Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Beijem lá os avós, miúdos

Meus queridos pimpolhos,

No rescaldo ainda da polémica temática dos beijos aos avós e da violência em obrigar as crianças a tal, etc e tal, criada pelo professor universitário no programa Prós e Contras (ver esta notícia), só tenho isto a dizer:

Que celeuma tão exagerada que se criou em relação a temas que nada têm a ver.

Os avós não são estranhos, ou não deveriam ser. E obrigar, obrigar, nunca ninguém deveria obrigar ninguém a fazer o que não quer. Sejam crianças ou adultos. (Se bem que atire a primeira pedra quem nunca obrigou os seus filhos a comer o vegetal x que sabemos que eles odeiam, mas que nós sabemos que lhes faz bem; quem nunca obrigou o filho a fazer o TPC mesmo sabendo que ele odeia a disciplina y, mas que tem de ser, tem de ser feito...)

Mas separemos as coisas.

Uma coisa são os pais, ou educadores, promoverem algo que é socialmente aceite na nossa cultura, como o cumprimento com beijos. É uma questão social, considerada em Portugal de "boa educação". Não acho anormal encontrarmos alguém e dizermos: "x ou y diz olá à amiga da mãe" ou "dá um beijinho" ou "dá um abracinho", etc. Não o fazemos nós quando encontramos alguém? Não nos foi ensinado a vida toda e aqui estamos? Claro que se a criança fincar pé e disser um rotundo "não" e se mostrar encavacada ou desconfortável, sou a primeira a sorrir e dizer à pessoa rejeitada "pronto, fica para a próxima" ou "está com vergonha, paciência, não faz mal" e passo à frente e relaxo a cria, que não a vou obrigar a beijocar quem não quer. Mas lá está, isso não significa que não promova o cumprimento.

Agora misturar cumprimentos com os afectos dos avós é que me parece que não bate a bota com a perdigota.

Meus filhotes lindos, se um dia eu sentisse que naturalmente vocês detestavam cumprimentar afetuosamente os vossos avós que tanto vos amam e tantos mimos vos dão, ficaria triste. Claro que há avós e avós, e mesmo entre os vossos, naturalmente vocês têm os vossos preferidos. Mas avós não são estranhos (atenção que estou a partir de uma relação normal de avós e netos próximos). Não são pessoas estranhas por quem vocês passam de vez em quando. Falemos assumindo que avós são aqueles segundos pais que tanto vos querem, que mimam mais do que repreendem, que mostram orgulho em tudo o que vocês fazem, que querem o vosso melhor. E, caso um dia o esqueçam, os vossos avós são quem cuida de vocês quando estão doentes, são aqueles cujos braços se abrem e para onde vocês saltam quando os encontramos, são aqueles que vos mimam com guloseimas mais do que nós pais gostaríamos (embora eu feche os olhos muitas vezes, porque de olhos fechados lembro com saudade o tempo em que eu própria - gulosa até dizer chega - chegava a casa dos meus avós, e sem os meus pais verem, estes abriam uma gaveta cheia de chocolates e diziam "vá, tira lá o que quiseres"), são quem vos dá os brinquedos mais incríveis, são os que vos querem ver mais felizes.

Avós "normais" dão beijinhos e abracinhos bons (pessoas rudes e agressivas, ou pessoas frias e até más, existem em todo o lado, mas não estou a falar desses seres). Gostam de nós e não há nada de mal em beijá-los de vez em quando. Ou, vejam só!, dizer que gostamos deles... Essas coisas... Essa é uma intimidade boa, aliás a intimidade é feita para ser boa. E a proximidade cria intimidade salutar. E mesmo que em determinadas ocasiões não os queiramos beijocar (crianças são crianças e todas têm os seus momentos), eles irão saber encaixar. Irão sorrir, fazer festas nas nossas/vossas cabeças e irão pensar ou dizer "fica para a próxima". E a vida irá continuar e eles irão amar os seus netos como sempre.

Já alguém dizia "é no meio que está a virtude". Gente: não exagerem nesta temática, ou noutras do género. Ser razoável, sensível aos outros, e ser equilibrado e não ser radical é o caminho.

Beijinhos aos molhos para todos!!

domingo, 22 de abril de 2018

A Maria

Meus filhotes lindos,

Ando há muito tempo a pensar em adicionar mais um membro à nossa família. Um ser de quatro patas. Ou duas. Um gato, um pouquinho da índia, um coelho... um pássaro? O que acham?
Acho que vos faria lindamente cuidar de um animal, começar a ter este tipo engraçado de responsabilidade. Saber o que é dar atenção e cuidar de um ser.

Mas como do pensar ao executar vai uma grande distância (os que me conhecem sabem o que me custa imaginar um animal o dia todo sozinho em casa) o tempo passa e ainda nada se passa e provavelmente ainda não se passará este ano. O vosso pai e eu temos já muito a acontecer na nossa vida e não nos sentimos ainda preparados para um novo elemento na família, dado que é preciso dar mais de nós ainda.

Pois meus amores, enquanto do alto dos vossos 3 e 7 anos vocês nem se apercebem do quanto penso nestas coisas e no quanto sempre quis ter um animal quando era criança (provavelmente porque me sentia sozinha enquanto filha única), uma coisa engraçada tem-se passado na minha vida. Um pequeno ser tem-se avizinhado volta e meia à nossa janela da cozinha. A Maria, como lhe chama o nosso vizinho. É uma gata adulta, rafeira (estilo Europeu), de rua, linda e meiga. Tem um pêlo sedoso e sobe para a nossa janela para lhe darmos comida. Inicialmente saltava para a nossa janela porque a confundia com a do vizinho do lado (são iguais), mas lentamente comecei a perceber que vinha porque sabia que teria comida se lá fosse ter connosco.

Sempre fui contra quem alimenta gatos de rua. Ter 15 gatos à porta de casa como tinha quando morava com os meus pais, porque uma vizinha se tinha decidido a salva-los a todos, mesmo não estando eles esterilizados, mesmo tendo eles mais ninhadas de gatos a cada ano que passava, mesmo com doenças e xixis  e cocós à porta de casa todos os dias... foi dose. Mas entretanto fui mãe. E de repente, de algum modo - acho que é mesmo isto que acontece quando nos tornamos mães de seres inocentes e pequeninos - os males do mundo tornaram-se os meus. Sempre fui muito carinhosa com animais, mas de repente comecei a olhar para eles de outro modo. Não eram só animais, eram seres, muitos deles um elemento vital de muitas famílias. Compreendia agora o desespero dos donos quando os animais fogem, se perdem ou os roubam.

Mas falava eu da Maria. Embora quisesse alguma distância dela ao início, a verdade é que um dia comprei-lhe ração no supermercado. Foi este inverno. Estava muito frio e pensava onde estaria ela. Se estaria na casa do vizinho quentinha, ou na casa de alguém que também gostasse dela. Pensei naquele pêlo macio, se lhe daria o conforto e calor naquele frio terrível que se fez sentir há poucos meses. E embora achasse que ainda não me sentia preparada para a deixar entrar em casa (não sei se tem doenças, se já passou pelo veterinário, etc etc, e o medo de comprometer a saúde de todos cá em casa travou-me) um dia pensei que pelo menos se estivesse bem alimentada talvez combatesse melhor o frio. E talvez um dia, num daqueles dias em que esteve mesmo mas mesmo frio, se a tivesse visto nessa altura talvez a tivesse deixado entrar...

