EVA
(ficção)
Agora é a toda hora. Está calor e tira a camisola. Passa o tempo em casa só de calções, postura sempre meia curvada e por isso barriga sempre saliente. Vai, sem ligar muito ao gesto (já é automático), puxando os pêlos aqui e ali que teimam em crescer decontrolada e rapidamente.
Um dia chega e tem de ir a correr para o computador, para acabar algo exigente e que ainda precisa de tempo extra de trabalho. Está calor. Despe a camisola como é hábito ultimamente. Mas despe também as calças. Está muito calor... repete, fazendo o gesto de quem está a suar. Está de cuecas (mas não aqueles shorts giros largos ou boxers justos que tornam os homens mais elegantes) e senta-se à secretária a ultimar umas coisas.
Eva passa por ele e tenta não olhar. Minutos antes, só olhou para a cara dele enquanto falava, e não olha agora para enquanto está sentado ao computador.
Ainda bem que está absorto no trabalho e não consegue olhar para dentro dos pensamentos dela. Não consegue ver o quão aquele gesto de tirar a camisola e andar de tronco nu a toda a hora a irrita. Mexe com os nervos. Bule com todo o sistema dela. Ela própria já nem percebe bem de onde vem tamanha irritação.
Mais não, por favor...
Obriga-se a pensar racionalmente: a casa também é dele e ele tem o direito de andar como quer.
Mas só lhe apetece gritar: Opa, veste-te!!
Algures, antes disso, ele diz-lhe ao vê-la ao computador: "Endireita essas costas, estás um bocado curvada. Não sou só eu que ando curvado afinal... (ela endireita-se automaticamente, aliás fá-lo muitas vezes sozinha ao longo do dia). E ele continua: "Assim ficas toda direitinha, com a postura e o peito direito também..."
E nesse momento Eva quer cortar o peito e ser daquelas mulheres lisas e super desportivas, para ninguém olhar ou comentar.
Mas, é seguir em frente. Há outras preocupações a que tem de se dedicar.