(ficção)
EVA
(carta ao meu amor, escrito no diário que tenho desde os 15 anos, perfumado e com cadeado dourado)
"Meu caro,
Às vezes perguntas-me se tenho saudades, se sinto falta, e se... tanta coisa.
Sinto sim.
Claro que sim.
Se gosto de o dizer?
Não gosto. Sinto-me estranha. Vulnerável.
E eu não posso ser assim, não quero, não me traz nada.
É dares-te a alguém e eu tenho muito medo de me dar a alguém. No fundo, a verdade é que se pensar no total da minha vida, entregar mesmo... só foi a ti. Ainda falta algo, tenho mais para dar, mas tenho pavor. Tremo ao pensar nisso.
Depois, ao mesmo tempo, tento respirar fundo e controlar tudo o que sinto sobre tudo o se faz ali noutro lado. Penso racionalmente. Tento ser prática e fria. E sou. Durante uns minutos.
Depois só me apetece cometer um crime e esmagar e esfaquear alguém. Violentamente mesmo. É nessas alturas que penso que daria uma excelente assassina, aquelas fantásticas dos filmes: charmosa e cruel, que sorri como se nada fosse no fim.
Mas as assassinas não se apaixonam. E eu caí novamente. Caramba. Luto para me "descair".
Se não sentisse saudades e ciúmes e tudo isso, não estaria sempre a escrever e dizer algo. Cortava. Por agora não corto, não consigo. Corto muitas vezes mentalmente. Verbalizo e manifesto em voz alta (não é o que se diz para fazer?) que não estou para isto, que erro que isto foi, o que fomos fazer, e agora como vai ser. Penso todos os dias: trabalha mas é, e ignora tudo. Concentra-te nas tuas coisas. É só sexo, vá, nada de mais.
Mas mesmo que fosse apenas... não consigo lidar com o facto de poder haver sexo noutro lado. Odeio, odeio, odeio.
Vivo novamente o amor, sim. Caramba. Eu mereço. Depois de tudo, mereço voltar a abrir-me com alguém e não ficar só à espera de ser cuidada por alguém.
Tenho muitas saudades sim. Mesmo que me irrites, mesmo que eu seja picuinhas e chata por tudo e por nada, mesmo com todas as dúvidas e o saber que ainda me vou lixar... Mesmo assim o meu coração continua aqui, elástico e com muitas cicatrizes também.
Mal posso esperar para te abraçar e estarmos ali os dois naquela sede de amor e sexo, aquela coisa carnal e extrema, mas doce ao mesmo tempo. Os nossos corpos juntos (a descansar ou não) é a coisa mais fantástica que já vi. Tenho essa imagem sempre comigo, como um retrato na minha cabeça.
Cada vez leio mais sobre estas situações, confissões anónimas na net, nas redes sociais. Anda tudo trocado. Toda a gente. Tudo com umas pessoas e a sonhar com outras. Mas porquê? E agora com as novas guerras e mundo virado ao contrário, sinto tudo aflito e perdido, a querer pensar que o melhor mesmo é só amar enquanto podemos e estamos vivos.
E eu quero estar viva.
Eu quero-te a ti também.
Quero-te.
Parvo... "
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