Não sei. Mas fico mesmo contente quando a Maria aparece para nos visitar. Mal me vê aproxima-se com o seu ar misterioso e independente, e começa a miar. E lá vou eu buscar mais um bocadinho de ração, lá vou eu apagar aquela fome. Se ela vos vê, meus rapazolas, (ou até ao T.), retrai-se, foge logo. A vossa barulheira e excitação não deve suscitar muita confiança nela. Mas se estou só eu ela deixa-me fazer festinhas. Às vezes imagino-a connosco no sofá, aninhada, nós a fazermos-lhe festas (o vosso pai vem de uma família que sempre teve vários gatos,  2 ou 3 de cada vez!!), ela a derreter-se. Sempre adorei o conceito de ter um animal a dormir em cima da minha cama, por exemplo (que se lixe os que não acham higiénico).

A minha sogra, grande defensora dos animais, principalmente dos gatos, ficou deliciada com a "nossa" gatinha. E disse-me uma coisa curiosa. Que os gatos vêm sempre curar algo nos donos. Lêem algo neles e vêm curar alguma dor ou alguma falha na nossa vida. Não sei o que veio ela colmatar aqui. Mas cada vez mais penso que há algum animal à minha espera nesta vida (não é ela, é demasiado independente nesta altura, parece-me). Um ser peludo e fofinho, porque sei que ainda tenho muita meiguice para dar (e receber).

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A animação do meu coração

Não é segredo nenhum para quem conhece bem a nossa família que sempre que o P. dorme a sesta a seguir ao almoço, aproveitamos todos para relaxar e ver um filme. Como o nós inclui um miúdo de 7 anos ficámos há muito confinados a filmes infantis e dobrados em português.
Inicialmente foi uma rotina que custou a entrar. Não pelo momento de relax em si obviamente, mas pelo adeus aos filmes de gente adulta que sempre preguiçosamente gostámos de ver ao fim de semana, especialmente em dias chuvosos.

Mas o que se estranha logo se entranha, nao é o que dizem? E entranhou. Por causa dos miúdos descobri todo um mundo de animação (e os filmes de animação atuais são qualquer coisa de fabulástica, acreditem), recente e antigo, que desconhecia. De entre eles posso agora afirmar que estão lá alguns dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Se quem me está ler tiver uma pequena costela cinéfila, entenderá o que quero dizer.

Aqui há umas semanas falava de filmes de animação com colegas meus. Todos me pareceram algo benevolentes e pouco interessados, como se fossem "apenas" filmes para crianças. Sim, devem ser giros, mas não iremos perder tempo a vê-los.
Para quem me está a ler: por favor vejam filmes para crianças. Hoje em dia há produções simplesmente incríveis, com histórias de moral irrepreensível. Com histórias de amor, amizade, entreajuda, lealdade, coragem, medo, humor... todos os ingredientes de vidas em cheio que nos inspiram na nossa vida real. Que nos fazem acreditar num mundo melhor.

Quem nunca encheu o peito de admiração pela coragem e redenção da Brave, onde no fundo só nos querem mostrar que a família é tudo na vida? onde se mostra que o perdão e o arrependimento move montanhas. Onde se mostra que não nos devemos vergar a tudo o que os outros querem de nós, mas onde devemos respeitar esses mesmo outros?

Que se acuse quem nunca rebolou a rir com as imagens iniciais do The Secret Life of Pets, onde com um humor e imaginação incríveis os autores do filme nos mostram o que fazem os animais domésticos depois de fecharmos a porta para ir trabalhar? Quem não ficou comovido pela lição de amizade e inclusão que o filme nos mostra? Quem não deseja passar isso aos seus filhos, sobrinhos, amigos? Quem não desejou que o mundo fosse assim tão aventureiro e justo como quando a história chega ao fim?

E o The Incredibles? aquela família fabulosa cheia de clichés, mas que quando a coisa aperta movem montanhas para se protegerem uns aos outros? Qual o pai ou a mãe que não se deliciou com as imagens subtis (e outras nem tanto) do bebé da família, dos seus pequenos gestos, do seu chuchar da chucha? quem não pensou: Meu Deus! eles apanharam tão bem isto!! é que é mesmo assim! (eu quase ficava de lágrima no olho quando revia aqueles movimentos de bebé que são tão iguais aos bebés reais!!).

Ah sim... todos estes filmes de que falo, já os vi várias vezes. Mesmo. É o que dá ter miúdos em casa. Eles gostam de os ver incessantemente. Deve ser para memorizar bem tudo.
A lista é infindável, mas vou só falar de mais um: How to Train Your Dragon - onde nos mostram que devemos seguir os nossos instintos, onde nem tudo o que é parece, onde devemos ser nós mesmos apesar do que os outros nos instilam, onde nos mostram que podemos errar e admitir que erramos, onde percebemos que há amizades improváveis que se proporcionam mesmo assim.

Que bom é viver uma grande aventura (e sem sair do sofá ahaha) :)

Ah esperem. Não me despeço sem falar da saga Gru e Mínimos. 
Já viram os filmes? já riram e choraram com eles? se não o fizeram são de pedra certamente.
Cá em casa ultimamente andamos no Gru - O Maldisposto 3. Incessantemente. Mesmo. Nos últimos fins-de-semana já o vi seguramente umas 10 vezes. Já o vi 2 vezes seguidas (acreditem se quiserem, mas com 2 almas a pedincharem como se não houvesse amanhã às vezes é melhor ceder e ter alguma paz durante mais um bocado). E caramba... que filme tão giro! Que pormenores, que história. Sim fala sobre a família, sobre irmãos, sobre ser mãe (porque é mãe quem cuida e não apenas quem dá à luz), sobre inseguranças e medos... 

Mas ainda por cima este belo filme traz à tona recordações fenomenais para quem é da geração de finais dos anos 70 e anos 80. Quem não rebolou a rir com o mauzão da fita a fazer todos os seus moves à la Michael Jackson (que bela homenagem eu diria, ele ficaria orgulhoso)? Quem não delirou com os famosos acordes dos Dire Straits com o seu Money for Nothing? Quem não foi ouvir de novo todas aquelas músicas, quem não revisitou a sua infância ou adolescência ali mesmo? 

Quem não vibrou com todos os detalhes do filme? Provavelmente (mesmo) mais os adultos do que as crianças, acreditem. Aquilo é lindo! Puro entretenimento cheio de qualidade. Tão bom como ver  o melhor clássico com os melhores actores de carne e osso.

Vá malta, não suspirem de aborrecimento, complacência e obrigação da próxima vez que os vossos filhos, netos, sobrinhos, afilhados, filhos de amigos, enteados, o que for, vos arrastarem para um cinema de animação (seja em casa ou no cinema). Gozem o filme. Aproveitem a mensagem que vos passam. Divirtam-se, riam e chorem com as personagens. Tentem que os mais pequenos absorvam a mensagem implícita (ela existe SEMPRE), pensem vocês mesmos nessas mensagens. Pensem como a vida pode ser por vezes injusta, mas como se pode (quase) sempre dar a volta, como a vida pode ser bela, como podemos ter pequenos grandes actos com aqueles que nos rodeiam. Pensem na vida simplesmente. E divirtam-se :)


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

As Asneiras (Conversas com o M.)

