quinta-feira, 9 de abril de 2026

Rosalia

 

E foi a noite passada que ouvi pela primeira vez a canção de abertura do concerto da Rosalia. Chama-se Relíquia. Ouvir aqui

Que maravilha...

Nunca achei o som daquele pavilhão uma coisa fantástica, mas todo o início, a voz linda dela (muito mais poderosa do que se ouve nas músicas online ou na TV), as nuances da voz, das letras, e da música em si (som, instrumentos, variações, vários estilos numa só canção, ver esta Porcelana (ouvir aqui)). O som alto, a trepidação dos baixos a ressoarem no corpo. De facto, nada bate ver um espetáculo ao vivo...

Conhecia bem umas 4 músicas dela, apenas. Umas semanas antes tinha pensado em ouvir os álbuns dela para entrar no espírito. Mas o meu espírito, de facto, está noutro lado. E ciente disso, decidi que não ia ouvir absolutamente nada. Ia partir do zero e ouvi-la com ouvidos frescos.

Foi o melhor que fiz.

Ela tocou várias músicas desse álbum novo, Lux (ouvir aqui) e concordo: é uma obra-prima. Junta uma língua que adoro, o espanhol (bom, vá... sou suspeita... eu aprecio o som de várias línguas) com muitas outras (ucraniano, hebraico, italiano e muitas outras... li algures que ela cantava em 20 línguas) com música clássica, tecno, reggaeton, etc. Um ambiente muito teatral. Ah, e umas letras muito "à frente", muito dark, bonitas, com um grande toque religioso mas rebelde. 

O curioso foi entrar no pavilhão e ver uma vibe geral de Madonna, anos 90, Like a Virgin, com vestidos brancos de renda (uns curtos e outros compridos), colares com cruzes, véus, alguns rapazes vestidos de padre.

Adorei o concerto! No entanto - vou agora armar-me em crítica - mudaria o alinhamento. Ela começou com várias músicas do último álbum (muito criativo e diferente a nível musical e super teatral e "barroco") e depois mergulhou nos álbuns anteriores que têm mais tecno e dance music. Confesso que esperava ali mais algum flamenco teatral, e seguir a linha das primeiras canções. Começou num tom bastante apoteótico e bonito e, para mim, foi descendo. A euforia inicial que se criou em mim foi apagando aos poucos. Se não fosse acabar com esta canção aqui (é sobre a morte, é linda! o cenário aí estava simples mas adequado à música - foi criado uma espécie de corredor pelo qual ela entra a cantar e depois no fim sai, com uma luz intensa a amarela por trás dela, parece uma espécie de Lázaro a sair da caverna, tudo meio celestial)... se não fosse isso, teria saído de lá algo frustrada com o caminho que levou (a nível de espetáculo em si).

A Carminho foi lá cantar também. Tudo ao rubro, ouvi dizer que foi a primeira vez que cantaram a música (que lançaram juntas) ao vivo. Foi bonito e tal, mas não é o meu som de todo... 

Foi um excelente concerto. Teria no entanto colocado uns cenários mais exuberantes. Estava sóbrio, simples e bonito, mas... simples demais? Ou será que sou eu que visualmente já estou habituada a ver coisas complexas e espero sempre isso? Mas esperava ver um cenário físico mais rico e barroco ou religioso, algo assim. E ecrãs por trás dela que contassem histórias.

Isso não aconteceu. O espetáculo era "só" ela e alguns objetos em palco e muitos bailarinos. Não me posso é esquecer da incrível orquestra que estava a meio da plateia a tocar as músicas todas! Simplesmente espetacular! Deram espetáculo, sem dúvida.

Se dancei um bocadinho? Em algumas músicas (não havia muito espaço). 

Se passei o tempo quase todo a olhar quieta para o palco e a absorver tudo o que se passava, absorta nos meus pensamentos e imaginação? Completamente. Estava essencialmente comigo, a alma a sangrar ligeiramente, comovida quando surgiu a Relíquia e percebi a letra e senti o som; deslumbrada com Porcelana; e cheia de vontade de chorar quando ouvi Magnolias, o desfecho perfeito. Já a ouvi hoje milhares de vezes e faz-me chorar o tempo todo. 

