segunda-feira, 11 de abril de 2016

Profissionais VS Pais comuns mortais

Aqui há um par de anos trabalhei numa empresa onde estava rodeada de colegas com filhos. Homens e mulheres. Enquanto não fui mãe ouvia as suas histórias sobre os seus filhos com vago interesse, sorria, achava piada e tal, e a coisa passava. Desde que fui mãe, porém, as suas histórias, comentários ou opiniões tornaram-se valiosas. Ouvia com manifesto interesse, bebia toda a informação, tudo o que pudessem e quisessem partilhar: o que tinham feito quando o filho se tinha engasgado, o pouco que tinham dormido, as técnicas e tentativas para dormir melhor, o babanço quando a filha tinha começado a manifestar a especial vaidade típica das meninas,  a mezinha caseira para o problema x, o remédio para a doença y, o engraçado que tinha sido quando tinham dito z, o que tinha dito o médico em estado w. Eu bebia e arquivava religiosamente toda a informação que me era passada, voluntariamente ou não. Interessava-me, perguntava e ouvia. Ouvia porque eram os meus companheiros do dia e a dia e me importava, e porque o que contavam tinha agora um novo significado natural para mim. Confesso que tenho alguma saudade desse tempo, em que sempre que tinha uma dúvida ou simplesmente me queria queixar do cansaço, tinha a compreensão total pelo que estava a passar. Em que sempre que contava algum episódio caricato se riam comigo e logo vinha em retorno alguma história também ela engraçada dos seus filhos. Esta malta não era profissional, mas aprendi muita coisa "técnica" sobre crianças, doenças e curas, só de falar com eles. Simplesmente porque eram pais e eram experientes.

E o que quero realmente dizer com este texto de hoje é que por vezes somos demasiado pressionados pelo profissionais de saúde, sejam eles médicos ou enfermeiras. Já senti isso na pele várias vezes. É como se a nossa experiência ou juízo não contasse para nada. Ou porque me dizem que não devia adormecer o meu filho de certa maneira; ou porque me perguntam no hospital porque é que estou ali quando o meu filho só tem 1 dia de febre (mas tosse e dorme mal há 1 semana e eu lhes digo que isso significa sempre otite e por isso apareci ali num fim de semana senão ia já a correr para a minha querida pediatra que embora demore 2h em média para nos atender, atende-nos no consultório sempre que lhe telefonamos aflitos e sabe que não brinco em serviço e que já sei do que a casa gasta); ou porque a enfermeira não percebe porque não tiro a febre com um termómetro auricular que é o mais fiável dado que a temperatura do ouvido dá a temperatura central do corpo e o termómetro por baixo do braço dá uma temperatura que não é real porque ainda tem a pele como barreira, e insiste comigo para mudar de termómetro. E porque quando eu me mostro um bocado céptica em relação a esse termómetro ela puxa dos galões (ela enfermeira sim, mas com vinte e poucos anos e eu a duvidar que tenha filhos, o que arrisco dizer influencia muito o modo como agimos e tratamos uma criança) e em despique subtil insinua como é possível estar eu a duvidar dela que é enfermeira, treinada e cheia de sapiência sobre o uso de termómetros.

O que digo eu nessa altura em que estou com 1 noite de direta em cima e com uma criança carente que só quer estar ao meu colo e me mata os braços e as costas (embora eu lhe dê o colo pedido a toda a hora com muito prazer apesar do cansaço)? Eu que ainda há poucas horas tinha um miúdo a berrar subitamente à 1h da manhã e a engasgar-se com tosse para depois vomitar a cama toda, o chão, eu, o pai, e ter um pico de febre de quase 40 graus como eu nunca tinha assistido? O que digo eu que só quero é despachar a triagem para ver o que tem o pequeno? Digo em tom simpático mas cansado, sem vontade de argumentar que pois sim, pois, talvez o termómetro do ouvido seja o melhor, vou ver isso melhor, até dá jeito para ver a febre quando eles estão a dormir, sim, pois... obrigada sra. enfermeira, claro, claro, pois. Quando o que realmente lhe quero dizer é que já li e ouvi milhares de pais, seja em pessoa, seja nos fóruns das mães, e que tenho muitas dúvidas que essa medição no ouvido seja a mais fiável, porque nem sempre conseguimos colocar o bico do termómetro de modo preciso no ouvido, porque com diferença de poucos minutos o mesmo mede uma coisa e depois mede outra, etc etc e tal e trinta por uma linha. São dezenas de pais e mães a quem já ouvi dizer que não vale a pena um termómetro desses, que mais valem os "tradicionais". E eu que sou uma aluna aplicada ouço-os com atenção, tal como a ouço a si sra. enfermeira, mas no fim de contas sou eu quem analiso e decido, e permito-me decidir que se calhar, e pese embora vá contra o que a sua formação e treino lhe ditam, afinal quando sair daqui não vou comprar o tal dito termómetro. Não digo que nunca compre, se calhar um dia rendo-me (até porque tirar a febre a um miúdo que dorme sem o acordar é obra!).

Acredito e confio nos médicos e enfermeiras, mas também acredito em mim, na minha experiência e na dos que me rodeiam. Acredito mais em mim que sinto a testa do meu filho a ferver quando chego a um hospital, apesar da enfermeira da triagem me dizer que ele não tem febre, e mais uma vez provo que não estou errada quando, ao chegar a minha vez, digo sem rodeios à medica que me atende que tenho a certeza absoluta que o rapaz ainda tem febre apesar do que diz o espetacular termómetro auricular que esteve à pele do ouvido do petiz uns 3 segundos..., e mais razão me dá a médica quando  lhe volta a medir a febre e o valor é bem mais alto do que foi avaliado inicialmente.

Meus queridos e valiosos médicos e enfermeiras (dos hospitais públicos ou privados) não menosprezem os pais. Também eles são sábios apesar de não terem os vossos conhecimentos médicos. Mas também eles têm dúvidas (básicas, mas muito válidas) que muitas vezes não demonstram (por insegurança) quando confrontados com a vossa superioridade, e que pode contribuir para futuros erros no tratamento e medicação dos filhos. Sejam pacientes com os medos e angústias, com as idas precoces ao hospital ao primeiro espirro do seu bebé. Muitas vezes há em que agem por impulso e não era realmente preciso, mas também há outras vezes em que afinal tinham razão e o terem agido imediatamente agilizou o processo de cura de doenças chatas. Nós confiamos em vocês, mas confiem em nós também e não nos julguem logo, não nos façam sentir incapazes e a sentir como uma criança de 9 anos que leva um raspanete.

Dito isto, desta vez o puto afinal não tinha otite nenhuma (vá... cantem comigo: ALELUIA!!!) e afinal parece que foi só uma virose que parece já ter passado. Afinal sempre podia ter seguido a lengalenga de esperar pelos 3 dias de febre e só depois pedir ajuda médica. Mas bom... desculpem lá qualquer coisita, mas aqui esta mãe só costuma apanhar otites e mal sabe o que são viroses (é tipo proporção de 10 para 1).