Enquanto estamos os dois na cama, na onda quotidiana dos mimos antes de eu sair do quarto dele:

- Mãe...
- Diz...
- Sabes... há meninos lá na escola que dizem asneiras.
- Ai é? que tipo de asneiras?
- Das feias...
- E tu também dizes?
- Não... Mas sabes, há meninos que dizem uma asneira mesmo muito má.
- Qual?
- Não te posso dizer, é feio...
- Diz sim. À mamã podes dizer o que for. Eu já conheço todas as asneiras do mundo.
- Todas??
- Sim, sim.
- É esta asneira: imagina que eu digo Pata Peta Pita Pota, e depois é Puto no feminino.
(contenho-me para não desatar a rir com o modo de ele contar e se safar ao mesmo tempo ahahahahahaha)
- Ui! Essa é mesmo feia... Nunca digas isso a ninguém, está bem? é mesmo mesmo feia.
- Pois é...

terça-feira, 17 de maio de 2016

E já está!

É oficial.
20 meses de P.
Desde há 1 semana que já consegue abrir portas e já não há sossego.
Cancelas instaladas logo no dia a seguir lol

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O senhor Fernando

O senhor Fernando, chamemos-lhe assim, trabalha aqui mesmo ao lado há uns 4 meses. Cabelo todo branco, simpático, calmo, atento ao que se passa à sua volta. Precisa de tirar os óculos para ler coisas no telemóvel, tem alergias, escreve no seu computador com a cabeça quase colada a este, é culto e cordial. Passado uns tempos da sua vinda, fiquei a saber que lhe tinha morrida a esposa (!).
E... pasmem-se, só tinha passado 1 mês desde essa fatalidade.
Fiquei surpresa e admirada pela sua presença de espírito: decidido a não ficar em casa deprimido, veio trabalhar para aqui, ao pé de nós. Não está cá todos os dias, mas quando está, dá gosto. Faz-me alguma companhia e pelos vistos eu a ele. Sempre que me apanha sozinha lá vão 2 ou 3 dedos de conversa. Conversas simples sobre coisas simples.
Aqui há tempos disse-me "Sabe...desculpe estar a interrompê-la... mas sabe... humm... faz hoje 3 meses que a minha esposa faleceu...". Gaguejei enternecida. O que dizer face a isto? O que dizer a um homem mais velho, com bem mais experiência de vida do que eu (que fujo da ideia da Morte como do Diabo) e cujo amor desapareceu há tão pouco tempo? Sou péssima nestas coisas. Mesmo. Na altura o que me saiu foi um "Lamento..." meio triste meio não sei bem o que dizer, alguém me acuda. E fui sincera "Não sei o que lhe hei de dizer...desculpe." E ele respondeu-me uma coisa tão verdadeira... "Não faz mal. Já está a ouvir e isso é bom."
Apeteceu-me abraçá-lo e dizer aqueles clichés de que tudo vai melhorar. Mas nem tenho à vontade para isso, nem queria vê-lo a chorar (bem sei o poder de uma mão no ombro ou de um abraço quando estamos vulneráveis). E... que sei eu sobre isso? Eu que me fechei sempre em copas quando os meus avós morreram, que não consigo lidar nada bem com a Morte. Eu que FELIZMENTE ainda tenho pais, tenho o meu companheiro comigo, tenho os meus lindos filhos, tenho os amigos todos vivos. Todos de boa saúde.
Ontem, sozinhos, voltou a virar-se para mim. "Sabe, a minha esposa faleceu faz hoje 4 meses."
O meu coração ficou mais uma vez pequenino e bateu com força. Que digo agora? Pergunto se está a custar muito? Claro que sim. Óbvio. Sei que está sozinho em casa, tem o filho e o neto longe.
Resolvi então encher-me de coragem e perguntei-lhe de que tinha falecido a esposa. Foi o melhor que fiz. Falou sobre os problemas de saúde dela, que já vinham de nascença e que com a idade tinham deteriorado o corpo. Mostrou-me a fotografia de uma linda senhora, elegante e composta. Falou-me dela. Falou-me do filho. Vi fotografias do neto. Partilhou mais um bocadinho da sua vida. Não partilhei a minha, aquele momento era dele.
Em jeito de conclusão disse-me "Enfim... é assim a vida". Respondi algo como "É como se diz por aí... o melhor é aproveitarmos todos os bocados bons do dia a dia, não é?". "É isso mesmo" respondeu-me pensativo. "É isso mesmo."
Quando mais tarde saíamos do escritório, não soube bem o que lhe dizer . Tenha o resto de um bom dia? Eu sabia que ele estava a ter um mau dia, um dia triste. Então disse-lhe uma coisa um bocado parva. "Até amanhã... Sr. Fernado...humm... lamento... os meus sentimentos." como se a esposa tivesse acabado de falecer.
Sei lá. Continuo, nos meus quase 40 anos, sem saber bem o que se diz a alguém que perdeu quem ama. Que frase tão idiota. Desculpe-me Sr. Fernando. Cá nos vemos amanhã.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O dia em que me ia matando!

Pois é verdade. É verdade que os pais fazem tudo pelos filhos e embora o título disto seja um bocado dramático em relação à simplicidade da história :P foi assim que eu me senti na altura.

Ora bem. É preciso dizer que em minha casa ainda não há cancelas nas escadas para proteger a criançada. É algo que está na lista do to-do mas que ainda não do nada... Primeiro porque o raio das escadas são suis generis e porque até agora não houve muita urgência (o M. já é um miúdo crescido e pode descer e subir as escadas quando bem lhe apetece sem que fiquemos apreensivos), e, segundo, porque o P. sempre que vai para o piso superior tem-nos a nós colados, e porque ainda não há o risco de ele sair do quarto a meio da noite (ainda dorme no berço com grades).

Ora bem. Estava eu e o resto da famelga,  numa bela manhã, no piso superior da nossa casa, depois de biberão do P. tomado na cama, etc e tal, quando, depois de vestirmos o pikeno, começamos a ir para baixo. O macho adulto da casa foi antes ao nosso quarto buscar qualquer coisa e os miúdos seguiram-no. Tudo controlado. Ou pelo menos assim achava eu. A fêmea adulta da casa ficou literalmente 2 segundos para trás, no outro quarto a arrumar algumas roupas, quando vê a pulga pequena, repentinamente, fazer um desvio e dirigir-se às escadas. O desvio foi tão rápido que lhe ia dando uma coisita má... Só eram precisos uns 6 passos dele e estava à beira da escada e a olhar para o precipício. Ela dá um berro (um som estranho, mistura de grito assustado, a chamar pelo pai, com som de mãe-galinha boc!), e só tem o instinto de correr (eu diria literalmente amandar-se para fora da porta, assim tipo à guarda-redes) e tentar alcançar a cria antes que esta se estampasse escadas a baixo.
A cria, talvez por causa do grito, pára e olha para trás. O macho alfa da casa, que de repente já estava ali ao lado, pega nela rapidamente, e a mãe-galinha cai para o chão a soluçar, mix de imaginar o que podia ter sido com uma dor horrível no braço e no pé (pensei que tinha partido os dedos!!). Tinha batido com força na ombreira da porta durante o "processo de salvamento".
Jesus... que dores! Até tremia.