Sinto-me estranha.
Sozinha?
Aquela sensação de um buraco vazio aqui dentro.

Vi o concerto e tinha tantas emoções para partilhar, estava a explodir. Mas não partilhei. A explodir de coisas que não conseguia dizer, mas que bastaria uma troca de olhares que TU saberias o que eu queria dizer ou o que eu estava remotamente até a sentir.

Não chorei, não fui expansiva, não mostrei emoção. Sorri em alguns momentos e troquei impressões com quem estava comigo. Mas era pouco. E ambos sabíamos. Já não sabe o que fazer comigo... 

Nem eu própria sei. 

Sinto o aproximar-se de uma conversa séria qualquer dia (um dia mais perto ou mais longe, é impossível dizer, se daqui a 2 dias se daqui a uns meses). De porque fujo tanto, do porque estou tão emocionalmente ausente. Não tenho assunto, digo trivialidades, falo dos filhos, ou não falo nada. Finjo que pesquiso algo no telemóvel ou que vejo alguma mensagem. Nunca mais falei de mim. De como me sinto, do que quero, nunca mais fiz planos. É um vazio como eu não me lembro de ter.

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Sinto saudades.
Mas não devia e não quero ter.




terça-feira, 31 de março de 2026

Cenas da vida

Olá meus caros,

Eu por aqui mais uma vez. 

Sem rumo. Pelo menos assim o parece. 

O horóscopo diz o contrário, que este é o ano das mudanças e do dinheiro e disto e daquilo. Aahahaha... 

Os podcasts das menopausas e afins dizem que este período de transição é lixado e que as mulheres mudam e já não papam qualquer coisa que se lhes diga, e que começam a ficar diferentes. 

Estou a ir andando aos tropeções lentamente, na prática. Mas já muito à frente na minha cabeça.

Sinto o meu sistema a desligar aos poucos. Sinto-me viva em alguns momentos e completamente morta e sem energia noutros. 

Será a parte hormonal que está a dar cabo disto tudo?

Tenho alturas super calmas e, de repente, há um trigger e fico a pessoa mais ansiosa do mundo. Ou a mais zangada. Ou a mais... o que seja. Tudo em expoente máximo.

Às vezes, só encolho os ombros. Já não quero saber de como me sinto.

Nestes dias passados, tentei alienar-me de tudo. Não pensar. Existir. Sentir o sol na pele, rir-me com os filhos, falar numa boa com o marido (mas não me toques, please...). Depois olho à minha volta. Vejo casais novos sorridentes e apaixonados. Morro de inveja. Olho para o lado, evito ver. Vejo pessoas que viajam a torto e a direito, a vida é bela e amarela. Vejo as pessoas com empregos e ocupadas (algumas com mto bons empregos, o que também me deixa cheia de inveja). Tudo parece correr bem. A todos. 

Até a mim.

Tudo parece fácil. 

Mas tenho a cabeça tão, mas tão pesada. 

Se as pessoas soubessem o que é estar bem e funcional, e de repente sentir que se abate uma tristeza profunda, o não saber que volta dar para ser eu de novo. Mas... será que esse "eu" existe ainda? Vai voltar?

E depois oiço, leio, vejo... vem de todos os lados, de todas as direções...:

"Não te preocupes"

"Hás de encontrar"

"Lá fora é que era"

"A guerra, os preços, a economia global"

"O preço das casas"

"Investir? em quê?"

"As pessoas aflitas"

"Não conseguem pagar"

"Mal dá para viver"

"Estudar"

"Não te preocupes"

"Sou mulher e ganho líquidos 3200 euros mês, só consegui ficar independente porque investia"

"Sexo"

"Workshops"

"Descobre como se ganha dinheiro online apenas usando isto"

"Felicidade pura"

"As relações"

"Descobre como ter os melhores orgasmos da vida"

"Alma gémea"

"Parceria"

"Não viajem agora, agora é melhor não"

"Slowliving"

"Siga estes 10 passos e descubra como viver uma vida plena"

"Viajem agora e a toda a hora, a vida é para se viver"

"Prioridades"

"O Instagram"

"Amor"

"Ação"

"Quanto custa"

"Seguidores"

"Sonhos"

"Paixão"

"Tudo a seu tempo"

"Fácil"

"Difícil"

"Regressar ao analógico"

"Simples"

"Complexo"

"Doutores"

"Planos"

"Redenção"

"Objetivos"

"Psicólogo"

"Canalizadores"

"Campo"

"Não gosto de planos"

"Inteligência artificial"

"Ir ao sabor do vento, a vida mostra"

"Se não estás a par, vais ser passada para trás"

"Cidade"


etc 

etc

etc


Sinto-me 

explodir.



