segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Meu querido M.

Meu querido M.,

Sei que o teu ano não tem sido fácil. Muitos ajustes para quem tem apenas 4 anos (e meio). Mudança de casa, mudança de escola e irmão novo. Tudo num espaço de poucos meses. É muito de facto. Muitas vezes as pessoas perguntam-me como foi o ajuste ao teu irmão, mas embora sinta muitas vezes que pedes agora mais atenção, o ajuste maior foi sem dúvida a escola. Penso que só agora começas a ficar mais adaptado a tudo, o que para mim é um alívio.

O início foi atribulado. Embora gostes sempre das tuas professoras, e embora ela sempre me tenha dito que eras muito sociável e brincavas bem com todos os meninos, quando chegavas a casa e me dizias que não tinhas amigos (isto durante semanas...) ou que x ou y te tinham batido, eu ficava para morrer. Só me apetecia ir à escola armada de uma bazuca e desfazer o miúdo que te tinha feito mal. Depois comecei lentamente a perceber (das poucas vezes que te ia buscar ou levar à escola - o teu irmão era bem pequenino e eu não dava para tudo - ou do que o teu pai ia vendo) que por vezes também tu batias (sem querer ou propositado mas numa de brincar às lutas). Depois comecei a assistir aos teus olás aos amigos novos com uma bruta palmada nas costas ou um empurrão. E percebi que a partir de agora irei sempre ouvir qualquer coisa sobre que te bateram ou empurraram, mas sei também que os pais dos outros também irão ouvir essas queixas sobre ti. Ainda não tinha percebido bem o que era ser mãe de um rapaz e acho que começo a perceber que o mundo masculino é bem físico. E se por um lado tens de te saber defender, por outro tens de ter noções de bem e do mal, do que é justo ou não.
És um bom miúdo e espero que assim sigas sendo.

Faço por ti (tal como faço outras coisas pelo teu mano) coisas que nunca fiz por ninguém. Faço pela nossa família coisas que nunca fiz por ninguém. E percebo que a minha mãe também já fez coisas similares por mim e pela nossa (agora desmembrada) pequena família.

Antes de chegares da escola corro para o teu quarto para ligar o aquecimento, para quando fores para o teu quarto dormir este esteja já quentinho (a zona dos quartos é tão fria); quando tomas banho no WC do nosso quarto, lá vou eu também ligar o aquecedor para que não apanhes frio; agora no inverno faço-te o miminho de aquecer o pijama antes de o vestires e sei que gostas. Todos os dias preparo a tua roupa para o dia seguinte e vejo o tempo que vai estar e tento decidir se levas uma camisola interior ou não, ou se levas algo mais quente ou frio.
Agora que andas com a boca cheia de cieiro, quase a fazer ferida, ando atrás de ti para te colocar o creme dos lábios para ver se isso melhora, e se um de nós se esqueceu de o colocar antes de te deitares, lá vou eu quando estás a dormir colocar-te isso meio às apalpadelas. Esteja sol ou chuva, frio ou calor, TODOS a última coisa que faço é ir ver-te ao quarto para ver se estás destapado, para te ajustar a roupa de cama (não preciso de fazer isso com o teu irmão porque este ainda não se destapa e porque tenho a câmara de vídeo ligada no meu quarto a noite toda). Sempre que chegas da escola exausto (levantas-te muito cedo e chegas a casa tarde) ajudo-te muitas vezes com as garfadas de comida, e perdoo-te os choros de sono enquanto dou mais uma colherada. Tento variar os teus almoços na escola para que tenhas uma alimentação variada. Tento dizer-te que sumo todos os dias faz os dentes ficarem podres porque têm muito açúcar (é difícil convencê-lo quando o amigo do lado leva sumo todos os dias para o almoço!), mas lá aceitas, e lá te vamos fazendo um mimo de vez em quando quando te mandamos uma fatia de bolo, ou pão com chocolate, ou leite com chocolate, ou até um sumo!
Tento fazer o que posso para o teu bem estar e o bem estar da nossa família. (Enfim... sou mãe, não é?) E como qualquer outra mulher faço o melhor que posso mesmo, e ponho-vos à frente das minhas próprias necessidades. Mas isto tudo tem um custo. O meu cansaço, e volta e meia, o extravasamento do meu cansaço, e às vezes a frustração por algumas coisas não correrem como eu quero. Por isso meu amorzinho, quando me perguntares se estou zangada (sem perceberes bem o porquê) dá-me um desconto. Quando eu levantar a voz e depois tu me perguntares se ainda estou zangada contigo, pensa que eu não estou verdadeiramente zangada contigo. Pensa que no segundo em que dizes isso me arrependo de ter gritado ou ter dado alguma palmada. Ou de andar a passar-me com todos cá em casa.

É verdade que certas alturas do mês não ajudam nada. Mas é o cansaço principalmente. E o pensar que se me sinto assim agora e ainda não estou a trabalhar... como será quando começar a trabalhar e mesmo assim não dormir bem à noite porque enquanto o teu irmão dorme que nem um anjinho, eu com a ansiedade de que ele é tão pequenino ainda, espreito o telemóvel com a imagem dele a dormir ou a mexer-se ligeiramente, enquanto as horas passam. Ou quando acordamos com os teus pesadelos. Ou quando todos estes mil pormenores que têm de ser feitos cá em casa me levam a que esteja tão agitada que não prego olho...
Nunca estou verdadeiramente zangada meu fofo. Só cansadita. Mas depois descanso melhor e a coisa passa-me. Nunca me zango verdadeiramente contigo, sou manteiga derretida :)