Conclusão: um braço com uma nódoa negra do tamanho do mundo, bem pisada e gira. E um dos dedos do pé todo negro (agora já está meio rosa/violeta). A coisa boa: acho que não parti nada. E a coisa melhor ainda? foi apenas um susto e a cria lá continuou a sua vida.
Mas a coisa mesmo mesmo boa? Foi ver a reacção do M. Ficou ali o tempo todo comigo sentado no chão, à espera que a coisa melhorasse (sim, deitei umas lagrimitas) e a perguntar se ainda doía. O meu filhote esteve ali ao meu lado, foi solidário, caneco! E isso fez com que eu rebentasse de orgulho. O meu miúdo é mesmo bom rapaz!

Que diferença. Aqui há 1 ano ou 2 ele continuaria na dele a brincar, sem ligar nenhuma, sem noção das dores dos outros. Está mesmo crescido. Ele não podia fazer nada, mas ficou solidário. Fiquei muito feliz pela atitude. Fiquei a imaginar se fosse um colega que se tivesse aleijado a sério. Provavelmente ele também ficaria ali a dar-lhe apoio ou então iria chamar alguém.


Conclusão: nas coisas menos boas podemos sempre ter momentos bons.

Ah! e conselho: não deixem de fazer hoje o que podem fazer amanhã. Isto é mais para moi même que nunca mais me aplico a ver uma solução para o raio das cancelas... Já estou a ver o P., daqui a uns tempos, já sem estar no berço, à noite a levantar-se e a resolver ir passear...
Cancela!! Cancela!! Temos de ir ver da cancela!


P. - 19 meses
M. - 5 anos (quase quase 6)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

E quem não se lembra desta saga...

... na TV, aqui há uns anos? http://www.eonline.com/news/702674/o-j-simpson-was-found-not-guilty-of-murder-20-years-ago-here-s-where-the-major-o-j-trial-players-are-now

Lembro-me bem de chegar a casa depois das aulas, ligar a CNN e seguir o julgamento (que dava em directo diariamente durante horas). Agora segue-se a série! Can't wait! É agora que vou saber os podres por dentro do julgamento (e com um elenco de luxo!). http://www.imdb.com/title/tt2788432/?ref_=ttmd_md_nm




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

"Ah não se preocupe que isso é muito comum nas crianças"

Ah! pois é... mas porque raio é que o meu filho tem de ser assim tão comum??

Ora bem... depois de otites e viroses...ora eis que o meu pequenino na 2ª feira (que passou em casa com o pai numa de férias) esteve aos pinotes o dia todo e, mal chego, pego-o ao colo e, depois, ao pousá-lo no chão, começa a choramingar, levanta a perna e quer colo.
- T. passa-se alguma coisa com ele? parece não estar bem...
- Não, esteve óptimo o dia todo. Porquê?
- Parece que lhe dói algo, não sei... algo não me parece bem.
- Está óptimo! Esteve bem durante o dia.
Colo para aqui, beijo para ali e volta a ir para o chão. Perna para cima, quer colo.
Ora bem... não queria mesmo pousar a perna no chão, doía-lhe algo.
Aiiii vida... mas o que é que ele tem agora... pensei. Bolas que não temos descanso.
E fiquei aflita... o meu bebé tinha algo na perna e fiquei a pensar se teria sido eu a provocar-lhe o mau jeito ao pousá-lo no chão. Que dor no peito... (coração de mãe não tem descanso mesmo).
Lá fomos para o hospital (belo início de feriado, ahn?). Lá dentro vá lá deram-me a pulseira amarela e a coisa em 45 minutos estava vista. Depois seguiu-se raio-X e ortopedista.
Veredicto: http://www.paisefilhos.pt/index.php/saude/saude/7295-sinovite-transitoria-da-anca
Tratamento: descanso e brufen.
E...
Não é que no dia a seguir de manhã estava todo contente e catita, a andar e a mexer-se cheio de pinta?! Foi o tempo de dar um brufen na noite anterior e dormir. Ou foi só um mau jeito ou então aquilo curou rápido!
Cá para mim aquela inflamação foi causada pelo vírus da vacina Bexero (que tinha dado 3 dias antes). A pediatra disse que não devia ter nada a ver. Eu acho que sim dado que não tinha tido nenhuma outra virose nessa semana.
E o descanso foi 1 dia apenas e hoje já foi para a escola.
A ver se isto agora se compõe e deixo de visitar o hospital e a pediatra 1x por semana :P

P. com 16 meses.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

E assim um mix de coisas

Ora bem, vejamos assim umas coisas soltas:

- No outro dia o M. dizia-me: mamã, vamos dizer palavras começadas por "O". Porque será que a primeira palavra que me apareceu no pensamento foi "otite"?!...

- Estou pró em antibióticos... Até um tal de Ceclor já foi dado por aqui (coisa que não aconteceu com o M.). O 7º mês do P. vai ser passado por inteiro a tomar antibióticos. Tomou o seu primeiro aos 6 meses. Fez 7 e tomou logo outro que não fez grande efeito e volta a tomar outro quase seguido. Iupiiii.... (quem sai aos seus não degenera né? neste caso sai ao irmão)

- Estou loira. Depois de uma ida normal ao cabeleireiro para fazer umas madeixas mais claras, eis que a senhora (não sei por alma de quem) erra na cor ou no tempo a mais - nunca percebi bem o que aconteceu - e foi a primeira vez que ao me tirarem a toalha da cabeça disse: "mas isto não é normal... isto não pode ficar assim!!!!!!". E tinha o cabelo quase branco de tão loiro... E mesmo assim apressaram-se a dar-lhe um banho de cor mais escura. E mesmo assim, apesar de ter escurecido um poucochinho, ficou... loiro na mesma. Tenho madeixas tão fininhas e tantas que no geral é como se estivesse loira. Ainda não me habituei. Andava com o cabelo demasiado escuro e foi um choque. Mas decidi que vou aguentar a cor mais uns tempos, só pela experiência. Até pode ser que goste. Depois qualquer dia arrisco à séria e fico ruiva! yeahhh

- O M. tem uma nova namorada. Mas desta vez é "à séria" (a expressão favorita dele). A anterior desconfio que nem sabia que era namorada dele (e era de outra turma). Mas esta, a C., é uma fofa de quem ele fala constantemente. Andam de mãos dadas na fila para a sala deles, brincam imenso, e ambos decidiram que são namorados. Mas ela já disse que na escola não se podem dar beijinhos na boca (lol)... medo... Ainda bem que por agora não se podem encontrar sozinhos em mais lado nenhum... O M. até já me perguntou se quando eles se casarem também podem ter um bolo com umas "estátuas".

.............. (fui ali rebolar-me a rir e já voltei)...................

Quem diria que eu seria destronada tão rapidamente?
Quer dizer, bem sei que um dia serei apenas a mãe e não a mulher da vida dos meus filhos. Mas caramba... ainda nem fez 5 anos e já anda nisto?... Ai. Mau, mau maria!

- Acho o M. um génio do desenho. Caramba, que atenção ao pormenor. Já me desenhou a Maléfica e tudo. E o melhor é que se vê logo quem é!!! O meu filho é um génio!!!