E ninguém me vai salvar.

eu.



Ontem fui para a cama cedo. 

E desta vez tentei uma coisa que não tentava há muitos meses, mas nunca mais o revelei. Ler.

Não leio há várias semanas. Arrisco dizer vários meses. 

Vejo algo na TV (há coisas boas a nível de séries sim, mas são tantas e o ritmo é tão intenso que às vezes me sinto a fazer maratonas e nem fixo o que ando a ver realmente, esqueço-me. É mais uma.  Já é igual ao "o que vamos fazer de jantar" ou "para onde vamos de férias" ou "o que fazemos este fds"). Tudo em mim é "tanto faz" ou é tirado a ferros. Tudo. Dizia eu que vejo algo na TV e depois vou para a cama. E depois volto a pegar no telefone. Eu, que nunca o fiz. Nunca fui escrava desse aparelho. E agora uso-o para tudo.

É o meu despertador, o meu calendário (pessoal e de família), o meu computador (emails), as minhas redes sociais, etc... O meu mundo ali enfiado e o mundo dos outros também. 

Sou bombardeada por ele. Eu. Que sempre resisti ao telemóvel na mão durante anos a fio.

Eu que agora recorro a ele para ver se sou amada, se sou lembrada, se se e se...

E ontem forcei-me a não ver se tinha mensagens, a não ver notícias, a não ver os sucessos dos outros (ou falhanços... que claro que depois se tornam sucessos, claro...), a não ver nada.

Tentei ler. E li. Duas páginas. Ao fim de 2 páginas tinha a cabeça em papas. Não me conseguia concentrar em nada. Lia e repetia os parágrafos. Estive por uma unha (cortada) para espreitar o Instagram. Não o fiz. O que estivesse lá podia certamente esperar pelo dia de amanhã. As boas ou más notícias lá estarão de qualquer modo. Nisso o telemóvel é implacável.



Acordei cedo. Um silêncio sepulcral na casa. 

Olho finalmente para o relógio (o telemóvel... claro). Daqui a uns minutos são 5h da manhã e já me sinto acordada há algum tempo. Ainda está escuro lá fora. Depois vai clareando e eu ainda acordada. Consigo ir dormitando um pouco mais. Às 8h30 estou no computador. Quero estar o mais livre possível para... o que tiver de ser. Não quero saber, claro. Nem quero andar ao sabor do vento de ninguém. Nada me interessa. Ninguém me interessa. Estou-me a borrifar para tudo e todos. Só eu é que importo. Acho que já nem o sexo me interessa.



Fecho os olhos. 

E, por uns segundos, sinto o melhor e mais doce beijo do mundo. Os melhores lábios.

Continuo de olhos fechados.

E, por uns segundos, consigo ver aquelas mãos que se aproximam na direção da minha cara e me agarram umas vezes a cara e outras a cabeça ou o cabelo. Que me despenteiam e são tanto doces como esfomeadas.



Quero dormir.

E quero ter cabeça para me conseguir focar no que estou a ler. Quero conseguir esvaziar a mente para absorver as palavras sábias de Valerie Perrin (para mim o equivalente feminino a Murakami) e ler a história de Os Esquecidos de Domingo. (Ler a sinopse aqui.)



Estou no computador.

E, lá em baixo, alguém faz uma canja de galinha para todos. Adoro canjas. Lembra-me as minhas avós. As canjas, as miudezas das galinhas e dos coelhos, os corações e rins pequenos que eu procurava sempre no meio dos pratos de carne quando era pequena. Aquelas coisinhas deliciosas que eu, por educação, perguntava se alguém queria enquanto rezava que dissessem que não.

