segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Calvin

Aqui há uns anos tive uma caturra. Era um macho. Lindo, cusco, adorava brincar com os brincos das minhas orelhas. Veio para minha casa depois de me ter sido negado um animal maior, como um cão ou gato (razões essas muito válidas, razões essas que hoje utilizo para eu própria não ter um animal desses quando já tenho a minha casa). Por isso veio a caturra. Já não me lembro bem como a adquiri, lembro-me vagamente de a receber de prenda, dentro de uma gaiola grande, que lhe dava espaço para se passear airosamente. Era uma caturra linda que me adorava. Ensinei-a desde muito cedo. Tirava-a da gaiola e andava pela casa com ela ao ombro, ou na mão, ou no braço. Era um bicho muito simpático e muito ligado a mim. Sempre que eu entrava em casa ela piava desalmadamente e andava freneticamente de um lado para o outro no poleiro. Não parava até eu ir ter com ela.O nome veio-me à cabeça facilmente, aquela crista amarelada só podia ser a versão pássaro de uma pessoa - o Calvin! do Calvin & Hobbes, os meus desenhos favoritos da altura. E assim, para risota de toda a família, entrou para a família o Calvin, a caturra.


Durante um ano foi uma alegria. Todas as noites soltava-o e ele andava e esvoaçava uns bocados pela sala. Chegou a ficar empoleirado no topo das cortinas sem que ninguém o conseguisse tirar de lá. Tinha uma penugem macia, as penas pareciam seda, e o Calvin adorava (tal como a dona!) cafuné. E assim passava eu longos minutos a coçar-lhe a cabecita e a observar o seu ar de deleite.
Um dia o meu passarinho lindo começou a dormir no chão da gaiola em vez de dormir no poleiro. Eu não percebia bem porquê, mas porque era inverno pensei que era essa a explicação - o fundo da gaiola devia ser mais quente, algo assim. E não pensei mais nisso, na minha inocência e ignorância sobre animais e pássaros em particular.
Uma noite, quando estava sozinha na sala, fui ter com o Calvin e tirei-o para fora da gaiola. Ele estava frio, mas atribuí a isso o frio que estava naquela casa. Gelo mesmo. Tentei pô-lo a passear, a voar um bocado pelo compartimento. Mas nada. Ele voltava sempre para ao pé de mim, só queria estar ao meu colo aninhado. Eu não percebia o que se passava e insisti um bocado mais. Até que desisti - ele não arredava pé, queria a minha atenção. Fiz festas, cocei-lhe a cabecita, etc. Até que, sendo já tarde para me deitar, o fui colocar na gaiola. Curiosamente ele não queria, o que era inédito. Trepava-me pelo braço. Via-se que não queria entrar ali. A certa altura tive de insistir mesmo e obrigá-lo a ficar lá e fechei a porta da gaiola. Ele lá ficou a olhar para mim até que eu desci o pano que cobria a gaiola por causa do frio.

No dia a seguir, depois das aulas da faculdade, quando voltei a casa encontrei o meu pai muito triste no sofá. Foi ele que me deu a  notícia - o Calvin tinha morrido. Fiquei em estado de choque porque nada fazia prever aquele desfecho. Fui à sala e lá estava ele; como se estivesse a dormir, com o bico enfiado nas penas traseiras. Estava no fundo da gaiola.
Revi várias vezes na minha cabeça o meu passaruco lindo a querer ficar no meu colo, a querer festas, a quer ficar ali comigo na noite anterior. Até hoje tenho a a certeza de que ele se sentia mal e sentia que estava a morrer, e por isso queria estar apenas comigo, aninhado e a morrer em paz.
Mas eu, ignorante quanto a doenças de pássaros e de que se eles dormem no chão é sinal de doença, não vi o quão mal ele estava e não o levei ao veterinário. E nessa noite incitei-o a voar e passear quando ele não queria; abandonei-o quando ele estava a morrer e não queria ir para dentro da gaiola.
Até hoje carrego um grande sentimento de culpa. Sentimento que sempre terei. Abandonei o meu bichinho quando ele estava a morrer e tenho uma pena infinita que isso tenha acontecido. Se soubesse que isso estava a acontecer teria ficado com ele pela noite dentro, a dar-lhe festas até fechar finalmente os olhos.
O meu pássaro lindo... era lindo, simpático e fazia-me rir. E eu era uma dona dedicada que interagia muito com ele e ele uma passarinho lindo que só queria brincadeira e a minha atenção.

Mas já não posso mudar o que aconteceu, e não posso fazer muito mais senão imaginar o momento final (mas triste) que teria sido o ideal:
Estou numa vida paralela, meu amigo lindo, dou-te colo e muitas festas. E fechas os olhos para sempre, placidamente, cheia de mimos da tua dona, como sempre foi, e rodeado de muito carinho.