- O P. é que anda com um bom andamento, anda. Tem 7 meses e já põe o irmão a chorar ao puxar-lhe os cabelos. Chorar é um exagero claro. Mas se isto é assim agora, nem sei como vai ser daqui a uns tempos. Mas bolas... o rapazito é um bruto, já ficou várias vezes com tufos de cabelo meu nas mãos. E aqui há dias ia-me cegando com as suas unhacas afiadas. Pensei que ia ficar sem um olho. No dia a seguir tinha uma pequena crosta por baixo do olho :O
O que vale é que faz o mesmo a ele próprio... volta e meia é uma versão infantil do Scarface. Faz aos outros aquilo que fazes a ti próprio :)

- Ando furiosa e com pensamentos bem maquiavélicos em relação aos pilotos da TAP. Aqui entre nós que ninguém nos ouve - era fuzilá-los a todos (os que fazem a greve claro). Ainda têm a lata de vir dizer que estão a defender os direitos dos trabalhadores da empresa. Naquelas mentes gananciosas e oportunistas devem achar que são os únicos trabalhadores. Só pode. Se afundarem a empresa e, por consequência a minha família, depois quero ver onde anda a solidariedade entre "colegas". Se calhar vou pedir-lhes mensalmente o salário que o sindicato lhes dá mesmo nos dias em que fazem greve.

- Depois de 2 semanas a penar com uma dor de dentes que não se percebia de onde vinha, lá me esburacaram um dente. Hummm como eu gosto de agulhas na gengiva e brocas nos dentes. Maravilha! Depois, ainda mal conseguia falar, fui a uma loja onde tinha de trocar uma prenda. A certa altura a empregada comenta para a outra: Olha lá, tu foste ao dentista? cheira a dentista!
A outra: não fui não.
A primeira: epa... é que parece mesmo, cheira imenso!
Eu: bom... eu fui. Saí de lá agora mesmo.
Nunca vi alguém a corar tanto e a desculpar-se tanto ahahahahaha Já percebi que para a próxima o melhor é ir logo para casa...

- Tenho uma amiga de longa data que está grávida. Ao fim de imenso tempo a tentar. Ao fim de muita muita vontade de ter um bebé. Ao fim de muito silêncio e distância sobre o problema de não estar a conseguir. Pois conseguiu!! e fiquei tão contente que até deitei uma lagrimita!
Se todas as minha amigas que andam a tentar ter filhos o conseguissem eu seria uma mulher infinitamente feliz.

- Estou pronta para começar a ter uma dieta mais saudável. Pronta para deixar de comer chocolates todos os dias. Pronta para fazer um esforço e comer fruta e verduras livres de químicos.

- Ainda me ando a perguntar se tenho coragem de no verão andar de biquini. Acho que sim. Vou ignorar a minha barriguinha. Quero lá saber. (pode ser que até lá melhore.)

- O M. está quase a fazer 5 anos. Eu nem acredito!! É um miúdo muito doce, giraço e espevitado que me diz coisas como "mamã linda" e "gosto de ti até ao fim do universo" e que está constantemente a fazer-me desenhos (bom... a mim e à sua amada professora). Ainda me espanto quando estou a falar com ele e o rapaz faz um raciocínio bem pensado sobre qualquer coisa. Como é que isto aconteceu? ainda agora era um bebé (como o P.) que não sabia de que terra era!

- O P. está um boneco lindo! Tem uns olhos grandes e fabulosos. Deve sair meio aloirado tal como o M. e está numa fase em que fica rabugento quando não consegue agarrar o brinquedo que quer. É bem disposto e sorridente, tem uma força do caneco (!), ainda não adora estar sentado mas lá se aguenta uns segundos. O sorriso dele quando o vou buscar à escola ilumina o meu dia. É tão fofo, mas tão fofo que só me apetece beijocá-lo a toda a hora (sorry M.).

Depois continuo isto. Ou não. Agora estou com sono e ainda não jantei.


terça-feira, 15 de julho de 2014

Momentos

No carro:

- Mãe, quero ter um cãozinho.
- Ah... queres?... pois... são giros não é?
- São, gostava muito de ter um. Assim pequenino.
- ... Humm... pode ser que um dia... agora não...
- Mas eu queria.
- Mas já viste que agora vamos ter um maninho. Já vamos ter de cuidar dele, e olha que ele dá muito trabalho.
- Mas fazemos assim: tu cuidas do maninho e eu cuido do cãozinho.

E pronto, solução rápida e lógica :)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A "vida perdida"

O que fazer quando perdemos a nossa vida numa mala? O que fazemos quando nessa mala está toda a nossa identidade: chaves de casa e carro, comando de garagem, carteira com todo o tipo de documentos (cartão de cidadão, carta de condução, cartões do banco, etc etc, ), telemóveis com fotos e vídeos... TUDO.
O que sentimos enquanto vamos ao local da mala perdida e (obviamente) não está lá nada? O que sentimos quando estamos na polícia a dar parte da nossa "vida perdida"? O que sentimos enquanto telefonamos para o banco a cancelar cartões? O que sentimos quando de repente pensamos que a nossa identidade pode literalmente ser roubada e usada por alguém com intenções menos boas?
Pânico meu caros. Medo. O corpo a gelar. Vemos a nossa vida a andar para trás. Pensamos "Nãooooooo... se eu ao menos tivesse parado para confirmar se tinha tudo comigo..."
Quem tem uma mala tem tudo - e quem tem tudo, tudo pode perder, porque qualquer um pode aceder a tudo na nossa vida. Não me lembro de um dia tão pavoroso como este domingo...
 
Mas... também não me lembro de uma tão grande sensação de alívio quando o nosso antigo vizinho nos telefona passadas umas (extenuantes) horas :D Parece que um senhor passou pelo antigo prédio (morada ainda antiga em alguns documentos) e teve a gentileza (humanidade, solidariedade, honestidade? essas coisas todas também serviam) de ir lá entregar a mala - que não entregou ao meu vizinho por ter medo e por achar que com ele (o próprio) as coisas estavam mais seguras. Eu que achava que já não se fazem pessoas destas... afinal estava errada!! E ainda bem! Só me apetecia dar um beijo ao homem e gritar: salvaste-me a vida!!!
 
Depois deste final feliz (ou quase, o meu telemóvel cheio de contactos, fotos e vídeos - que não tinha arquivado - foi mesmo roubado)... e para tornar o fim de semana mais saboroso... no final do dia percebi que tinha um prego gigante espetado numa roda do meu carro...
 
Há dias...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Era uma vez uma chucha

Era uma vez um menino de 3 anos, quase, quase 4, que gostava muito da sua chucha. Não conhecia outra coisa desde que nascera, e o afeto e dependência sobre tal objeto eram verdadeiramente ternurentos. Com o tempo, e também porque via os meninos da sua turma a desprenderem-se das suas chuchas, o menino começou a abdicar da sua "amada" durante as brincadeiras; depois durante as brincadeiras e as sestas; depois durante o dia quase inteiro. Na escola.
Mas em casa o apego continuava mais "apegado". Não a dispensava nas sestas, na sua cama querida, e muito menos à noite, onde nem era preciso dizer que mimo = chucha + colo + beijinhos + histórias (por aí e sem ser por esta ordem).

