terça-feira, 25 de agosto de 2026

A chegada

 

Ele telefona-me.
Vem do norte; está a caminho e chega depois de almoço (tal como tinha previsto no dia anterior) com mais azeite, batatas e cebolas.
(Já não sei o que fazer com tanto azeite... vender? mas gosto sempre de o receber e as batatas e cebolas idem. Que não...)
Telefona e diz que está cá à hora x, se estou em casa e se pode passar aqui e descarregar as coisas antes de ir para casa finalmente. Digo que afinal não vou conseguir estar já em casa, que íamos almoçar fora mas que o restaurante estava inexplicavelmente cheio e só conseguiam ter mais gente a uma hora mais tardia.
A malta tinha ido fazer exercício e estava suada e iam tomar tomar banho, o que demora, e neste caso até dava jeito, para conciliar as horas todas.
Menos com ele.
O tom dele muda...
Leio o pensamento dele: disseste ontem que ias estar em casa e agora estás a borrifar-te para mim, eu que te disse que ia chegar depois de almoço, e agora eu que me lixe, eu que te trazia coisas e me dava jeito dar-tas já agora.
Ele diz: Ai é... ah ok... pois, pois... está bem!
O tom sai ligeiramente irritado.
Eu desculpo-me: Não tenho culpa, isto atrasou tudo e o restaurante, que até costuma estar sempre livre, só tem vagas mais tarde. Mas como estamos de férias não havia problema. E também não há problema com a tua chegada... vai diretamente para casa tratar das tuas coisas e descansar que quando sairmos do restaurante passamos por aí sem problema.
Ele: Vá... (num tom de És sempre a mesma coisa)
Eu tento continuar a falar.
E de repente, não se ouve nada.
A chamada foi desligada.
Cai-me aquela humilhaçãozinha ego adentro, aquela que já senti outras vezes, aquela que por vezes roça o desrespeito, aquela ação que acha que não faz mal ter comigo porque sou quem sou em relação a ele. E no ranking... eu venho em baixo. E principalmente, fiz algo que ele não gostou, que não lhe dava jeito.
E eu a achar que o ajuste de planos não era nada de mais...
Almoço.
Fui para lá calada. Estou com uma nuvem a pairar na minha cabeça. As férias já foram e a realidade começa. Está tudo bem por fora, por dentro sou novamente uma mulher bipolar que tenta justificar-se com as variações hormonais desta fase. Penso mais uma vez que tenho de voltar a tentar correr mais certinho e passar a fazer ginásio a sério ou treinos de força em casa (mas aí falta-me a discipina). Furiosamente tenho de pôr o meu físico em forma e a minha mente saudável.
Continuando.
Tento estar atenta às comversas durante o almoço. Mas incrivelmente agora passa tudo por carros, os que se vêm nas revistas, os clássicos, os modernos, os híbridos, os electricos, os baratos, os caros, os que se teria se houvesse dinheiro total disponível, os que as estrelas por aí têm, os carros que o Rowan Atkinson tem, o facto de ele ter agora uma nova namorada muito mais nova (a crise dos 60, será? sempre ouvi falar mais na crise dos 40 - nos homens -  e dos 50 - nas mulheres (quando decidem que estão fartas de ser fadas do lar a fazer tudo para agradar à família). É-me dito pelo homem mais velho que ele é uma pessoa super interessante e culta. Eu digo que acredito piamente nisso, mas que não seria namorada dele ainda assim (se bem que o dinheiro que ele tem deve ser incrivelmente atraente ahahahaha). Supreso contesta; ele é um homem interessante.
Para ti! Para mim não.
Ele é super culto!!
Sim, o ser culto é um fator que entra no desejo sim e no interesse de uma mulher, mas não vejo ali grande atração física.
Ele é um homem charmoso.
Não para mim. Seria aguém que gostaria de ter no meu círculo de amigos e conhecidos provavelmente, agora se queria ser NAMORADA... isso implica mais coisas, certo? (enfim... não pude ser mais explícita. Há homens super super cultos que sabem tudo e mais alguma coisa, mas isso não quer dizer que os queiramos foder, certo? uma pessoa tem de sentir algo, certo?)
Carro.
Telefono e estou em alta voz.
Digo: Já acabámos de comer...
Começaa responder: Parabéns!...
E completo já a esmorecer e ainda fria depois do telefone desligado na cara: ... e estamos a ir para aí.
Responde: Ok, quando chegares diz que tens de levar o carro para a zona da garagem.
Chegamos e assim acontece. Garagem. Levar as coisas para o carro.
Ele fala com os miúdos. As piadas de sempre, as namoradas, se viram alguma espanhola para ele, que altos, etc:
Depois pergunta como foi a viagem e tal.
Nunca olha para mim.
Às vezes sim, mas é de raspão, parece sempre que sou ali o sidekick, o plus one, a acompanhante. Serei eu assim tão desinteressante? Se calhar sim. Lá está, é como o que escrevi no outro texto: ele já sabe quem eu sou, então não há muito mais a saber.
A conversa continua e eu continuo calada.
Ainda digo qualquer coisa, mas não tem grande eco.
E também não tenho grande vontade de falar.
Oiço.
Sobre várias coisas de converseta que são ditas, mas que não nos meus olhos, nos olhos de outro.
Ele diz que está cansado da viagem e admite que é por isso que preferia ir levar as coisas a minha casa.
Não percebo.
Ele diz que assim não tinha tido o trabalho de tirar as coisas da mala do carro para o chão da garagem.
Continuo sem perceber; desta vez a lógica do pensamento. As coisas não podiam ter ficado no carro dele e depois nós passávamos para o nosso sem ser preciso ele levantar um dedo?
Colocamos as coisas no carro. Não são assim tantas.
Ele despede-se.
Uma palmada nas costas do homem.
Abraços às crianças.
Um encosto de face a mim, nas duas faces. Aquele proform que se faz com as pessoas.
Discretamente uma mão passa na minha cabeça.
Eu sei que é de apoio. Mas desvio.
Não preciso do consolo de ninguém. 
São anos e anos desta relação pouco emocional. Custa, mas já estou batida.
No carro idem. Não afasto, mas não revelo qualquer emoção. 
Já revelei emoções a mais por hoje.
Amanhã é um novo dia.
Siga.

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