sexta-feira, 15 de maio de 2015

London

Ontem vi um filme engraçado em resultado de um valente zapping: "London", um filme já de 2005 do qual nunca tinha ouvido falar. O que parecia algo meio parado e desinteressante, apenas com meia dúzia de caras bonitas, transformou-se em diálogos pseudo-intelectuais, mas interessantes, com muita maradice à mistura. A surpresa do dia foi mesmo o Jason Statham, com mais cabelo, e com um papel que eu achei fabuloso. Já o tinha pré-definido como mais um Van Damme aos pinotes e com diálogos recentes de pouco mais de "I'll quick your ass" e eis que relembro que o tipo é inglês, já fez filmes espetaculares com o Guy Ritchie, e até deve ter alguma coisa no cérebro :P
A interpretação dele no filme é fenomenal. Adorei!
Fica aqui o cartaz do filme:


terça-feira, 12 de maio de 2015

O Limite

Há dias Não. E hoje é um deles.
E hoje rebentei. Hoje abri a torneira. Chorei a manhã quase toda. Fui para o centro comercial e pedi comida de óculos escuros com medo que me vissem chorar; chorei à frente dos colegas (só não chorei à frente da chefia porque esta não estava lá, e ainda bem porque eu hoje estava para partir a loiça toda). Chorei onde quer que estivesse. As lágrimas escorriam-me e não conseguia parar. Mas acho que estava a precisar.
Não sei qual é o limite, se calhar não há. Mas pergunto-me cada vez mais qual é o limite humano do cansaço. Continuamos porque temos de continuar, mas não sei onde arranjamos forças.
Estou cansada. Não. Mais ainda. Estou exausta.

Dói-me a cabeça e já são semanas, meses sem conseguir descansar nada de jeito. Grito com o M., com o T., apetece-me rifar o mais novo. Enfim... não está bonito.
Hoje quase ameacei o M. de "pancada" se voltasse a acordar aos berros por causa de um simples mosquito... 6h da manhã (vá lá... já foi às 4h) e berraria da grande porque há um mosquito no quarto. Ou melga, ou o que raio era. Não era um pesadelo ou algo assim. Não. Apenas um mosquito. E basta abrir a goela uma vez e é 1h ou 2h que não se dorme mais nesta casa. É ver o P. de olho aberto e sem conseguir voltar a pegar no sono durante uma eternidade. Hoje não dormiu mais. E não dormiu ele nem nós. Quem dormiu??!!! O M. claro. Que depois de mosquito esborrachado voltou a deitar-se contente e aliviado e zzzzzz até às 7h.
O P. claro - dadadadadada gagagagagagagaga...buáá...dadadadadah.
Nestes dias este som é quase uma tortura para mim.
Estou cansada... O dente continua a doer-me e acordo às 4h para emborcar um BenUron. Ultimamente ando sempre nisto.

Noutros dias é porque o P. acorda simplesmente fresco e fofo às 3h ou 4h da manhã e palra o tempo que lhe apetecer. Tira a chucha, põe a chucha, volta a tirar. Choraminga, palra, etc. Umas vezes é porque tem cocó (não dorme se não estiver limpo), outras é porque simplesmente acorda e pronto. Outras é porque o M. tem algum pesadelo ou há mosquitos. Mas se fosse só isso... Não, claro que não. Mal ele acorda, acorda o irmão. E este sim é difícil de readormecer. Tão difícil. E enquanto não adormece ele, não adormecemos nós...

Deito-me cansada e acordo cansada. É duro.
Vou para o trabalho e tenho de estar o dia todo a dar 100% (especialmente porque ainda por cima tenho a "sorte" de sair mais cedo... como se eu fosse passear e divertir-me a seguir...) para se produzir o máximo, para haver produtos, para haver dinheiro que pague os nossos salários.
Se oiço esta expressão outra vez rebento!
Esforço-me por estar bem disposta mesmo estando a morrer de cansaço e sem força para levantar uma caneta. E até consigo porque a malta é bem fixe e o ambiente é descontraído. Esforço-me por estar atenta e concentrada. E acho que até consigo, mesmo que nunca tenha os créditos merecidos.
Mas há dias em que estar lá é difícil. O stress leva-me a melhor como hoje. Já não aguento ter trabalho pendurado (ou andar a arranjar soluções paralelas) por causa de problemas que nem sou eu que deveria solucionar. Mas se eu não o fizer, ninguém o faz por mim. Estou frustada e pronta a desatar à estalada.

