareciam super cool, in love e sintonizados - igual a ver beijos apaixonados no cinema. Eve sentia-se sempre tão estranha e triste.

Depois no caminho de regresso a casa à meia-noite: dar boleia a um rapaz conhecido. Era um simpático e espírito livre e lá contara que vivia em Espanha com a namorada (Eve já sabia) depois de uns anos a viver aqui e ali e a fazer coisas diferentes (do estilo: dar aulas a crianças no Peru, etc). Era engenheiro civil de formação e tinha trabalhado uns anos fora onde tinha ganho algum dinheiro e poupado. E o que ganhara investira cá (há uns anos) em 2 ou 3 casas que alugava agora como AL. Vivia das rendas. Eve pensou: "Bolas, isso é que era! Ter um negócio de AL." Às vezes pensava: "Onde é que eu fui tão burra que não pensei bem cedo em ir para algum país trabalhar e ganhar um bom dinheiro para depois regressar e viver bem". Porque raio é que não tinha ido para alguma companhia de aviação como assistente de bordo, etc e tal. Ou fazer trabalhos que ninguém gosta de fazer nos EUA, mas que bem poupado dá para voltar e ter um valente pé de meia? Algo que dê para pensar em futuros negócios, projetos, rendimentos? 

Eve secretamentente culpava os pais pela falta de orientação e aventura. Tinham protegido tanto que deram poucos empurrões para ela se soltar. Umas das palavras-chave da mãe era Medo, do pai era Estabilidade. Aquela filosofia pacata e académica demais. Ninguém se tinha esforçado por lhe abrir os olhos. Agora que os tinha bem mais abertos perguntava-se se era tarde de mais. O país estava o caos, o mundo à beira de uma 3a Guerra Mundial, a sua vida privada era melhor nem pensar muito, e a sua vida profissional era a incógnita perfeita. 

Eve tinha dias com esperança e otimismo. Mas tinha dias em que tudo ia por ali abaixo, onde lutava por se manter à tona para bem da harmonia familiar. Depois olhava para as fotografias tiradas nos almoços e jantares e parecia que nada se passava, que era só animação.

Depois eram os dias de votação, os resultados e os candidatos à 2a volta. E Eve esmorecia com a burrice do seu país...

E depois a semana começava e a luta recomeçava.


(...)

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