sábado, 28 de março de 2026

Momentos

(ficção)


EVA

Estou em casa. É de manhã e estou no quarto a dobrar as milhares de pequenas peças de roupa pousadas sobre um pequeno cadeirão. O sol entra pela janela e bate na cama e no chão, o que me anima.

Sinto-me ligeiramente angustiada e tento pensar no que vou fazer o resto dia. Ele está mal do estômago e tem de fazer dieta, o do meio está hiper constipado porque julga que é verão e não se agasalha... Provavelmente não se vai a lado nenhum. 

E sinto-me a sufocar. Penso imeditamente que algures vou precisar de sair sozinha e fazer algo (correr, o que seja...). Preciso de apanhar ar na cara, fazer algum tipo de esforço físico que não seja limpar paredes com partes pretas (surgiram novos sítios, raios partam este tempo). Estou ligeiramente de mau humor, mas tento respirar fundo.

Ele vai tomar banho. Quando sai, está nu. 

Dá a volta por trás de mim para ir buscar roupa interior. De repente, olha para mim e diz: "Estou aqui." Eu, que dobrava roupa enquanto ele saía do banho, levanto a cabeça e olho-o nos olhos: "Eu sei.", digo.

Faço um ar desentendido e algo supreendido, como se estivesse ausente porque estava concentrada na roupa à minha frente e não tivesse percebido o que ele queria dizer. Interiormente, sei bem o que ele quis dizer. Agi como se ele fosse invisível, nem um olhar de esguelha quando abriu a porta do wc, nem um único olhar ou ação, nada, zero. Nem um ligeiro sorriso ou uma palavra de "O banho foi bom?". Nada.

Mas depois pergunto-me...

Porquê?

Porque me fazes tu isto?

Porque te sujeitas tu a isto, fazendo-me essa pergunta?

Porque nos fazes isto?


E a vida segue. E vamos comer e ver algum filme. E vou continuar a limpar bolor, enquanto penso nos meus projetos que têm mesmo de arrancar o quanto antes.

Siga.

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