Já não aguento mais otites e tosses e noites mal dormidas e o medo contínuo de que esteja de volta novo antibiótico. Sempre que oiço o P. tossir penso: pronto... a otite ainda não está resolvida. Ahhhhhhh que tortura!

O P. anda mais chapinho, exigente, a querer atenção, o M. igual. São uns fofos. Amo-os do fundo do meu coração, mas estou pronta para umas mini-férias sem eles.
E se pudesse umas mini-férias da empresa também.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

E assim um mix de coisas

Ora bem, vejamos assim umas coisas soltas:

- No outro dia o M. dizia-me: mamã, vamos dizer palavras começadas por "O". Porque será que a primeira palavra que me apareceu no pensamento foi "otite"?!...

- Estou pró em antibióticos... Até um tal de Ceclor já foi dado por aqui (coisa que não aconteceu com o M.). O 7º mês do P. vai ser passado por inteiro a tomar antibióticos. Tomou o seu primeiro aos 6 meses. Fez 7 e tomou logo outro que não fez grande efeito e volta a tomar outro quase seguido. Iupiiii.... (quem sai aos seus não degenera né? neste caso sai ao irmão)

- Estou loira. Depois de uma ida normal ao cabeleireiro para fazer umas madeixas mais claras, eis que a senhora (não sei por alma de quem) erra na cor ou no tempo a mais - nunca percebi bem o que aconteceu - e foi a primeira vez que ao me tirarem a toalha da cabeça disse: "mas isto não é normal... isto não pode ficar assim!!!!!!". E tinha o cabelo quase branco de tão loiro... E mesmo assim apressaram-se a dar-lhe um banho de cor mais escura. E mesmo assim, apesar de ter escurecido um poucochinho, ficou... loiro na mesma. Tenho madeixas tão fininhas e tantas que no geral é como se estivesse loira. Ainda não me habituei. Andava com o cabelo demasiado escuro e foi um choque. Mas decidi que vou aguentar a cor mais uns tempos, só pela experiência. Até pode ser que goste. Depois qualquer dia arrisco à séria e fico ruiva! yeahhh

- O M. tem uma nova namorada. Mas desta vez é "à séria" (a expressão favorita dele). A anterior desconfio que nem sabia que era namorada dele (e era de outra turma). Mas esta, a C., é uma fofa de quem ele fala constantemente. Andam de mãos dadas na fila para a sala deles, brincam imenso, e ambos decidiram que são namorados. Mas ela já disse que na escola não se podem dar beijinhos na boca (lol)... medo... Ainda bem que por agora não se podem encontrar sozinhos em mais lado nenhum... O M. até já me perguntou se quando eles se casarem também podem ter um bolo com umas "estátuas".

.............. (fui ali rebolar-me a rir e já voltei)...................

Quem diria que eu seria destronada tão rapidamente?
Quer dizer, bem sei que um dia serei apenas a mãe e não a mulher da vida dos meus filhos. Mas caramba... ainda nem fez 5 anos e já anda nisto?... Ai. Mau, mau maria!

- Acho o M. um génio do desenho. Caramba, que atenção ao pormenor. Já me desenhou a Maléfica e tudo. E o melhor é que se vê logo quem é!!! O meu filho é um génio!!!

- O P. é que anda com um bom andamento, anda. Tem 7 meses e já põe o irmão a chorar ao puxar-lhe os cabelos. Chorar é um exagero claro. Mas se isto é assim agora, nem sei como vai ser daqui a uns tempos. Mas bolas... o rapazito é um bruto, já ficou várias vezes com tufos de cabelo meu nas mãos. E aqui há dias ia-me cegando com as suas unhacas afiadas. Pensei que ia ficar sem um olho. No dia a seguir tinha uma pequena crosta por baixo do olho :O
O que vale é que faz o mesmo a ele próprio... volta e meia é uma versão infantil do Scarface. Faz aos outros aquilo que fazes a ti próprio :)

- Ando furiosa e com pensamentos bem maquiavélicos em relação aos pilotos da TAP. Aqui entre nós que ninguém nos ouve - era fuzilá-los a todos (os que fazem a greve claro). Ainda têm a lata de vir dizer que estão a defender os direitos dos trabalhadores da empresa. Naquelas mentes gananciosas e oportunistas devem achar que são os únicos trabalhadores. Só pode. Se afundarem a empresa e, por consequência a minha família, depois quero ver onde anda a solidariedade entre "colegas". Se calhar vou pedir-lhes mensalmente o salário que o sindicato lhes dá mesmo nos dias em que fazem greve.

- Depois de 2 semanas a penar com uma dor de dentes que não se percebia de onde vinha, lá me esburacaram um dente. Hummm como eu gosto de agulhas na gengiva e brocas nos dentes. Maravilha! Depois, ainda mal conseguia falar, fui a uma loja onde tinha de trocar uma prenda. A certa altura a empregada comenta para a outra: Olha lá, tu foste ao dentista? cheira a dentista!
A outra: não fui não.
A primeira: epa... é que parece mesmo, cheira imenso!
Eu: bom... eu fui. Saí de lá agora mesmo.
Nunca vi alguém a corar tanto e a desculpar-se tanto ahahahahaha Já percebi que para a próxima o melhor é ir logo para casa...

- Tenho uma amiga de longa data que está grávida. Ao fim de imenso tempo a tentar. Ao fim de muita muita vontade de ter um bebé. Ao fim de muito silêncio e distância sobre o problema de não estar a conseguir. Pois conseguiu!! e fiquei tão contente que até deitei uma lagrimita!
Se todas as minha amigas que andam a tentar ter filhos o conseguissem eu seria uma mulher infinitamente feliz.

- Estou pronta para começar a ter uma dieta mais saudável. Pronta para deixar de comer chocolates todos os dias. Pronta para fazer um esforço e comer fruta e verduras livres de químicos.

- Ainda me ando a perguntar se tenho coragem de no verão andar de biquini. Acho que sim. Vou ignorar a minha barriguinha. Quero lá saber. (pode ser que até lá melhore.)

- O M. está quase a fazer 5 anos. Eu nem acredito!! É um miúdo muito doce, giraço e espevitado que me diz coisas como "mamã linda" e "gosto de ti até ao fim do universo" e que está constantemente a fazer-me desenhos (bom... a mim e à sua amada professora). Ainda me espanto quando estou a falar com ele e o rapaz faz um raciocínio bem pensado sobre qualquer coisa. Como é que isto aconteceu? ainda agora era um bebé (como o P.) que não sabia de que terra era!

- O P. está um boneco lindo! Tem uns olhos grandes e fabulosos. Deve sair meio aloirado tal como o M. e está numa fase em que fica rabugento quando não consegue agarrar o brinquedo que quer. É bem disposto e sorridente, tem uma força do caneco (!), ainda não adora estar sentado mas lá se aguenta uns segundos. O sorriso dele quando o vou buscar à escola ilumina o meu dia. É tão fofo, mas tão fofo que só me apetece beijocá-lo a toda a hora (sorry M.).

Depois continuo isto. Ou não. Agora estou com sono e ainda não jantei.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

7 meses

O meu batatinha lindo fez 7 meses. E para comemorar o mensário lembrou-se de começar a virar-se para baixo, quando está no tapete de brincar. Nunca o tinha feito e foi uma alegria! Fica com o braço preso e tal durante uns segundos, fica atrapalhado mas depois lá acalma. Parece-me que daqui a gatinhar vai ser um passo. Também já faz a gracinha de por a chucha na boca sozinho. Se lha dermos para a mão 5 vezes seguidas, das 5 vezes ele consegue mete-la na boca.
O meu grandão de olho verde está um crescido!

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Diário dos 6 meses do P.

Não tem sido fácil fazer os relatos mensalmente, o P. que me perdoe, mas de facto ser o 2º implica que há mais outra criança que precisa do nosso tempo. E assim os meus relatos para registo futuro andam um bocado atrasados. Mas aqui vai:

- O P., tal como aconteceu com o M. já começou a comer sopa com carne, algo que ainda não aprecia muito, mas com a fruta à mistura tudo marcha.

- Tudo marcha mesmo, abre a boca por tudo e por nada. Até o antibiótico marcha e quer mais!

- Depois de 1 mês na creche, lá veio a constipação seguida da previsível otite. Mas já se safou melhor do que o irmão, que ainda estava no período de adaptação à escola e já estava com uma bronquiolite. Este já aguentou mais tempo sem nada. A ver vamos, mas o tempo está do lado dele - se tudo correr bem, o tempo quente e não frio vem aí.

- Adaptou-se bem à creche. É um vendido e qualquer um que olhe para ele é brindado com um sorriso. Por vezes é mais esquisito e olha meio desconfiado. Ou faz beicinho e chora até.

- Adora papa láctea!! lambe-se todo. E adoraaaaaa fruta! Faz uma careta ao início mas depois é tudo a marchar em tempo recorde.

- Senta-se com ajuda. Se o largamos cai. Ainda falta para estar autónomo.

- Mete tudo à boca e mordisca tudo. Há dias em que a baba lhe cai de tal modo que se não tiver um babete molha a camisola toda. Sempre que lhe damos um beijinho ou ele nos toca com as mãos há sempre a bela da baba à mistura. O M. acha nojento e diz logo Iahhhhkkkkk e limpa a cara com a mão ahahaha

- De barriga para baixo no tapete não aguenta muito. Detesta estar assim. Parece uma barata tonta e começa a queixar-se passado pouco tempo.

- Adora brincar com os seus objectos, tanto na espreguiçadeira como no chão com o seu "ginásio".

- Consigo sair do sítio onde ele está deixando-o sozinho uns bocados, enquanto faço outras coisas. Mas há alturas em que fica tão agitado e queixa-se tanto que tenho de o trazer para o pé de mim ou ir eu fazer algo para o pé dele. E "pede" muito colo.

- Ao colo não está quieto. Mexe-se imenso e ninguém o aguenta muito tempo porque é muito pesado.

- Veste roupa do M. de tamanhos para 9 e para 12 meses. É mesmo muito alto para a sua idade.

- Lá vou ter de largar os cordões à bolsa e comprar uma cadeira (sem ser ovo, mas para miúdos muito pequenos) rear-facing, porque daqui a uns meses já não vai caber no ovo, mas não pode de todo ficar virado para a frente tão cedo.

- É um bebé calmo e muito sorridente que só gosta de palhaçadas. Espalha charme por onde vai.

- À noite se acorda lá se consegue autoconsolar. As mãos tocam uma na outra, ou então vai tocando num bonequinho-fralda que tem na cama e a coisa vai. Claro que isto nem sempre funciona e lá temos de ir por a chucha.

- Tem fases. Há alturas em que dorme a noite toda sem acordar e outras em que acorda várias vezes muito irrequieto (mas há sempre um motivo - um cocó fora de horas, um medicamento que provoca insónia). Deu até há uns dias atrás noites muito más, semanas pavorosas em que pensamos que já não agüentávamos mais. Para, de repente, voltar ao seu sono de noite toda sem atribulações. Vá se lá perceber.

- O café agora é o nosso melhor amigo. Placebo ou não é o que me faz trabalhar sem adormecer durante o dia.

- Quando está agora na cama, ou deitado, tenta com todas as suas forças levantar-se. Faz uma força incrível. Ou seja, estamos a uns dias de lhe baixar o berço. Ah e acha muito curioso a câmara que está presa ao berço dele. Como dorme com os pés junto a ela, agora a atividade favorita é tentar acertar na dita. Quase todos os dias tenho de a voltar a prender melhor ou endireitar.

- Adora o banho. Mas detesta vestir-se. A banheira pequenina já deixou de servir com pleno conforto há muito, mas lá o vamos aguentando nela porque não temos uma tampa para a banheira a seguir, para bebés maiores. É uma das coisas para fazer da "to do list"

- Já reconhece o nome dele. Sempre que o chamamos olha.

- A TV é uma excitação, vira-se e revira-se (onde estiver) para tentar ver algo. Não o deixamos (qual Baby First qual quê... os bebés não devem ver televisão e acabou). Há uma frase que digo sempre que o apanho todo virado a ver algo "Os bebé não vê tevisão!!" assim meio abebezado mas em tom de "não podeeees". Ele vira-se logo para mim, mas depois safadolas farta-se de sorrir e segundos depois já ignorou a minha ordem...

- Adora colinho e atenção, claro.

- Desfaz-se em sorrisos quando o irmão lhe dá atenção. Cheira-me que quando souber andar vai andar sempre atrás dele.

- Tem olhos claros e grandes. Tem cartão de cidadão há 1 mês e na foto só se vê é olhos. É muito giro.

- Tem cabelo clarinho e tem cada vez mais carinha de miúdo e não de bebé.

- Sempre que espirra ri-se imenso, acha muita piada a isso. E espirra sempre que passa do escuro para a luz (de manhã por exemplo). O M. era igual. O T. é igual.

- Não consigo arranjar botinhas de bebé (algo molinho, sem ser sapato mesmo) para o tamanho de pé dele!! tudo o que há já são sapatos de gatinhar... Ou seja, vai andar de meias até começar a gatinhar (o que não é problemático de todo, não gosto muito de ver bebés de 4 meses (por exemplo) com sapatos duros, não percebo o conceito, nem onde está o conforto).

