Este texto já vai um dia ou dois tarde. Mas vai. Tudo vai a tempo e "tudo vale a pena quando a alma não é pequena" já diz o povo. O Cândido Mota morreu. Esse radialista que era um Senhor. Esse homem que parecia banal de aspecto, mas que bastava abrir a boca para se perceber que era uma mente extraordinária, cheia de vivências e pensamentos cheios. Tinha um tom de voz potente, diferente. Eu gostava muito de o ouvir.
Eu tinha uns 15 ou 16 anos quando comecei a ter o hábito de ouvir música ou rádio à noite. Levava o walkman para a cama, colocava os phones e lá começava eu a minha viagem noturna, a sonhar acordada até me cansar e finalmente adormecer.
Mas havia dias em que queria qualquer coisa diferente. E então comecei a ouvir um programa de rádio com um certo locutor. Acho que o nome do programa era Passageiro da Noite e dava já mais tarde, noite dentro (começava às 00h e eu com aulas no dia a seguir...). Devo ter parado nele por acaso, presa por algum tema específico. E depois fiquei mesmo presa àquilo. Os assuntos eram sempre interessantes, adorava sempre para onde ia a conversa (eram conversas com ouvintes que telefonavam para lá).
Fui-me apaixonando por aquela voz e por aquela experiência de vida. Ele era muito interessante. Explorava qualquer assunto com sabedoria, uma espécie de voz da experiência que eu, com os meus poucos 16 anos, não tinha ainda, mas admirava profundamente.
Comecei a ansiar pela hora do programa, por ouvir aquela voz. Foi uma altura curiosa. Lembro-me que, ao início, nem queria saber como era aquele homem fisicamente (mais tarde lá percebi quem era porque também aparecia na televisão) para manter tudo meio difuso e poder eu imaginar a persona, aquele crush vocal.
Algum tempo mais tarde o programa acabou, infelizmente. (penso que só durou 2 anos e eu cheguei lá apenas nos últimos meses). Mas foi bom, deu-me outra visão sobre um homem adulto (que não me fosse próximo, o meu pai por exemplo), abriu-me horizontes, ajudou-me a mim própria a pensar e entrar num outro mundo de pensamento mais maduro. Foi fascinante.
Long live the king.
Nunca me conheceste, era uma formiga anónima no teu universo, mas tiveste impacto no meu.
So long Cândido,
que Deus ou os deuses, ou as moléculas do universo, ou simplesmente a terra e as plantas te tratem bem.
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