terça-feira, 29 de setembro de 2015

As empregadas

Aqui há tempos o M. fez-me uma pergunta que me deixou perplexa. Estávamos na cozinha, eu a cozinhar, ele a fazer outra coisa qualquer, e diz-me:
- Mãe, quando é que uma empregada me vai buscar?
Não alcancei logo.
- Como assim? Qual empregada?
- Não sei... - disse ele.
- Nós não temos empregada.
- Ai não... ah.
- Porquê? querias ter uma empregada?
- Não sei. - Encolhe os ombros. E vivamente diz: - A empregada da X vai buscá-la à escola.
- Ahhhhh.... então a empregada era para isso?
Vê diariamente uns meninos cujos avós os vão buscar, vê também os pais de outros e por vezes vê "as empregadas" que ele nem entende bem o que são e o que fazem, e o que são àqueles meninos.
Se por um lado, acho que a pergunta dele foi light, por outro revela que observa e sabe diferenciar as coisas.

Tento passar-lhe a noção de que é positivo que sejam os pais a irem buscar os meninos (já vi vários a irem embora com elas sem qualquer emoção: não há saltos, nem beijos, nem mimos):
- M., mas tu já tens os papás que te vão buscar. - Largo o que estou a fazer e sento-me de frente para ele, enquanto lhe dou um abraço. - O pai vai-te levar e buscar todos os dias, e a mãe às vezes vai-te buscar. Já viste a sorte que tens de teres os papás ou a avó B. a irem buscar-te? Estamos sempre com tantas saudades tuas... As empregadas que vês na escola vão buscar os outros meninos porque os papás deles não chegam a tempo, trabalham até muito tarde. Provavelmente eles gostavam muito que os pais os fossem buscar, mas não é possível.

Ele assimila a coisa e... next.

Agora faço foward desta situação, passada há muitas semanas, e olho para mim, para nós agora. O outono chegou e com ele o trânsito. Fazemos um esforço, comum a todos os pais, claro, por ir levar e buscar os nossos filhos. Mas agora olho para o nosso esforço com tristeza e muita frustração. Se aqui há tempos ficaria quase indignada em mandar uma empregada buscar o MEU filho, agora fico com inveja quando vejo às 16h30, na escola aqui ao lado do meu trabalho, os miúdos a saírem pela mão de quem seja.
Fico de coração apertado ao pensar que o meu pintainho grande acorda todos os dias às 7h, às 7h40 já está a sair de casa, às 8h está na escola, e às 18h30 está o pai a ir buscá-lo para chegarem a casa às 18h45... por aí. Depende do trânsito, lá está.
Fico triste e tento afastar da cabeça o número de horas que ele passa na escola. Depois também tento pensar que no tempo que está lá, está a brincar, a aprender, a fazer desporto. Sei que se diverte. Sei que para ele aquilo não é um frete.
Mas custa-me. E sofro por antecipação a tentar pensar como será quando tiver aulas a sério e tiver TPC's todos os dias ou quase. A que horas se vai deitar então? Quero que chegue a casa e relaxe, descanse, esteja connosco.

Se aqui há tempos olhava crítica para ""as empregadas", agora olho para elas mais meigamente. Aqueles miúdos podem não ter os pais a irem buscá-los, mas vão para casa cedo e podem estar no seu ambiente bem mais tempo do que o meu pode... E sinto uma inveja. Uma raiva. Uma frustração por não podermos estar todos em casa mais cedo, estar mais tempo juntos. E amaldiçoo estes empregos que duram até às 18h, que não deixam tempo para nada que não seja a correr.

Quero mudar a situação, fazer algo. Mas ainda não sei o quê...