Ela estava na casa dele (chamemos-lhe Eva).
E na casa dele estava toda a gente.
Era noite cerrada.
A casa dele por alguma razão estava cheia, cheia de coisas por todo o lado, mal havia espaço para as pessoas passarem de uns sítios para os outros. Móveis em excesso, caixotes, roupa amontoada, objetos espalhados sem sentido. Tudo entupia. Ela não via, apenas sabia que era assim. Não passara do quarto dele e mesmo aí sentia-se afundada em roupa e objetos.
Lá estava ela mais uma vez no quarto dele... Passava lá muitas muitas noites. Ele deitado na cama a olhar para o teto ou para ela e a falar. Ela ao lado dele, a falar também. Falavam muito. Sobre muitas coisas. Sobre tudo. Sobre nada. Às vezes ficavam em silêncio. Bastava apenas a presença um do outro.
A noite foi passando, era longa. As horas foram correndo. Havia uma paz quente e descanso mental ali entre eles.
De repente, alguém subia. Era uma outra mulher. Ele ouvia-a a subir as escadas e não havia muito tempo... A sensação de urgência. Eva encolhia-se para desaparecer. No chão, encostada à cama dele, tentava fechar os olhos e desaparecer. E desaparecia, ficava invisível. A mulher não a via (ou então via, mas ignorava) e dizia qualquer coisa ao homem. Tinham uma breve conversa e ela voltava a sair. Ele tinha de sair. Tinha de ir lá abaixo.
Eva era então encaminhada para um pequeno quarto contíguo ao quarto principal, onde aí sim a tralha era absurda (uma espécie de closet desorganizado?), onde tudo o que não servia era empurrado para aquele compartimento. Ela mal tinha espaço para estar ali. Mas ali ficava até ordem dele, ia esperar ali até que subisse.
O tempo passava e ela ia ouvindo vozes lá em baixo. Estavam mais pessoas do que Eva pensava. Pela porta entreaberta conseguia ouvir a voz grave de um homem. Seria o irmão? Esse ser que era um mistério? As vozes riam e falavam. Passou-se algum tempo, ele não iria voltar certamente. Ela sai então do "closet" para o quarto principal e espreita pela janela. Conhece aquelas ruas. Então é ali que ele mora!
Eva sai pela janela, mesmo estando descalça. Está no segundo piso, mas tem alguma agilidade e força, e consegue descer. Corre um bocado pela rua abaixo. Sente-se uma espécie de ladra e invasora. Continua a correr. Depois olha para trás novamente. Se calhar estava a mais.