Um brinde a ti Calvin, o melhor passarinho do mundo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Diário dos 16 meses

O M. em apenas 1 semana fez progressos enormes. De repente começou a dizer Não (naaaaa), acena que sim quando quer expressar isso (mas ainda não diz a palavra), quando lhe damos o soro fisiológico para a mão mete-o no nariz e começa a inspirar LOLLL E no outro dia começou a fazer os mesmos sons da canção do seu boneco de dormir. Muito bom! :) Ah e cada vez mais gosta de dançar.
Manias: passa a vida a ligar e desligar os candeiros de mesa.
Coisa com piada: só quer colo, de 2 em 2 minutos lol
Curiosidade: na creche já interage mais com os outros miúdos e já andou de mão levantada a dar chapadas :P

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Things i must do before i die

(não está por ordem de importância)

- criar um negócio meu (ainda no segredo dos deuses)
- aprender a fazer bijuteria
- aprender a fotografar a sério
- fazer uma exposição de fotografia
- voltar a Itália
- fazer um bolo com decoração a valer - tipo CakeDesign
- fazer uma tatuagem
- escrever artigos para uma revista ou jornal
- escrever um livro
- dedicar-me à arte de manipulação de imagens
- fazer roupa minha
- dar algum do meu tempo a crianças orfãs a precisarem de mimos

e já me lembro de mais


domingo, 20 de novembro de 2011

Ultrapassar medos e outras coisas

Como já mencionei aqui, o meu bonequinho de quase 16 meses anda feito um homenzinho. Aproveito para dizer que para gaúdio geral já começou a dizer água (ába ou áua) e já está (táe ta). O máximo!
No entanto, continua com medo do seu arquinimigo: o medonho secador, colocado no topo de um armário branco que tenho na casa-de-banho. Sempre que ali passa aponta e se eu estou a secar o cabelo, ele quase treme e geme de medo. O olhar dele para o secador é de pura miaufa e nojo lol. Sempre me perguntei a razão deste medo, dado que o secador nunca lhe caiu em cima (credo) ou lhe fez qualquer mal.
Volta e meia tenho tentado aproximá-lo do secador, mas os sons de medo são tais que acabo por não insistir não vá traumatizar o pequeno. Insistir aos poucos é o segredo, acho eu.
Nestes últimos dias, quando ao colo, já tem olhado mais nos meus olhos, já o sinto a gozar o colinho, a sentir-se em segurança. Por isso, hoje tomei coragem e insisti um pouco mais, a ver se quebrava o medo. 
Com ele ao colo tirei o secador para baixo. Começou logo a queixar-se, tremer e olhar para a porta (deixa-me sairrrr). Saí com ele da casa-de-banho e fui dar uma volta pelo corredor. Voltei  novamente ao pé do objecto temido e desta vez pegue-lhe e aproximei-o de nós. Novo gemido. Comecei a falar baixinho, a dizer que o secador era muito lindo, assim como M., para não ter medo, muitos beijinhos no M., alguns no secador (lol). Parou com os gemidos embora tivesse um ar super desconfiado lol. Passei à parte do aliciar - comecei a mostrar-lhe os botões. Começou a achar então que talvez aquilo tivesse algum interesse, mas mal tocou no dito, novo gemido de miaufa! 
Voltei a dar nova volta pelo corredor, distrair com outras coisas, beijinhos, risotas. Nova ida ao pé do secador (sempre ao colo) :)  Desta vez já lhe tocou e mexeu nos botões um bocado. Passado uns bons segundos já estava mais entretido com o novo livro que comprei ontem e que estava ao lado, em cima do muda-fraldas. Já estava pronto para outra e penso que com menos medo do objecto. Qualquer dia já o trata por tu. É um tonto lindo o meu amor. Fiquei muito orgulhosa.

Entretanto, hoje foi mais um aniversário da minha mãe. 61 anos. Como o tempo passa. Ainda me lembro dela com 36 anos (quase a mesma idade que eu tenho...), linda, cheia de energia, cheia de desafios, cheia de garra. Ainda a vejo assim com essas características. Ela é que começa a não se ver. Volta e meia já usa a palavra velha. Como é possível. De todo. Mesmo! E não nos vamos esquecer que 60 anos agora não são 60 anos da geração dos meus avós, em que aos 50 anos as mulheres já eram matronas sem piada nenhuma. Pergunto-me se, tal como eu, se sente com 10 anos menos. Se acordou hoje e pensou - caramba tenho 61 anos! como é que vim cá parar. Espero que a vida não lhe pese muito, que os problemas não lhe tirem o sono. Porque tudo melhora, só pode.

