quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Ficção - Sonhos

Ela estava na casa dele (chamemos-lhe Eva). 

E na casa dele estava toda a gente.

Era noite cerrada. 

A casa dele por alguma razão estava cheia, cheia de coisas por todo o lado, mal havia espaço para as pessoas passarem de uns sítios para os outros. Móveis em excesso, caixotes, roupa amontoada, objetos espalhados sem sentido. Tudo entupia. Ela não via, apenas sabia que era assim. Não passara do quarto dele e mesmo aí sentia-se afundada em roupa e objetos.

Lá estava ela mais uma vez no quarto dele... Passava lá muitas muitas noites. Ele deitado na cama a olhar para o teto ou para ela e a falar. Ela ao lado dele, a falar também. Falavam muito. Sobre muitas coisas. Sobre tudo. Sobre nada. Às vezes ficavam em silêncio. Bastava apenas a presença um do outro.

A noite foi passando, era longa. As horas foram correndo. Havia uma paz quente e descanso mental ali entre eles.

De repente, alguém subia. Era uma outra mulher. Ele ouvia-a a subir as escadas e não havia muito tempo... A sensação de urgência.  Eva encolhia-se para desaparecer. No chão, encostada à cama dele, tentava fechar os olhos e desaparecer. E desaparecia, ficava invisível. A mulher não a via (ou então via, mas ignorava) e dizia qualquer coisa ao homem. Tinham uma breve conversa e ela voltava a sair. Ele tinha de sair. Tinha de ir lá abaixo.

Eva era então encaminhada para um pequeno quarto contíguo ao quarto principal, onde aí sim a tralha era absurda (uma espécie de closet desorganizado?), onde tudo o que não servia era empurrado para aquele compartimento. Ela mal tinha espaço para estar ali. Mas ali ficava até ordem dele, ia esperar ali até que subisse. 

O tempo passava e ela ia ouvindo vozes lá em baixo. Estavam mais pessoas do que Eva pensava. Pela porta entreaberta conseguia ouvir a voz grave de um homem. Seria o irmão? Esse ser que era um mistério? As vozes riam e falavam. Passou-se algum tempo, ele não iria voltar certamente. Ela sai então do "closet" para o quarto principal e espreita pela janela. Conhece aquelas ruas. Então é ali que ele mora!

Eva sai pela janela, mesmo estando descalça. Está no segundo piso, mas tem alguma agilidade e força, e consegue descer. Corre um bocado pela rua abaixo. Sente-se uma espécie de ladra e invasora. Continua a correr. Depois olha para trás novamente. Se calhar estava a mais. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ficção - parte 1 - O sangue

17 agosto


São 2h da manhã. Não consigo dormir mais uma vez e vou ao wc. Olho-me ao espelho para ver se a minha cara revela o ar da minha alma cansada. Não revela. Às vezes nem sei como.

O meu ar é de sono sim, mas curiosamente tenho apenas um ar de menina de cara lavada. Gosto deste meu ar. Adoro maquilhar-me, mas há algo em mim quando acordo de manhã (embora agora não esteja a ver-me depois de uma noite bem dormida): um ar limpo, a pele que parece ainda reconchuda talvez do descanso da noite, antes de se deixar abater com o resto do dia. Gosto deste meu ar "limpo" de menina tanto quanto gosto do meu ar mais trabalhado de modo a realçar olhos e outras partes do rosto. Volto para a cama. Rebolo ali até de manhã, vou vendo a luz forte lá de fora a crescer cada vez mais. São horas de levantar. Ainda bem.


Estou agora na rua. Vejo-me mais uma vez no reflexo de uma vitrine. Confesso que adoro fazê-lo mas apenas quando me sinto bonita. E estou bonita. Tenho apanhado algum sol nos meus passeios e já não estou tão pálida, o cabelo está super comprido e aquece-me as costas de onde escorrem milhares de gotas de suor. Aproximo-me do meu reflexo e reparo nos meus olhos bonitos, tento perceber o que é que os outros verão quando olham para mim. 

Não vêem nada. Ninguém vê o que não deixamos.

Neste momento só vêem cansaço e algum mau humor. Os meus olhos meigos e simpáticos continuam ali. Tal como o meu coração que pinga sangue profusamente. 

É curioso como ninguém vê, como disfarço bem, o que me faz pensar em todos aqueles a quem o mesmo acontece, a quem segue e sorri mesmo nos dias difíceis. Mas ninguém vê não (felizmente, acho) aquela poça de sangue que se criou atrás de mim, a cauda do sangue que escorre do meu coração para a barriga, pernas e depois para o chão. É como uma sombra. Segue-me agora para todo o lado. Convivo com ela.

Há dias em que convivo melhor, tento esquecer (e oh se eu sou boa no treino para isso), outros dias em que convivo francamente mal.

Eu e a minha sombra de sangue. 

Que poético, não é?