Um dia os pais do menino descobriram a existência, algures por aí neste mundo, de uma "fada das chuchas". Até então desconheciam tal ser, mas uma amiga confidenciou-lhes que esta existia e que em troca das chuchas das crianças, dava prendas escolhidas por elas. O sucesso da fada era garantido.
A mãe pôs o menino a par disso. Inicialmente a fada não o convenceu. Por muita conversa que lhe desse, ele não gostava dessas fadas, aliás, nem existiam na opinião dele e não a queria na casa dele. A mãe não insistiu, mas passados uns dias voltou a mencioná-la e desta vez o rapaz não pareceu tão avesso à ideia da fada - especialmente quando questionado sobre que presente gostaria que a fada lhe trouxesse. A lista de presentes nunca era consistente e a mãe voltou a não insistir. Tinha de perceber qual o presente que ele queria MESMO. E um dia ele deu-lhe a resposta mágica: "quero o boneco do tree fu tom, era mesmo o que eu queria". Ela nem queria acreditar - esse era o boneco que ela já havia comprado (aproveitando uma bela promoção) e que estava há meses guardado, à espera do aniversário do menino. E desta vez a resposta era consistente passados 2 dias. Aí ela montou a sua estratégia de ataque e conquista, e prometeu que se ele quisesse mesmo o boneco, ela falaria com a fada. Mas já sabia: a prenda só era dada quando os meninos entregavam as suas chuchas à fada, para ela as reciclar e dar novas chuchinhas aos bebés. Era uma decisão muito importante. E dado que o menino já só tinha uma chucha (e a ficar cada vez mais estragada, segundo a mãe) tinha mesmo de pensar bem, porque uma vez entregue não haveria mais tal objeto nas sestas, nem à noite. Não dava para voltar atrás. O menino tinha de ter mesmo a certeza.

Uns dias depois, a mãe perguntou ao filho se ele sempre queria dar a chucha à fada. Ele respondeu que sim. Mas ela tinha algum receio que ele não entendesse bem a seriedade da coisa e no fundo, temia a tristeza e choro do petiz quando este se apercebesse que depois já não haveria volta a dar. No entanto, avançou e nessa noite os pais foram com o menino à janela da cozinha e deixaram-na do lado de fora, para que a fada a pudesse ir buscar durante a noite. Segundo a "lenda", no dia seguinte de manhã, lá estaria a prenda desejada e a chuchinha levada.

Logo depois o menino foi-se deitar, e mesmo afirmando categoricamente a toda a hora que não tinha sono, nunca pediu a chucha. Demorou muito a adormecer. Sem a sua ajuda extra e emocional para relaxar e se deixar amolecer, o colo foi mais agitado, a conversa não parava e o processo de adormecer foi mais complicado. Mas adormeceu e nunca acordou durante a noite a pedir a sua chucha perdida (que era o que os pais temiam que acontecesse).

Nesse momento a sua mãe compreendeu que ele tinha de facto interiorizado que a chucha não voltava, que era a última vez que a usava, e que a partir daí seria oficialmente um "crescido" (com direito a prenda e tudo). Nesse momento, a mãe, que andava tão absorvida a ajudar o filho a crescer e a ultrapassar um marco na sua vida (a chucha foi o objeto mais importante na vida dele, sem dúvida) percebeu que ele não era mais um bebé. O seu filhote lindo era já um rapazinho que entendia as consequência de um ato simples mas muito importante na sua vida. De repente, não iria mais tê-lo nos braços, com aquele barulho tão característico do movimento das chuchas, a amolecer, e portar-se ainda como um bébé aninhado ao colo. Daí em diante o deitar seria mais irrequieto, mais conversador, menos descansado, porque não havia aquele elemento pacificador, que amolecia quase instantaneamente o filho.

A mãe sempre conhecera o seu filho de chucha e quando, nessa noite, de repente o viu sem ela "para sempre", uma melancolia profunda abateu-se sobre ela. Tinha acabado. Tinha acabado uma Era. Uma Era muito doce. A Era do Bébé que ela sempre tinha adorado. Ele era, seria (e sempre será) "o seu bébé"; mas já não era "um bébé".

Parte do seu coração inchou de orgulho pela conquista e pelo passo independente do filho, mas a outra parte sangrou implacavelmente. De repente, instalou-se uma perda avassaladora. Aqueles momentos cheios de ternura em que olhava para ele, já crescido e vestido para ir para a escola, ainda a ver TV, de chucha, à espera que o chamassem para o carro, não se repetiriam mais. O colinho à noite "à bébé" não seria mais o mesmo. O ar incrivelmente fofinho que fazia com a chucha não se reproduziria mais. Reproduziriam-se outros igualmente fofos com certeza. Mas não aquele. E doeu. E a mãe chorou. Chorou a noite inteira. Sentiu-se espantada ao perceber que a tristeza que alguém sentiria pela perda da chucha não seria a dele. Para ele era apenas mais um passo, que no fundo andava a interiorizar há muito tempo e que naturalmente iria ultrapassar porque cada vez mais se sentia crescido, grande e a ceder o lugar aos verdadeiros bébés. Era uma questão de tempo.

A tristeza afinal era a da mãe. Ela com a perda da chucha tinha perdido muito mais do que ele. (embora soubesse que não era bem uma perda: era mais uma transformação, o desenvolvimento.)

No dia seguinte de manhã, o menino lá descobriu na janela da cozinha, do lado de fora, o seu desejado boneco. O êxtase na sua carita foi impagável. Estava tão contente e orgulhoso. A fada tinha cumprido a sua promessa. E ele cumpriria a sua.

E no dia seguinte, os novos vizinhos do menino (uns 5 miúdos muito giros e despachados dos 3 aos 10 anos) foram chamá-lo para brincar com eles na rua. O sorriso do menino ao ir com eles, a correria, as brincadeiras, o ar de rapaz independente fez mais um sorriso na mãe ainda melancólica.

Uma nova fase na vida do filho estava em marcha.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O M.

... ao ver-me a preparar para sair e ir urgentemente ao Multibanco...

"Mamã! depois não te esqueças de voltar para casa!!"

:))))))))

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Um post malcheiroso

"Quero fazer cócó!"
Olho para ele sem acreditar...
"Agora?" (Nãooooooooo!!!!! que merda... logo agora!)
"Sim..."
(Nãoooooooooo, agora não dá mesmo jeito nenhuummmm, não dá para chegar a casa?)
Estamos na sala de espera da pediatra. Brinca há 1h (ah estas maravilhosas pediatras tão boas tão boas e referenciadas, que depois nos tiram 3h de vida (de espera) do nosso dia) quando de repente faz o brilhante pedido.
A sala está cheia de putos doentes. Uns com febre, outros com tosse, todos com algum vírus escondido pronto a proliferar! Venho sempre com medo que ele saia (ou saiamos) de lá pior do que entramos lol
No WC é um vaivém de miúdos e graúdos. Olho para lá esperançosa e... vazia!! ah que bom! ao menos isso!
O M. tem ar de que algo mau vai acontecer se não o levar à sanita nos próximos segundos. Vôo com ele até lá "com licença, com licença". Raios, mas porque é que estas vontades têm de ser tão súbitas?! Olho para ele. Agarra as calças. "Aguenta M., aguentaaaaaa!" E rapidamente meto as mãos à obra. Dispo-lhe o que há a despir, forro o assento da sanita com papel e sento-o. Demoro 10 segundos a fazer isto.
Tento ultrapassar o meu ligeiro nojo natural por estar com as mãos numa sanita que é "publica" (embora de um consultório privado) e equilibro o M. o melhor que posso.
"Agarra-me mamã!!! não me deixes cair!!" diz enquanto se ajeita na sanita enorme. Para ajudar, a sanita tem um buraco mesmo na parte da frente (é daquelas próprias para pessoas com limitações/deficiências) e o rapaz luta por manter as pernocas abertas apesar das calças descidas as prenderem ligeiramente. Escusado será dizer que todo o forro que tão eficientemente fiz já está no chão. Que se lixe penso. "Despacha-te M.! eu estou a agarrar-te." E o rapaz continua meio indeciso, naquela tentativa de equilíbrio e confiança de que a sua mamã não o vai deixar mesmo cair lá dentro.
 A sonoridade da coisa revela-se de repente, e vejo-me meio ridícula, como se me visse de fora: eu a agarrar o miúdo debaixo dos braços, só lhe vejo a cabeça, faço força para cima para o aguentar, começam-me a doer as costas e...
Meu Deus! que cheiroooooooo!!! lol Que pivete!! Para onde foi aquele cócó de bébé que mal se dava por ele? Agora parece que comeu maçãs pobres e bebeu do esgoto... Arghhhhhhh!! Ai Jesus! Tirem-me deste filme. Começo a ter uma vontade louca de me rir :) Imagino o M. a cair naquela loiça branca e a ficar entalado (não seria a 1ª vez - na casa da minha mãe, uma vez o adaptador da sanita, que era muito pequeno, caiu com ele para dentro da sanita, acho que foi um mini-susto mas sobretudo risota entre avó e neto. Desde então sempre que ele se lembra disto diz-me a rir "foi uma grande trapalhada") Esta sanita é tão grande... Ele desaparecia ali se caísse lol
Devo ter divagado demais e o rapaz, ao sentir-se mais inseguro nas minhas capacidades "segurativas", anuncia "Já está, não quero fazer mais". "M.! não, tens de fazer mais, não fizeste quase nada. Eu não te deixo cair" e ele lá se convence novamente e a coisa desenrola-se.
Batem à porta duas vezes. Oiço do lado de fora "Rodrigo, espera um bocado, está um menino lá dentro." Coitado do miúdo, mais um a quem deu uma vontade incontrolável. Mas há quanto tempo estamos aqui dentro?
Por fim, o final. Papel higiénico e zás... tudo limpo! Exceto as minhas mãos... sim.... adivinharam... Com tanta mexidela acontece... Ai Deus... Arghhhhhh Este maravilhoso mundo da maternidade. Tento equilibrar tudo só com uma mão e finalmente estamos quase prontos.
Batem novamente à porta. Ai que stress! "Estamos quase quase a sair!" grito. Lavagem profunda de mãos (se é que isso existe com crianças de 3 anos) e saída rápida. Espero que o próximo a entrar leve uma mola no nariz...
Dizia eu, saímos. Ele mais leve e aliviado, eu a rir-me e a pensar nas coisas que não sabemos que ainda vamos fazer quando tivermos filhos, e os nojos que teremos de ultrapassar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Perguntas

A caminho da escola, dentro do carro, e ao ver 3 miúdos já mais velhos a caminharem sozinhos:
"Mamã, aqueles meninos perderam os papás deles?"

:)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Vamos Marujos!

São 10h da manhã e numa "ilha" de chineses deambulam piratas empenhados em encontrar um tesouro muito especial - uma máscara "assustadora" para o Dia das Bruxas. Um dos piratas não é grandemente a favor deste dia (mais uma importação sem sentido para a nossa cultura?), mas os seus deveres a isso obrigam.
De súbito uma revolução! Um grito de guerra! Um dos piratas corre aos zigue-zagues e reclama o seu gancho perdido numa prateleira! Em minutos conquista o novo mundo, um território cheio de tesouros para miúdos e graúdos.
"Eu sou o Capitão Gancho!!!" e corre por entre roupas e bugigangas. O seu temível gancho agarra decidido vários cabides. (por aviso de uma entidade superior volta logo a colocá-los no sítio)
"Vamos marujos! Sigam-me!". Os vários marujos espalhados pela "ilha" olham o capitão com um sorriso nos lábios. Mas o Capitão olha para mim (sou a Izzi), troca-me a identidade e ordena: "Vamos Barrica, há muitos tesouros para descobrir!". O novo Barrica inspirado pelo seu capitão responde: "Sim Capitão, onde está o tesouro supremo?", "Está aliiii!!! vem Barrica!" e o adjunto segue-o (não antes sem o ter direcionado para onde realmente era preciso irem).
E o gancho do Capitão Gancho prende roupa, puxa cabides, segura sapatos, descobre colares e até encontra um pijama bem quentinho e giro.
Finalmente a demanda acaba com um achado preto e pontiagudo na forma de um chapéu de bruxo (não havia máscaras para grande pena da Izzi). E, armado até aos dentes (ou será até ao punho), o capitão sai de chapéu na cabeça e gancho na mão, preparado para o Dia das Bruxas que aí vem!
"Vamos Marujos!!!"

sábado, 5 de outubro de 2013

Lugares (1)