Acho que hoje me vou deitar cedo novamente. E quem sabe se consigo ler mais 2 ou 3 páginas e desta vez sublinhar as frases que mais gosto (detesto profanar livros, mas este tem de facto pérolas escritas e as folhas são daquelas amareladas e macias, com ar de quem já foi lido - e foi, ofereci-o à minha mãe em tempos)


Amanhã volto aqui.


quarta-feira, 25 de março de 2026

Músicas

Olá meus caros,

Aqui há umas semanas o Spotify presenteou-me (fui obrigada a ouvir as sugestões dele) com esta bela versão do Time After Time da Cindy Lauper. Adorei. É uma versão mais despida e mais doce até, da Lennon Stella. Uma maravilha... Deixo-vos aqui https://www.youtube.com/watch?v=np8uJEogkVM

segunda-feira, 2 de março de 2026

Objetivos 2

 

Das 3 coisas na minha lista para este mês que tenho e quero absolutamente fazer,
2 já estão em andamento. Siga! Sempre em frente.


Se eu não me conseguir "corresponder" em tudo no que quero, ninguém o fará!


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Objetivos

Tenho de colocar isto na minha parede do "escritório", para me lembrar de pôr tudo o que quero fazer na minha agenda. A lista já está feita. Agora é executar. E com prazos.


"Um objetivo nada mais é do que um sonho com limite de tempo."

Joel L. Griffith


No final de março tenho de ter pelo menos 3 das coisas feitas. 


Ready, 

set, 

go.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O cabelo

Ela olhou-se ao espelho.

O cabelo ainda húmido que, ao secar naturalmente ao ar, ia ficando às ondas. Sempre que o secava ao ar ficava assim, naturalmente ondulado. Estava enorme. A começar a ficar mais seco novamente. Mas algumas mechas de cabelo estavam mais onduladas e a franja comprida também. Gostava. Dava um ar natural e ligeiramente selvagem.

Despiu-se para ir tomar banho. Espelho. 

O cabelo dava-lhe pelo meio das costas. Era bonito e ela pretendia mantê-lo assim por muito tempo. Era agora a sua marca e quem não gostasse ou criticasse que olhasse para o lado. O cabelo caia-lhe pelos ombos primeiro e depois deslizava pelas costas. E ela sentia-lhe bonita. As poucas rugas que tinha ainda não chegavam para lhe abalar a confiança.

Mas ia começar a trabalhar mais o corpo e a barriga. O objetivo era chegar ao verão mais tonificada. É bom ter objetivos. Mas objetivos racionais à parte... Sentia-se bonita, sim.

E conseguia ver-se muitas vezes pelas lentes dele. Aí sim, era a mulher mais bonita do mundo. Não era a mãe de alguém, filha de alguém, profissional, espectadora de algo, cliente de algo... nada disso.

Era apenas uma mulher.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

E de repente...

... eu que não sabia nada de nada sobre gráficos e tabelas e nomes e cenas...

Já só oiço e penso em:


1. Mapas Mentais

2. Gráficos/Tabelas de Gantt


para estruturar workflows...


Conheciam estes nomes? aplicam-nos no dia a dia?

Eu até aplicava dantes, mas num sistema muito rudimentar...


Agora, só sei que nada sei!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Um dia de cada vez

Mais uma noite.

Mais uma direta.

Direta das quase 11h da noite às 7 da manhã. 

Sem encontrar posição, a tentar não pensar em nada, mas com o corpo ainda em super estado de alerta sem conseguir descansar.

Ponto positivo: não chorei.

São 3 dias sem dormir absolutamente nada. Olheiras até aos pés, cinzentas-azuladas... nem sei de que cor são. Papos inchados.

Mas não chorei.

Quando me levantei hoje não estava escuro, estava alguma luz (mas não sol). Ajuda a animar.

Perguntaram-me: dormiste bem?

Respondi apenas: Não.

Não quis acrescentar mais nada. Não há nada a explicar ou inventar. Não, não domi bem. De facto não dormi mesmo nada, zero. Mas essa informação não interessa.

Já não me foi perguntado mais nada de volta. Acho que o meu tom foi: não quero mais perguntas.