Pergunto-me, quando tiver 61 anos, onde estarei. Como estarei.

Tem uma boa noite querido diário.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs...


... morreu. Mais um homem que ficará na nossa História.

"O nosso tempo é limitado, por isso não o percamos nas vidas dos outros. Não fiquemos encurralados em dogmas, isso é viver com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixem que o ruído das opiniões dos outros torne a nossa voz interior inaudível. E acima de tudo, tenham a coragem para seguir o vosso coração e a vossa intuição. De alguma forma, eles sabem aquilo em que verdadeiramente nos queremos tornar. Tudo o resto é secundário. "
Steve Jobs

sábado, 1 de outubro de 2011

Especial noite de aniversário

São 2h30 da manhã do dia 1 de Outubro. O meu aniversário já passou. O dia foi longo. A noite também. O m. deitou-se mais tarde e mostrou as gracinhas novas a toda a gente: o encaixar perfeito dos sólidos geométricos na casinha com as formas recortadas e depois as palminhas que bate a si próprio e o sorriso de orelha a orelha quando todos reconhecem a façanha e batem palmas também LOL; todos se riem com os passinhos meio bêbados que já vai dando. É uma alegria! Esteve de pijama essa parte toda, o que o faz parecer ainda mais um bonequinho animado. Não sei se da excitação ou do calor, ou de ambos, não dormiu nada grande parte da noite. Sempre a dar voltas na cama, a ir falando, choramingando. O boneco musical (e que se ilumina) tem estado sempre a ser tocado por ele. Não percebo o que se passa e fico às claras também.
A certa altura decido ir lá. Ver se está quente, ver apenas.
Ele vê-me e levanta-se silenciosamente. Não está agitado nem a chorar. Simplesmente está acordado. Com uma insónia tal como a mãe :)  Lá levanta os bracinhos para um colinho. Embora eu saiba que não o devo habituar a colo sempre que vamos lá à noite, não resisto a pegar-lhe - o meu grandão pequeno, já deve pesar 10kg seguramente... Não fico na posição mais confortável porque de facto está muito pesado, mas ele por outro lado está muito bem lol. Aninha-se várias vezes para se encaixar melhor. Acaba por ficar no colo com a cabecita apoiada no meu ombro, abraçado a mim, com uma das mãozinhas a fazer-me festas no braço e a ir enrolando a manga da minha tshirt do sanguinário True Blood (eu sabia que ia conseguir dar algum uso às tshirts). Fica assim uns bons minutos. Eu falo-lhe baixinho. Sinto-o nas sete quintas por ter aquele miminho inesperado, sem ter precisado de chorar. A luz de presença está ligada desde que lhe peguei ao colo e assim, passado um bocado, deito-o de novo. Temo que comece a chorar e que a calmia tenha fim. Mas surpreendentemente não.
Fica deitado, meio adormecido, meio acordado. Consigo fazer-lhe mais umas festinhas e olhar bem aquela carinha bochechuda, aquela boquinha que tantos beicinhos faz ultimamente. É mesmo lindo o meu fofuxo. Desligo a luz de presença e saio silenciosamente para o meu quarto. Deito-me. Silêncio ainda no quarto ao lado. Fantástico!
Tento voltar a adormecer rapidamente. Não é fácil. 
Mas hoje pela primeira vez o meu pequenino dormiu até às 9h :)))

Agora são 13h, ele ainda dorme a sesta do almoço, mas deve estar quase a acordar. Tenho de me ir vestir. Hoje o meu pai faz anos e vamos almoçar à zona preferida dele :))

Está sol!

Gosto tanto quando está calorzinho :)