- Dorme pouco durante o dia. Mas normalmente em casa, ao fim de semana, consegue estar mais descansado e dormir mais tempo nas 2 sestas pequenas. Na sesta da hora de almoço dorme mais ou menos o mesmo, depende dos dias.

- Come que se farta.

- Embora tenha uma cara diferente do M. (olhos maiores, cara mais redonda e bolachuda, testa quadrada) tem as mesma expressões. É muito curioso ver isso.

- É o bebé mais lindo e querido do mundo!

No casulo

As notícias de telejornal nos últimos dias têm sido engraçadas... a culminar com o assassinato ontem de um bebé de 3(!!!) meses. Assassínio: o pai.
Não sei o que pensar de tamanha crueldade... Tento fechar na minha mente a imagem que teima em aparecer. E tento não pensar no que estará neste momento a sentir a mãe, enquanto boa parte do mundo (incluindo eu) está confortavelmente a ver TV ou a fazer algo corriqueiro.

Depois, hoje, enquanto termino de arranjar a lancheira do M. para amanhã, vejo o final de uma reportagem (Grande Reportagem na SIC) sobre refugiados de vários países em vários países (pelo menos foi o que me pareceu). Um rapaz (penso que sírio) descreve a sua viagem de barco com mais umas centenas de pessoas. A certa altura o barco afunda-se. Ele fala de estar a ser puxado para baixo pelo barco. Felizmente tanto ele como a família safam-se. Não tiveram a mesma sorte umas 200 pessoas desse barco. O miúdo deve ter uns 10 anos e já viu e viveu coisas que malta com o quíntuplo da idade nunca verá (felizmente).
Noutra cena o pai descreve que uma mulher deu à luz um bebé nesse barco, nessa fatídica viagem. Estavam 12 médicos no barco. Penso mais alegre: ah um milagre no meio daquela tristeza! O pai continua: a mulher morreu. A jornalista pergunta: e o bebé?
Também morreu.
Sinto um balde de água fria do choque.
O bebé. Recém nascido. Mais valia não ter nascido. Um momento tão importante para ser reduzido a nada num processo cheio de dor.
O relato segue-se com o número de crianças que morreram nesse barco.
O miúdo inicial, está orgulhoso por estar a aprender alemão. Fala fluentemente inglês, aprende alemão e parece bem espevitado para a vida. Tem um futuro pela frente.
Parece-me que o pai sobrevive apenas. Perguntam-lhe se pensa naquilo (o barco) frequentemente. Ele diz: sempre. Sempre. Todos os dias. Sempre que vamos dormir. É impossível não pensar.

Depois de mais um dia de trabalho, depois de ir buscar o Batatinha pequeno à escola e receber um mega sorriso desdentado que me aquece a alma, depois da azáfama familiar à hora de jantar, subo calmamente as escadas até ao quarto do bebé. Ele já está vestido com o pijama. E no nosso ritual habitual fecho as persianas em silêncio e corro as cortinas. Ao meu colo ele olha para todo o lado como se visse tudo pela primeira vez, a chuchinha em grande acção. Está bem cansadito (como sempre aquela hora, cedo para nós, já tarde para ele). Sento-me na cadeira nova perto da janela. Ikea. Bem confortável. Acendo uma pequena luz. O suficiente para transmitir que agora é o fim do dia. O suficiente para nos vermos. Ajeito-o ao meu colo. Um bracito para trás das minhas costas, o outro encostado ao meu peito. Ele suspira e agarra com a sua mãozita livre a minha camisola. A outra atrás vai tocando no tecido da cadeira. Suspira de novo. Já sabe que o espera o mimo e o sono. Faço-lhe festinhas ternurentas na cabecita (cada vez com mais cabelo). Passo-lhe o dedo na bochecha, na testa, à volta dos olhos. Ele vai pestanejando. De repente, passa do silêncio para o choro cheio de sono e contorce-se. A chucha cai. Volto a metê-la. Acalma novamente e faz a breve e maravilhosa cantilena do adormecer. Passado um minuto ou dois dorme calmamente. Aproveito o momento e fico ali mais uns minutos (e a rezar para que não acorde no momento em que o pouso no berço!). Fico ali a sorrir para aquela carinha linda a dormir.

E não consigo evitar pensar que aquela carinha (e a outra que deve estar quase a lavar os dentes nesse momento) tem a sorte de viver com pessoas sãs de mente, pessoas que o amam profundamente, que sempre o protegerão, que lhe tentam dar a maior qualidade de vida possível, num país sem guerras, num ambiente pacífico.

Os meus filhos estão no meu casulo. Sobre a minha asa, o tempo maior que eu puder te-los.