quinta-feira, 5 de maio de 2016

O senhor Fernando

O senhor Fernando, chamemos-lhe assim, trabalha aqui mesmo ao lado há uns 4 meses. Cabelo todo branco, simpático, calmo, atento ao que se passa à sua volta. Precisa de tirar os óculos para ler coisas no telemóvel, tem alergias, escreve no seu computador com a cabeça quase colada a este, é culto e cordial. Passado uns tempos da sua vinda, fiquei a saber que lhe tinha morrida a esposa (!).
E... pasmem-se, só tinha passado 1 mês desde essa fatalidade.
Fiquei surpresa e admirada pela sua presença de espírito: decidido a não ficar em casa deprimido, veio trabalhar para aqui, ao pé de nós. Não está cá todos os dias, mas quando está, dá gosto. Faz-me alguma companhia e pelos vistos eu a ele. Sempre que me apanha sozinha lá vão 2 ou 3 dedos de conversa. Conversas simples sobre coisas simples.
Aqui há tempos disse-me "Sabe...desculpe estar a interrompê-la... mas sabe... humm... faz hoje 3 meses que a minha esposa faleceu...". Gaguejei enternecida. O que dizer face a isto? O que dizer a um homem mais velho, com bem mais experiência de vida do que eu (que fujo da ideia da Morte como do Diabo) e cujo amor desapareceu há tão pouco tempo? Sou péssima nestas coisas. Mesmo. Na altura o que me saiu foi um "Lamento..." meio triste meio não sei bem o que dizer, alguém me acuda. E fui sincera "Não sei o que lhe hei de dizer...desculpe." E ele respondeu-me uma coisa tão verdadeira... "Não faz mal. Já está a ouvir e isso é bom."
Apeteceu-me abraçá-lo e dizer aqueles clichés de que tudo vai melhorar. Mas nem tenho à vontade para isso, nem queria vê-lo a chorar (bem sei o poder de uma mão no ombro ou de um abraço quando estamos vulneráveis). E... que sei eu sobre isso? Eu que me fechei sempre em copas quando os meus avós morreram, que não consigo lidar nada bem com a Morte. Eu que FELIZMENTE ainda tenho pais, tenho o meu companheiro comigo, tenho os meus lindos filhos, tenho os amigos todos vivos. Todos de boa saúde.
Ontem, sozinhos, voltou a virar-se para mim. "Sabe, a minha esposa faleceu faz hoje 4 meses."
O meu coração ficou mais uma vez pequenino e bateu com força. Que digo agora? Pergunto se está a custar muito? Claro que sim. Óbvio. Sei que está sozinho em casa, tem o filho e o neto longe.
Resolvi então encher-me de coragem e perguntei-lhe de que tinha falecido a esposa. Foi o melhor que fiz. Falou sobre os problemas de saúde dela, que já vinham de nascença e que com a idade tinham deteriorado o corpo. Mostrou-me a fotografia de uma linda senhora, elegante e composta. Falou-me dela. Falou-me do filho. Vi fotografias do neto. Partilhou mais um bocadinho da sua vida. Não partilhei a minha, aquele momento era dele.
Em jeito de conclusão disse-me "Enfim... é assim a vida". Respondi algo como "É como se diz por aí... o melhor é aproveitarmos todos os bocados bons do dia a dia, não é?". "É isso mesmo" respondeu-me pensativo. "É isso mesmo."
Quando mais tarde saíamos do escritório, não soube bem o que lhe dizer . Tenha o resto de um bom dia? Eu sabia que ele estava a ter um mau dia, um dia triste. Então disse-lhe uma coisa um bocado parva. "Até amanhã... Sr. Fernado...humm... lamento... os meus sentimentos." como se a esposa tivesse acabado de falecer.
Sei lá. Continuo, nos meus quase 40 anos, sem saber bem o que se diz a alguém que perdeu quem ama. Que frase tão idiota. Desculpe-me Sr. Fernando. Cá nos vemos amanhã.