Outro ponto positivo: o gato veio novamente dormir comigo. Já o tinha feito há uma semana, por aí. É muito muito raro fazê-lo. Curiosamente da outra vez que o fez foi também num momento em que parecia o fim do mundo (e era o começo do fim do mundo, eu é que ainda não tinha percebido). Esta noite, a meio da noite foi-se aninhar novamente ao lado das minhas pernas, encosta o lombo ali e sinto o peso dele e sinto-o a descontrair para dormir. Já da outra vez pensei o mesmo que pensei hoje: é curioso como os animais parecem detetar o nosso estado de espírito, quando precisamos de.. alguma coisa.. algum sinal.. algum conforto. As pessoas dizem que as crianças são o melhor do mundo. Acho que são uma coisa incrível sim, especialmente as nossas que são parte de nós, mas o melhor do mundo continuo a achar que são os animais. Aquela pureza toda não se encontra em mais lado nenhum. Acho que foi por isso que quis incluir um animal no meu novo desenho. É o símbolo de algo puro e simples.

Sinto-me mais calada do que o normal. Sem chorar, mas em silêncio absoluto. Não quero ouvir música ou podcasts, nada nos ouvidos. Quero silêncio.

Ao trabalho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Delírios

(ficção)

Meus caros,

Às vezes deliro. São coisas simples:


"Estou num evento qualquer. Um casamento, uma festa, um almoço. Não interessa o quê.
Estou a falar com alguém e quando ergo o olhar estás tu ao fundo da sala a falar com outras pessoas. Há entre nós um sorriso imperceptível, só nosso. Uma espécie de telepatia que não diz nada, mas diz tudo.
A música à nossa volta toca e as pessoas dançam. A certa altura o registo da música muda, é mais intimista. E tu fazes uma coisa que nunca fizeste, levantas-te e vais-me buscar. E dançamos lentamente, juntos, abraçados, naquele conforto só nosso. Nada é forçado. E eu derreto-me ali (nunca achei confortável dançar de modo intimo porque nunca me dei ou permiti ter essa intimidade simples com alguém). Não quero saber quem olha para nós. E acho que tu também não. O mundo desaparece e sou só tu e eu por mais uns minutos. Lentamente."

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Fins de semana, glúten, amigos e conhecidos


(...)

Foi num sábado de manhã que a ansiedade veio. Eve tinha dormido bem, muito bem até, sentia-se com o corpo meio amassado o que ajudava sempre a descansar. E, de repente, acordou sobressaltada. Era muito cedo e ainda não havia luz lá fora. Mas o coração dela estava descompassado e levou uns segundos a perceber o porquê. Deviam ser 6h da manhã e a sensação era a de ter acordado depois de um pesadelo. Depois lembrou-se... naquele tempo matinal de sono já não-profundo tinha imaginado/sonhado que daí a umas 2h abria o telemovel e deparava-se com a mensagem que ela não queria mas teria de ler um dia. Uma mensagem que começaria com algo do estilo "Sei que não é fácil ler isto, mas já aconteceu isto e aquilo..., desculpa." Depois tomou consciência: se calhar estava a acontecer agora mesmo, nesse preciso momento. Seria uma promonição? Teria acordado assim repentinamente porque tinha pressentido algo? O coração começou a bater a um ritmo insurdecedor, a ansiedade era grande. Será? Depois tentou respirar fundo e repetiu o mantra "Não stresses nem dês mais importância do que a que tem às coisas que não podes controlar". Eventualmente acalmou, respirou fundo e decidiu não pensar mais. Eventualmente conseguiu voltar a dormitar e descansar mais um bocado antes do dia atarefado que ia ter.

Levantou-se e tentou não pegar no telemóvel. Sabia que ia ficar com o dia estragado se lesse mensagens antes do grande almoço que ia ter, em que tinha de mostrar o seu melhor sorriso e energia. Mas, raciocinou, então o melhor era ler logo para o caso de ter mensagens desagradáveis, assim tinha tempo de mastigar tudo e tentar não pensar muito o resto do dia. "Não quero saber." repetiu. 