sábado, 10 de setembro de 2011

11 de setembro de 2001













Já não me lembro bem que horas eram. Perto da hora de almoço. Não me lembro se antes se depois. Estava no atelier do Andrea a estagiar há uns 3 ou 4 meses. A mãe dele tinha morrido uns meses antes e o arquitecto andava com comportamentos estranhos. Suores frios repentinos, mudanças de humor que incluiam pontapés em portas, olhar alucinado. Houve dias em que estava sozinha com ele e estava preparada para, ao menor sinal de loucura a sério, me levantar e sair dali. E chamar a irmã dele. Acho que se chamava Silvia.
Foi exactamente ela que lhe telefonou nesse dia. Ouvi pedaços da conversa, das respostas dele:
"A sério??... Bem feita! capitalistas do C... Ahn? caíu?? caíram??... Fogo... Não, não tenho aqui televisão, vou tentar o rádio... Depois telefono."
Desliga.
"Ana, parece que uns aviões foram contra as torres gémeas de NY. Dizem que estas caíram!"
"Como assim?"
"Caíram! 2 aviões foram contra elas."
"A sério?!! mas como é que isso é possível? Mas foi acidente?"
"Pois... isso não sei, a minha irmã não me disse. Vou ligar o rádio."
Ouvimos algumas estações, mas nada; só música.
"Ana, estou curioso. Que m... não termos televisão! Só se formos à Piazza San Babila, acho que têm lá um ecrã grande."
"Vamos!!"
E lá vamos nós, na sua mega lambreta. Quando lá chegamos algumas pessoas estão a olhar para o ecrã. Só se vêm as torres em chamas, fumo, e imagens repetidas dos aviões a embater nas torres. Não parecia real. E se ao início pusemos a hipótese de acidente, depressa chegámos à conclusão que não era. Lembro-me de ter notado que pouca gente estava a ver essas notícias. As pessoas circulavam pela praça, pela cidade. A sua vida não tinha sido afectada directamente e, apesar da tragédia dos outros, a nossa vida continua. Lembro-me de isso me ter passado pela cabeça por uns milésimos de segundos. 
Voltei ao trabalho e quando mais tarde cheguei à residência então tive o impacto daquilo tudo. A malta toda da residência estava reunida na sala "de estar" com a única televisão do sítio. Uns sentados, a maioria em pé (só havia 2 sofás para umas 100 pessoas). Todos falavam e comentavam, elaboravam-se teorias, contavam o que as notícias tinham vindo a dizer ao longo do dia. Eu nem podia acreditar que tinha continuado a trabalhar calmamente enquanto aquilo se desenrolava. 
Infelizmente todos continuamos calmamente nas nossas vidas enquanto milhares de pessoas são mortas todos os dias em guerras, em todo o mundo.
Os dias seguintes foram dedicados à tragédia do 11 de Setembro. Vivia-se e respirava-se o assunto. Começava a falar-se igualmente em possíveis ataques a outros países, entre os quais Itália e particularmente a capital, Milão. Pessoas de aspecto árabe eram olhadas de lado e com medo. 
Lembro-me de um episódio no metro. Eram 18h e estava apinhado; eu ia para "casa". Um homem escuro de turbante tentava passar por entre as pessoas, apertadas como sardinhas em lata. Tinha nas mãos um saco branco enorme que passou por cima da cabeça das pessoas. Lembro-me do silêncio enquanto ele passava. As pessoas a olharem para ele muito desconfiadas; a respiração suspensa. Quando finalmente ele atravessou a carrugem e mais tarde saiu, quase se ouviu um suspiro colectivo de alívio. Eu pensei: "se de facto existe alguma entidade divina, que não permita que eu morra aqui sozinha e longe da minha família".
Uns 10 dias depois, um avião (pequeno) embateu num dos edifícios principais da zona de negócios de Milão, perto da estação central de comboios. Nesse dia tinha uma amiga de Portugal a visitar-me e durante o dia (era fim-de-semana), nas nossas passeatas, iamos ouvindo sirenes de bombeiros, polícia e muita movimentação estranha. Não percebíamos o que se passava. Ela ia embora no dia a seguir e nesse dia à noite percebi o que tinha acontecido. Só pensava: se esta cidade é atacada estou aqui sozinha.
Mas o piloto automático de defesa já estava em funcionamento. "Que aconteça o que tiver de acontecer, mas não me vai acontecer nada." No dia seguinte fui ver o edifício. Ainda tenho as fotografias que tirei nesse dia. Tinha nos andares cimeiros o recorte de um avião. Folhas de papel iam voando ainda para fora do edifício. Cá em baixo, toda a zona estava vedada, cheia de jornalistas, mas viam-se perfeitamente bocados de mobiliário de escritório por toda a parte e muito, mas muito papel branco. Parecia um manto de neve. Era impressionante.
Durante dias, semanas, a imprensa italiana acusou o governo de Berlusconi de estar a esconder quem tinha atacado o edifício. Havia várias versões, uma delas era a que um piloto se tinha suicidado. Outras diziam que tinha sido apenas um acidente com um piloto alcoolizado. Nunca percebi muito bem se tinha morrido também alguém lá dentro.
O engraçado é o modo como a mente humana funciona. Não sei se ficamos anestesiados e achamos que nada nos atinge, mas lembro-me de que apesar do ligeiro arrepio na espinha de medo pela possibilidade de alguma coisa correr mal, eu sentia que estava ali onde a acção estava a acontecer, estava no meio da História. Era, apesar de tudo, excitante. Uma aventura.

Hoje só penso que ainda bem que tudo correu bem aquela miúda, porque aventuras no meio de ataques ou de guerras não trazem felicidade a ninguém.

Hoje, por muitas razões sinto-me... Overcome: