terça-feira, 21 de outubro de 2014

O dia em que o P. nasceu

O que sentir quando nos dizem, uma semana depois de termos ido à consulta e de estar tudo bem, tudo normal, que o líquido amniótico diminuiu consideravelmente e por isso perdemos quase 1kg, e que por isso o melhor é o bebé nascer o quanto antes? no dia seguinte para sermos mais precisos?
Indução foi a palavra chave e a que me deu arrepios. Já ouvi falar muito em induções e o que oiço nunca foi fantástico (mega dores, etc etc). Mas o médico assegurou-me que não ia ser nada de mais, ainda por cima com o colo do útero favorável (dilatação já de 1,5 cm) - provavelmente o corpito já sábio e a saber o que ia acontecer, 2º filho.
Amanhã??!!
Bom... eu sabia que daquela semana não passava - estava de 39 semanas e o meu obstreta não é fã de passar para mais do que as 40 semanas. E o M. tinha nascido com esse tempo. Com ajuda dos famosos toques... E eu odeio o raio dos toques (atenção - aqueles que é para fazer nascer as crianças, não os toques só para ver e coisa e tal).
O meu estomago deu reviravoltas de nervosismo.
Amanhã...
Lá ligámos o piloto automático e em poucas horas estava o esquema montado para nos assegurarmos das coisas do M., acabar a mala dele, juntar as coisas da escola, e preparar tudo para que no dia seguinte a avó avançasse com a sua rotina.
O nosso dia seguinte começou cedo (curiosamente nessa noite até dormi bem, embora tenha quebrado antes de me deitar e os nervos tenham dado lugar as umas quantas lagrimitas) e às 8h30 estávamos no hospital.
Nova nervoseira, mais lágrimas. O M. ia deixar de ser o meu filhote único e querido e nem lhe tínhamos dito que a partir desse dia o irmão ia chegar (sou supersticiosa... é deixar ver como as coisas se desenrolam e só depois dar a notícia), que o seu mundo ia mudar mais uma vez (1º foi a casa, depois foi a escola e agora o irmão... hajam acontecimentos!). E depois o parto... Caramba, quem disser que da 2ª vez tudo é mais fácil mente. Os medos estão lá na mesma, a lembrança de um primeiro parto bem doloroso (embora até curto segundo a "norma"). Cada nascimento é um mundo novo e tudo pode acontecer. E essa incógnita deixava-me nervosa (e angustiada até).
Mas controlei-me e a equipa que me acompanhou foi simplesmente espetacular. E vivam os partos induzidos!!

Às 10h fui para a sala de dilatação (adoro esse nome hehe). E... colocação de gel no útero para início de contrações. Observação: é do caraças!! foi o que mais me custou no parto todo... No fim chorava baba e ranho como uma criança pequena. Fosga-se... mulher sofre pá... Não é justo.
Mas tinha uma enfermeira que foi 5 estrelas e que me tratou como se trata uma princesa. Muito calma, explicava tudo. Picou-me, colocou-me tubos, etc e trinta por uma linha - aquelas maravilhas que quem já teve filhos sabe...

Para quem não sabe as induções com gel são quase tiro e queda. E passados poucos minutos já a máquina acusava umas belas contrações e eu a começar a queixar-me... E de repente eram contrações quase seguidas. Não houve aquele processo lento das contrações normais que se vão encurtando e doendo cada vez mais. De repente nem respirava, nem tinha tempo. O meu corpo era uma máquina em funcionamento. Passo uma gravidez inteira sem contrações, sem notar nada (à excepção de algo mto leve quase no fim) e de um momento para o outro... zás... vamos lá para a frente com isto.
A minha querida enfermeira lá entrou em ação, anestesista venha cá, epidural para a veia (ou seja para as costas - também doeu que se fartou, bolas...), e de um momento para o outro... o paraíso!! O meu sorriso voltou e eu era toda paz e amor em vez de guerra e cara de má (ou de dor). Fabuloso! Nem queria acreditar! desta vez a epidural tinha funcionadoooo!! iupiii! Soube finalmente o que era a maravilha de levar uma epidural e conseguir dormitar de seguida, mesmo que na máquina os valores das contrações estivessem a rebentar com a escala.

Passado um belo bocado - novas dores - e zuca... toma lá mais droguinha que não precisas de sofrer.
Nisto já eram 13h e tal, quase 14. Mais um toque para ver como estava a minha máquina a funcionar. E pelos vistos estava muito bem. Faltava pouco para a dilatação completa. Eu nem queria acreditar.
E a minha querida enfermeira lembra-se da bola de pilates que estava nesse quarto (da outra vez não me lembro nada daquilo, nem queriam que eu me levantasse). Vamos para a bola vá, essa bacia tem de acabar o trabalho, a cabeça do bebé está super bem posicionada e só falta mais um bocadinho. Segui as instruções dela. Sentei-me na bola e gira devagar para aqui e para ali. Passados nem 2 minutos aconteceu o que ela previra. Um peso gigante a abater-se lá em baixo. Pensei: caraças! vai sair agora! ai, ai, ai, ai...
Mas... na! :) Isto não é assim meus amigos e amigas :) (a não ser para aquelas mulheres dos vídeos do youtube)
Mas toca lá de carregar na campainha e dizer que algo se estava a passar. Venham rápido. Entram novamente o meu médico e enfermeira, vamos lá a ver, humm... faça lá força um bocadinho, pronto, páre. Vamos para a sala de partos.

14h25 Vamos lá a isto então.
14h26 Faça lá força. Isso. Outra vez.
14h27 Mais uma vez, o tempo que conseguir aguentar. (O médico: "querem ver que eu não estou aqui a fazer nada, está a conseguir fazer isto sozinha, o bebé está basicamente a nascer sozinho com o seu trabalho.")
14h29 Sinto a cabeça do bebé a sair. Muita pressão mas zero dor, bendita epidural. Começo a ver o médico a agarrar em algo.
14h30 O P. está cá fora :))
Aquela visão novamente de um gato esfolado a chorar desalmadamente. O céu.

Desta vez - e ao contrário do que aconteceu com o M. (que nasceu de ventosa e desapareceu da minha vista segundos depois de mo mostrarem, para ver se estava tudo bem), o P. foi colocado sobre mim calmamente, sem pressas. Lembro-me do tempo abrandar. Lentamente passei o olhos por aquele ser tão pequenino que se agitava. Era perfeito. Um corpinho lindo. E o mais curioso: uma cabeça redondinha como se não tivesse passado por lado nenhum. E uma cara fofíssima, zangadita e confusa de quem vê o mundo pela primeira vez. Uma carita que me lembrava de já ter visto antes. Meu Deus! Ele era igual ao M. lol Tão, mas tão parecido!
E o tempo parou mais um bocado. Com calma pude fazer-lhe festas, passar a mão por aquele corpito pequenino que ainda agora estava dentro da minha barriga. Desta vez apreciei o milagre da vida com outra calma. Foi... magnífico. Muito, muito especial. Pude olhá-lo com calma, bebê-lo, respirá-lo, cheirá-lo, tocá-lo.

Era mãe de novo.