O grande almoço de festa foi bom. Os miúdos ficaram numa mesa com outros miúdos e eventualmente o mais velho lá começou a falar sobre a vida com um outro que já tinha entrado na faculdade e lhe ia contando algumas peripécias. Eve e o marido ficaram noutra mesa com outras pessoas que não conheciam. Eve não estava nos seus dias de socialite. Sentia-se ansiosa. Era acarinhada pelo marido e, no entanto, sentia-se triste e algo desconfortável. Ele basicamente salvou a tarde: tinha assunto e falava com todos, o que é sempre bom. Mas como ninguém naquela mesa se conhecia, o mentor da festa lá foi apresentando as pessoas e foi dizendo: olha este é o X e é da área de marketing, este é o Y e é da aviação, etc etc. As primeiras trocas foram sobre em que trabalhavam todos, para encontrarem pontos comuns. Ora claro... nessa altura isso era um assunto sensível para Eve. Ela teria preferido falar sobre que livro andavam a ler, ou hobbies, peripécias de infância, etc... mas parece que isso eram temas que só surgiam quando as pessoas já eram amigas (e vá... é normal falar de trabalho).

Eventualmente, as conversas foram parar aos filhos e o que iam eles seguir ou fazer (os que já tinham 16 ou 19 anos). Estava um casal ao lado de Eve (nem todos na mesa eram casais) muito simpático e elegante. Ele curiosamente tinha uma pancada por parques temáticos e ia todos os anos a Orlando (EUA) uns dias para se divertir por lá (aparentemente há coisas novas todos os anos nos parques). Depois eram os cruzeiros. Falavam lindamente de cruzeiros (nunca digam nunca, mas barcos, navios, etc, nunca tinham sido um must para Eve). E então ela ouviu durante muito tempo quais os melhores cruzeiros a escolher, quais aqueles a evitar, o conselho da praxe de ir em alturas de época baixa (eles tinham um filho com quase 30 anos e já não se prendiam por épocas escolares). Parecia tudo tão fácil e fluido. Lá se falou no assunto favorito da malta no geral: viagens. Falou-se de episódios caricatos, alergias alimentares, etc etc. Ao ir buscar algo para comer (era volante) Eve captou uma conversa sobre glúten e chegou-se a 2 mulheres que falavam nisso. Uma delas era celíaca assim como o filho. Meteu conversa e ficou a falar com ela um bocado. Era sempre um tema valioso.

Algures durante o almoço e numa das vezes em que Eve estava de pé, um homem veio ter com ela. Inicialmente pensou: "Esta cara não me é nada estranha, é familiar. Mas de onde?" E então Eve animou-se! Ele era o assistente de bordo que os ajudara a ver que voos estavam disponíveis na ida e vinda ao Japão. Era o homem que num dia de folga seu lá, se tinha encontrado para jantar com eles e os conhecer. Era super simpático e melhor, era daqueles que falava com Eve e interagia tanto com ela como com o marido (muitas vezes em conversas onde Eve não tinha a mesma área profissional que outros homens, eles mal trocavam palavras com ela, e ela ficava apenas a ouvir ou ia fazer a ronda para outro lado). Este homem lembrava-se de coisas de há 2 anos que tinham falado, e ela idem. Foi um reecontro breve mas muito giro. 

Passadas 2h, Eve e a família rumaram para bem mais longe, para comemorar mais aniversários. Desta vez com alguma família e amigos da família. Desta vez um ambiente mais descontraído com um toddler irrequieto e charmoso que fazia as delicias de todos. Mais uma vez fazer conversa com conhecidos que vemos 1 vez por ano, falar sobre IA, como a usar no trabalho, quais as melhores ferramentas, etc etc. Eve gostou, mas estava mentalmente cansada. Um dia inteiro de fim de semana sem direito a fazer ronha no sofá um bocado não era fim de semana... E depois aquela sensação estranha de ver casais que pareciam super cool, in love e sintonizados - igual a ver beijos apaixonados no cinema. Eve sentia-se sempre tão estranha e triste.

Depois no caminho de regresso a casa à meia-noite: dar boleia a um rapaz conhecido. Era um simpático e espírito livre e lá contara que vivia em Espanha com a namorada (Eve já sabia) depois de uns anos a viver aqui e ali e a fazer coisas diferentes (do estilo: dar aulas a crianças no Peru, etc). Era engenheiro civil de formação e tinha trabalhado uns anos fora onde tinha ganho algum dinheiro e poupado. E o que ganhara investira cá (há uns anos) em 2 ou 3 casas que alugava agora como AL. Vivia das rendas. Eve pensou: "Bolas, isso é que era! Ter um negócio de AL." Às vezes pensava: "Onde é que eu fui tão burra que não pensei bem cedo em ir para algum país trabalhar e ganhar um bom dinheiro para depois regressar e viver bem". Porque raio é que não tinha ido para alguma companhia de aviação como assistente de bordo, etc e tal. Ou fazer trabalhos que ninguém gosta de fazer nos EUA, mas que bem poupado dá para voltar e ter um valente pé de meia? Algo que dê para pensar em futuros negócios, projetos, rendimentos? 

Eve secretamentente culpava os pais pela falta de orientação e aventura. Tinham protegido tanto que deram poucos empurrões para ela se soltar. Umas das palavras-chave da mãe era Medo, do pai era Estabilidade. Aquela filosofia pacata e académica demais. Ninguém se tinha esforçado por lhe abrir os olhos. Agora que os tinha bem mais abertos perguntava-se se era tarde de mais. O país estava o caos, o mundo à beira de uma 3a Guerra Mundial, a sua vida privada era melhor nem pensar muito, e a sua vida profissional era a incógnita perfeita. 

Eve tinha dias com esperança e otimismo. Mas tinha dias em que tudo ia por ali abaixo, onde lutava por se manter à tona para bem da harmonia familiar. Depois olhava para as fotografias tiradas nos almoços e jantares e parecia que nada se passava, que era só animação.

Depois eram os dias de votação, os resultados e os candidatos à 2a volta. E Eve esmorecia com a burrice do seu país...

E depois a semana começava e a luta recomeçava.


(...)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Velhice



 A velhice acontece quando paramos de aprender.

Diálogos que oiço por aí

(...)

- ...na realidade nunca vemos os pequenos passos que damos, só o resultado final...

- A jornada de toda a gente começa embaraçosamente (para nós) pequena. (...) Ser humilde e ter compaixão pela nossa pessoa. Tomar ações que vão crescendo, mesmo que ao início não pareçam ser dignas de registo: ex. hoje fui andar. No dia a seguir: hoje aprendi isto. Etc. Fiz uma pequeníssima coisa que me fez andar em direção ao meu objetivo. É uma pequena vitória. Ao início não sabemos bem o que fazer, depois já sabemos o que fazer mas não sabemos como o fazer. Mas podemos sempre ir perguntar ao ChatGPT, pesquisar no Google, YouTube, telefonar a um amigo que sabemos que percebe daquele assunto e perguntar como se faz isto ou aquilo. A procrastinação muitas vezes vem quando sabemos o temos de fazer mas não sabemos como o fazer. É a questão de ação e de skills, e ambas geralmente são facilmente ultrapassáveis. 

- Li algures que há quem procrastine porque têm medo do que vão descobrir sobre elas se experimentarem fazer aquilo...

- O aspeto "bom" de procrastinarmos algo, de nunca experimentarmos fazer algo, é nunca sentir peso de falhar. Ou o peso da rejeição. (...) Se eu disser a mim próprio que tudo é uma merda e que nada nunca irá melhorar sentir-me-ei dispensado de alguma vez tentar algo. É mais confortável ser fatalista do que ser pragmático, e assim achamos que ser positivo é apenas ser ilusório... Assim é mais fácil e confortável. Mas isso é cinismo. O oposto disto é ser entusiasta. E é ótimo rodearmo-nos de pessoas entusiastas.



......


- Li algures que a falta de confinaça mata mais sonhos do que a falta de skills. (...) A confiança é aquela primeira peça que permite depois que as outras peças do dominó comecem a mexer. A questão é: eu acredito que consigo fazer isto?

