terça-feira, 9 de junho de 2026

O ajudante

 


Estou com a minha mãe no carro.

Vamos tratar de alguns assuntos dela e aproveito e levo no carro roupa minha para dar. Roupa, mochilas velhas com rodinhas, sapatos velhos. Tudo o que não vou vender. 

Depois dos assuntos tratados, vou lá deixar tudo. O portão grande da instituição está fechado, apenas uma parte dele está aberto. Alguns homens (negros, sobretudo) trabalham ali em qualquer coisa no chão. Algum cano roto, algo. É hora de almoço e um deles está sentado a descansar, mesmo em frente ao sítio onde tenho o carro estacionado (mal, com 4 piscas ligados). 

Saio do carro, olho para ele (ignorá-lo seria má educação na minha opinião, ele está ali mesmo à minha frente e observa os meus gestos), cumprimento-o com um Olá Boa Tarde e sorrio ligeiramente, e levanto o capô traseiro. Começo, muito despachada, a tirar alguns sacos.

Quando me preparo para os levar para a zona de recolha de bens usados, ele levanta-se de repente e diz-me apenas: deixe estar que eu levo. Digo que não é preciso e tal, mas ele já está a caminho. Levamos cada um uns 2 sacos/mochilas. Agradeço e desejo-lhe a continuação de um bom trabalho. Não recebo qualquer resposta de volta (pelo menos não a ouvi), mas não faz mal.

Entro no carro.

A minha mãe está surpreendida. Quem era aquele homem e porque me ajudou a levar os sacos?

Reflito 4 segundos... não sei quem era, e talvez tenha ajudado porque eu não o ignorei. Ele estava ali e eu podia ter passado sem dizer nada. Mas talvez, dado que eu mostrei reparar na existência dele, ele tenha decidido que eu merecia o pequeno gesto dele.

Nunca saberei.

Mas fiquei a pensar depois... será que nos ignoramos assim tanto uns aos outros que já achamos estranho quando alguém nos dirige a palavra apenas para dizer Bom Dia. Será que é assim tão estranho alguém nos querer ajudar com sacos?

Talvez se não andassemos tão de nariz empinado e vissemos quem está à nossa volta o mundo fosse mais suave.

Just saying...


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