Está a anoitecer, e, ainda de dia, numa certa zona, com mais um canal de água pelo meio (há dezenas deles), as luzes vermelhas começam a acender. A noite começa, o fluxo de pessoas aumenta, aumenta o cheiro intenso de cannabis, aumenta o cheiro a fritos por todo o lado. De repente tudo fica enjoativo. Algumas mulheres começam a aparecer nas janelas, sob as famosas luzes vermelhas. Olho mais de perto. Passo várias vezes pela mesma rua, pelas ruas paralelas e perpendiculares. A maioria são miúdas. Daria a algumas 18 anos (não posso dar menos porque esta bela profissão lá só deve ser legal a partir dessa idade, se não dava a algumas bem menos...). E fico pasmada porque... são lindas! Caramba... parecem top models: algumas altas, todas de corpo seco e bem esculpido, com as curvas no lugar certo. Umas loiras, outras morenas. Todas com uma espécie de biquini giro e brilhante (muitos brancos ou fluorescentes) ou então de lingerie. Podiam ser a vizinha gira da porta ao lado ou a amiga estrangeira de uma nossa amiga. Das vezes que passo por elas, umas vezes olho-as na cara, nos olhos, outras simplesmente baixo os olhos. Por alguma razão sinto-me envergonhada. Não por (eu) estar ali. Mas acho que por elas. Não quero ter tom paternalista ou de compaixão beata, essas coisas. Nada disso. Mas estou de boca aberta, pasmada. Como é possível... Piscam os olhos aos homens que passam, fazem beicinho, mandam beijos. Algumas fazem poses mais ousadas. Outras provocam deliberadamente, algo obscenas, rapazes que lhes gritam algo que não percebo. Eles riem-se, falam alto, fazem-lhes gestos. Elas retribuem. Não percebo se estão mesmo divertidas e a gozar a situação ou se simplesmente tudo aquilo é pura defesa. Elas estão por detrás de portas de vidro. Ninguém lhes pode fazer mal se elas não quiserem. Vêem-se às vezes homens sentados aqui e ali a fumar. Não percebo se são proxenetas ou se são apenas alguém que as protege, algum amigo ou familiar. Provavelmente são um "ninguém". Um ninguém que simplesmente as observa, mais um cigarro, mais um charro. Todos os dias é o mesmo. Alguém sopra ao ouvido: coca... Não obrigada. Siga.
Tento abstrair-me. Visualmente é engraçado. Uma data de mulheres bonitas e novas a pavonearem-se. Dão nas vistas. A luz vermelha dá um toque de mistério, de sedução, é verdade. E continuo espantada por terem corpos tão bem delineados. Esperava travestis, mulheres mais velhas e degradadas, mulheres feias. Tento abstrair-me. Mas não consigo. Não entendo o que estão aquelas miúdas todas ali a fazer, a vender o corpo, a serem tocadas por estranhos e a executarem coisas íntimas com quem não conhecem. Pergunto-me se forem abordadas por um homem repugnante, de quem tenham nojo, se o deixam entrar. Gerem o seu próprio negócio e podem recusar quem quiserem ou são geridas e têm de receber todos? (devia ter feito o Red Light Tour e feito essas perguntas todas à ex-prostituta que faz os tours)
Passadas umas voltas vejo várias cortinas fechadas. Sinto-me estranha. À minha volta e dentro daquelas vitrines inúmeras miúdas fazem mil e uma coisas a homens velhos, novos, feios, bonitos, ricos, pobres, simpáticos, arrogantes, charmosos, pirosos, charrados, bêbados, sóbrios, etc...
Sim, já sei que é tudo legal e têm condições higiénicas bla bla bla. Já sei que a legalização da prostituição fez parte da emancipação das mulheres de lá. Fazem o que querem dos seus corpos, ganham imenso dinheiro com isso e passados uns tempos voltam para casa como e nada fosse, com a conta do banco recheada, casa nova, dívidas pagas, e prontas para um novo recomeço. Fazem o que querem e pagam impostos por isso.
Sim, não discordo da legalização (mas também não sei se concordo). Os homens (alguns, muitos, não sei) fazem-no de qualquer modo. Mas não me entra na cabeça o usar o corpo para ganhar dinheiro e sentirem-se livres por isso. Não estamos a falar de prostituição de luxo - posso estar muito errada e não conheço nada desse mundo -, mas penso que aí o nível é outro, e só está nele quem quer mesmo, quem goza a situação, quem tem maior controlo da sua vida. São situações privadas, discretas. Não são "carne fresca" em exposição em montras. Essa parte é tão, mas tão degradante. O que fazem aí miúdas? Querem ganhar uns trocos enquanto estudam? Vão trabalhar em part-time numa restaurante ou café, façam babysitting, etc etc. Porque estão ali? Porque gostam de sexo com qualquer homem? Porque têm imensas dívidas para pagar? Porque têm a família para ajudar? Porque querem ter roupas caras? Um bom carro? Uma boa casa?
Quanto ganham por noite? Gostam do que fazem ou sentem-se tão mal como eu me senti por vos ver aí? O que estão a fazer aí? Devia ter batido numa das vitrines e perguntado... Ficarei para sempre a questionar-me.
Nem tudo é "bonito". Algumas ruas perpendiculares revelam as tais mulheres "gastas" de que estava à espera. Corpos já disformes do tempo, vêm-se marcas, nódoas, peles descaídas. Numa outra rua vêem-se os tais travestis que já vira em documentários. Aqui o ar não é tão amigável e sedutor. Simplesmente esperam. Esperam pelo próximo. Noutra rua apenas mulheres mulatas ou pretas. As ruas dividem-se para todos os gostos. Mas de repente a sensação já não é tão juvenil ou erótica. Acho estas mulheres tristes. As outras da rua principal ainda fingem. Estas já não. Esperam por quem lhes irá pagar mais uma noite.
Não sei ainda o que pensar desta visão. Divido-me entre o choque de ver aquele "espetáculo" e a excitação de ver a rua das "prostitutas legais". Deixem-me digerir a coisa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O autocarro

Considero-me uma boa condutora. A sério que sim. No entanto, por alguma razão que desconheço (talvez por o meu malfadado instrutor de condução me obrigar, na altura, a estacionar e conduzir por uma Lisboa labirintica com inclinações de 70%) suo estopinhas sempre que tenho de ir com o meu carrito por ruas inclinadas. Evito, se souber que aí vêem, ruas onde tenha de meter a primeira, onde tenha de ter o carro a tremer por todos os lados do esforço, onde tenha de acelerar como se tivesse um Ferrari nas mãos... Eu acho que é uma espécie de fobia. Ou azarice minha. Embora seja boa condutora, volto a dizer (!) E goste muito de conduzir. Mas todos os bons condutores têm miaufas, certo?...
Ora um dos caminhos para minha casa, depois de ir buscar o rapaz à escola, precisamente o mais direto e prático, é mesmo assim: bem íngreme e "assustador".
Certo dia, deparei-me com um autocarro à minha frente. Subia lentamente, em esforço e a minha viatura atrás em esforço também. A meio daquilo pensei: vai chegar lá cima e vai parar, qualquer coisa assim. E eu vou ter de parar também e vou olhar para trás e vai estar um carro atrás de mim e vou ter de arrancar com força, mas o meu ponto de embraiagem não vai correr bem e vou descair o carro e não vou conseguir...e...e... e vou bater no de trás!! Quanto mais pensava nisso, mais decidida dei a volta para trás.
"Mãe, porque estás a virar?", "Errr... porque já não quero ir por ali.", "Porquê?", "Porque o outro caminho também é bom.", "Mas porque não vamos pelo outro?, "Vamos noutro dia...".
Noutro dia volto a ver o dito autocarro. Volto a virar para trás. "Mãe, vamos pelo outro caminho?", "Sim...", "Porquê?", "Porque é melhor...", "Mas o outro caminho também é bom.", "Sim também.", "No outro dia vamos por ali?", "Sim, noutro dia...".
Uf... ele não percebeu a estratégia, pensei eu.
Noutro dia ainda: o autocarro não aparece à minha frente mas, já lançada, continuo pelo outro caminho mais fácil.
"Mãe, MÃEEEEEE!", grita ele muito excitado, "Diz...", "Podes ir por ALI!! não há problema, o autocarro não está ali!!!".

Na altura, e mesmo agora, se a vergonha matasse estaria enfiada num buraco bem mortinha... Fui tão, mas tão apanhada... Pior ainda: dias depois, numa vez em que o pai o foi buscar, aprontou-se logo a contar que eu não ia por ali por causa do autocarro... Ai vida... Eu a querer manter a coisa secreta... Não durou muito.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

11 de Setembro

E mais uma vez relembra-se esta data. Enquanto vejo mais um documentário sobre a tragédia - desta vez o "Milagre do Surfista do 11 de Setembro" no National Geographic Channel (aconselho-vos a procurarem a história, é incrível) - procuro imagens de NY no meu arquivo. Mas desta vez imagens de esperança, respeito, de recuperação de uma cidade agora menos simpática do que na altura imediata do pós 11 de Setembro (o tempo não perdoa, os anos passam, e, na minha opinião a população esqueceu-se um bocado da entre-ajuda e simpatia que sentiu serem necessárias mal houve a tragédia). De qualquer modo é uma cidade sem dúvida imparável, onde tudo acontece e nada é impossível.

O meu 11 de Setembro, na altura da tragédia, foi assim:










Relembro também a minha avó que morreu neste dia. Que estejas em paz. 
Por aqui recordamos-te sempre com muito carinho.