E foi a noite passada que ouvi pela primeira vez a canção de abertura do concerto da Rosalia. Chama-se Relíquia. Ouvir aqui
Que maravilha...
Nunca achei o som daquele pavilhão uma coisa fantástica, mas todo o início, a voz linda dela (muito mais poderosa do que se ouve nas músicas online ou na TV), as nuances da voz, das letras, e da música em si (som, instrumentos, variações, vários estilos numa só canção, ver esta Porcelana (ouvir aqui)). O som alto, a trepidação dos baixos a ressoarem no corpo. De facto, nada bate ver um espetáculo ao vivo...
Conhecia bem umas 4 músicas dela, apenas. Umas semanas antes tinha pensado em ouvir os álbuns dela para entrar no espírito. Mas o meu espírito, de facto, está noutro lado. E ciente disso, decidi que não ia ouvir absolutamente nada. Ia partir do zero e ouvi-la com ouvidos frescos.
Foi o melhor que fiz.
Ela tocou várias músicas desse álbum novo, Lux (ouvir aqui) e concordo: é uma obra-prima. Junta uma língua que adoro, o espanhol (bom, vá... sou suspeita... eu aprecio o som de várias línguas) com muitas outras (ucraniano, hebraico, italiano e muitas outras... li algures que ela cantava em 20 línguas) com música clássica, tecno, reggaeton, etc. Um ambiente muito teatral. Ah, e umas letras muito "à frente", muito dark, bonitas, com um grande toque religioso mas rebelde.
O curioso foi entrar no pavilhão e ver uma vibe geral de Madonna, anos 90, Like a Virgin, com vestidos brancos de renda (uns curtos e outros compridos), colares com cruzes, véus, alguns rapazes vestidos de padre.
Adorei o concerto! No entanto - vou agora armar-me em crítica - mudaria o alinhamento. Ela começou com várias músicas do último álbum (muito criativo e diferente a nível musical e super teatral e "barroco") e depois mergulhou nos álbuns anteriores que têm mais tecno e dance music. Confesso que esperava ali mais algum flamenco teatral, e seguir a linha das primeiras canções. Começou num tom bastante apoteótico e bonito e, para mim, foi descendo. A euforia inicial que se criou em mim foi apagando aos poucos. Se não fosse acabar com esta canção aqui (é sobre a morte, é linda! o cenário aí estava simples mas adequado à música - foi criado uma espécie de corredor pelo qual ela entra a cantar e depois no fim sai, com uma luz intensa a amarela por trás dela, parece uma espécie de Lázaro a sair da caverna, tudo meio celestial)... se não fosse isso, teria saído de lá algo frustrada com o caminho que levou (a nível de espetáculo em si).
A Carminho foi lá cantar também. Tudo ao rubro, ouvi dizer que foi a primeira vez que cantaram a música (que lançaram juntas) ao vivo. Foi bonito e tal, mas não é o meu som de todo...
Foi um excelente concerto. Teria no entanto colocado uns cenários mais exuberantes. Estava sóbrio, simples e bonito, mas... simples demais? Ou será que sou eu que visualmente já estou habituada a ver coisas complexas e espero sempre isso? Mas esperava ver um cenário físico mais rico e barroco ou religioso, algo assim. E ecrãs por trás dela que contassem histórias.
Isso não aconteceu. O espetáculo era "só" ela e alguns objetos em palco e muitos bailarinos. Não me posso é esquecer da incrível orquestra que estava a meio da plateia a tocar as músicas todas! Simplesmente espetacular! Deram espetáculo, sem dúvida.
Se dancei um bocadinho? Em algumas músicas (não havia muito espaço).
Se passei o tempo quase todo a olhar quieta para o palco e a absorver tudo o que se passava, absorta nos meus pensamentos e imaginação? Completamente. Estava essencialmente comigo, a alma a sangrar ligeiramente, comovida quando surgiu a Relíquia e percebi a letra e senti o som; deslumbrada com Porcelana; e cheia de vontade de chorar quando ouvi Magnolias, o desfecho perfeito. Já a ouvi hoje milhares de vezes e faz-me chorar o tempo todo.
Sinto-me estranha.
Sozinha?
Aquela sensação de um buraco vazio aqui dentro.
Vi o concerto e tinha tantas emoções para partilhar, estava a explodir. Mas não partilhei. A explodir de coisas que não conseguia dizer, mas que bastaria uma troca de olhares que TU saberias o que eu queria dizer ou o que eu estava remotamente até a sentir.
Não chorei, não fui expansiva, não mostrei emoção. Sorri em alguns momentos e troquei impressões com quem estava comigo. Mas era pouco. E ambos sabíamos. Já não sabe o que fazer comigo...
Nem eu própria sei.
Sinto o aproximar-se de uma conversa séria qualquer dia (um dia mais perto ou mais longe, é impossível dizer, se daqui a 2 dias se daqui a uns meses). De porque fujo tanto, do porque estou tão emocionalmente ausente. Não tenho assunto, digo trivialidades, falo dos filhos, ou não falo nada. Finjo que pesquiso algo no telemóvel ou que vejo alguma mensagem. Nunca mais falei de mim. De como me sinto, do que quero, nunca mais fiz planos. É um vazio como eu não me lembro de ter.
------------
Sinto saudades.
Mas não devia e não quero ter.