sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O homem de cuecas

 

EVA

(ficção)


Agora é a toda hora. Está calor e tira a camisola. Passa o tempo em casa só de calções, postura sempre meia curvada e por isso barriga sempre saliente. Vai, sem ligar muito ao gesto (já é automático), puxando os pêlos aqui e ali que teimam em crescer decontrolada e rapidamente. 

Um dia chega e tem de ir a correr para o computador, para acabar algo exigente e que ainda precisa de tempo extra de trabalho. Está calor. Despe a camisola como é hábito ultimamente. Mas despe também as calças. Está muito calor... repete, fazendo o gesto de quem está a suar. Está de cuecas (mas não aqueles shorts giros largos ou boxers justos que tornam os homens mais elegantes) e senta-se à secretária a ultimar umas coisas.

Eva passa por ele e tenta não olhar. Minutos antes, só olhou para a cara dele enquanto falava, e não olha agora para enquanto está sentado ao computador. 

Ainda bem que está absorto no trabalho e não consegue olhar para dentro dos pensamentos dela. Não consegue ver o quão aquele gesto de tirar a camisola e andar de tronco nu a toda a hora a irrita. Mexe com os nervos. Bule com todo o sistema dela. Ela própria já nem percebe bem de onde vem tamanha irritação.

Mais não, por favor...

Obriga-se a pensar racionalmente: a casa também é dele e ele tem o direito de andar como quer. 

Mas só lhe apetece gritar: Opa, veste-te!!

Algures, antes disso, ele diz-lhe ao vê-la ao computador: "Endireita essas costas, estás um bocado curvada. Não sou só eu que ando curvado afinal... (ela endireita-se automaticamente, aliás fá-lo muitas vezes sozinha ao longo do dia). E ele continua: "Assim ficas toda direitinha, com a postura e o peito direito também..." 

E nesse momento Eva quer cortar o peito e ser daquelas mulheres lisas e super desportivas, para ninguém olhar ou comentar.

Mas, é seguir em frente. Há outras preocupações a que tem de se dedicar.


 

A mulher das manhãs da escola

 


Durante anos cruzei-me com uma mulher lindissima (mais velha do que eu, diria, mas é melhor não apostar - curvilinea, cabelo preto comprido, olhos verdes bem maquilhados, uma espécie de Monica Bellucci mas de olhos verdes - essa mulher é mais ou menos o meu ícone de beleza) que levava o filho à escola ao mesmo tempo que eu levava os meus. 

Ou nos cruzávamos à ida (eles iam sempre com passo mais rápido e mais à frente) ou à vinda (ainda de manhã) quando ela voltava já da escola. Ela sorria e dizia Bom Dia, eu idem. Nunca trocámos mais palavras do que isto.

Ela parecia ser muito simpática e sorria-me sempre. Por vezes passou-me pela cabeça (aquele feeling que às vezes temos) que ela gostaria de parar e conversar um bocado. Mas a diferença entre nós é que ela descia calmamente algumas ruas a falar descontraidamente com o filho (pelo que soube hoje e já desconfiava, mora ali perto) e eu descia a rua em passo super rápido para ver se os 2 miúdos entravam rapidamente na escola, para eu depois voltar ao carro. Cheguei a ir para o carro a correr literalmente, tal era o stress e pressa, porque tinha mesmo de entrar no trabalho a horas (era super controlada e também queria sair a horas por causa... dos miúdos). Por isso, nunca houve grandes possibilidades de conversa. Nos últimos tempos, eu já não corro para o carro, mas também já não me cruzo tantas vezes com ela porque os meus horários e pressas mudaram ligeiramente...

Hoje tive de ir à escola com os miúdos. 

E, quase ao ir embora, esbarrei com uma pessoa que estava na fila da papelaria. Esse alguém voltou a sorrir-me imenso como se fossemos velhas conhecidas. Sorri também enquanto dentro da minha cabeça pensava furiosamente em que era ela afinal... mãe de quem, etc etc. Depois percebi. E pela primeira vez em anos (sim...ANOS) falámos um pouco. Ela perguntou se estavamos bem, comentou que os miúdos estavam super crescidos, parecia agradada e espantada. Percebi que o filho dela tinha entrado para a mesma área que o meu mais velho, etc. 

E, de repente, disse uma coisa que teve algum impacto em mim e que achei muita piada. Ela parecia refletir na vida quando afirmou o seguinte, ao olhar para eles com curiosidade: "Eles estão mesmo grandes e é muito curioso, olho para eles e lembro-me de quando eram bem mais pequenos e com ar bem novinho. É giro... eu, durante anos, vi-os crescer. Vi-os quase todos os dias, meses, anos a passarem por mim, tenho-os visto crescer ao longe, mas tenho."

Caramba. Que bonito e que profundo. Ela nem nos conhece, nem os conhece. E, no entanto, a passagem do tempo por eles teve algum impacto nela, deixou memória. 

Curiosamente e infelizmente eu não tenho a mesma análise do que ela... Via-a a passar sim, mas mal me lembro do filho dela mais novo. Só me lembro de ir para a escola a correr e sair de lá a correr também. Estava ainda na famosa roda dos ratos, sentia-me completamente assoberbada. O que me saltava sempre à vista eram aqueles olhos incrivelmente bonitos, ainda por cima numa cara super calorosa.

Foi giro o nosso encontro de hoje. Ela perguntou-nos o nome e disse o dela e o do filho. De repente, ela tem um nome o que é estranho. Talvez da próxima vez que nos cruzarmos já comece a surgir um novo tipo de interação menos fugidia.