- Vou dizer isto: eu acho que muita gente acredita que o acreditar em nós é a resposta. Mas nós podemos apenas fazer coisas, podemos fazê-las de qualquer modo. Podemos fazê-las cansados, sem acreditar em nós, fazê-las quando não queremos, podemos fazer algo que não vai resultar. É só fazê-las. E eu aprendi que podemos não ter autoestima e fazer as coisas de qualquer modo, podemos não acreditar em nós e ainda assim as coisas correrem bem. O Ryan Holiday diz "self belief is overrated generate evidence" (A autoconfiança é sobrevalorizada; constrói evidências). Yap... evidências. Quero a prova de que sou quem digo ser. Pessoalmente sou a cara do síndrome de impostor. Nunca pensei estar onde estou hoje. Sou teimoso. E ser teimoso significou que continuei a mostrar e a fazer coisas. Isso passou a ser considerado consistência. Queres escrever um livro por exemplo. Todas as semanas escreves umas linhas, todos os meses escreves 500 palavras. Num ano e pouco tens um livro. Parabéns! Já podes dizer que és escritor. Podes até consegui-lo editar. Um dia mais tarde a Penguin até quer publicar o teu livro...e parabéns!! Já conseguiste ser um autor publicado! E tudo começou com o pensamento e a ação de: deixa comçar a fazer esta pequena coisa. 

- (...) Às vezes fazemos as coisas porque se não as fizermos sentimos um vazio incrível. Não há como não fazer. (...)

. Sim. Outra coisa, um exemplo. Tens alguém que mora num sítio que não adora, uma casa minúscula, cheia de bolor - mas é perto do trabalho. Essa pessoa também trabalha num sítio onde tem uma chefia má, um ambiente razoável mas que não puxa, não pagam muito mas também não têm de trabalhar muito. Vou dizer isto: essa pessoa estaria melhor se estivessem em piores condições! Porque se sentiriam motivadas a melhorar as coisas, esta zona da complacência confortável vai assentar e ficar durante muito tempo e isso é perigoso. Porque é aquela zona em que as coisas não estão mesmo más para ficarem más, mas também não estão boas para serem mesmo boas. E esta zona cinzenta faz com que vás andando, mas não vás avançando mesmo. 


(conversa entre Chris Williamson e Steven Bartlett, recomendo ouvir, conversa informal e brilhante no podcast Diário de um CEO)

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A luz que se foi

Olá meus amores,

Já há algum tempo que não venho aqui (faz sentido continuar a vir aqui?), por isso trago um momento que partilhei com uma amiga de longa data há uns dias. Não estavámos fisicamente presentes há muitos meses e, no que se está a tornar o sítio do café habitual, lá partilhámos a nossa vida atual e fizemos o update dos últimos meses. É um bom exercício e quase o sinto como uma espécie de terapia versão light (saímos dos encontros com amigas com pelo menos um destes sentimentos: mais leves, mais instrospectivas, mais divertidas, mais solidárias). Desta vez saí introspectiva.

Falámos dela e da sua vida atribulada nos últimos tempos e depois foi a minha vez. Contei-lhe a versão filtrada. A versão total... acho que ninguém acreditaria, é intensa e demasiado twilight zone.

A certa altura ela começou a suspirar. Ia pondo uma mão mais para cima e outra mais para baixo (a simular uma balança) consoante eu ia desabafando algumas coisas. Dizia-me: agora estás a pensar aqui, agora estás a pensar ali. Ela também partilhava as suas questões e iamos rindo, ela por vezes no seu tom quase profissional de quem já tem umas ferramentas extra (que as tem). 

De repente - o tempo do nosso encontro já estava a acabar - ela dá um grande suspiro e diz: "Olha, queres saber o que eu sinto como amiga quando te oiço? É como se estivessemos numa sala vazia e às escuras, com uma vela acesa no meio. Essa vela dá luz, mas quando começas a falar, a pensar alto, a fugir... é como se essa vela se apagasse. Tu apága-la. E eu fico às escuras contigo. Fica tudo escuro."

Fiquei em silêncio e confesso que em choque. Não soube o que dizer.

Nesse dia estava bem e risonha. Sentia-me no meu modo prático e despachado, no modo "fazer coisas", com energia. 

Aquela frase calou-me.

Até hoje não lhe quis perguntar o que queria exatamente dizer com aquilo.